Indústria naval em risco de não ter fundos comunitários

A Associação das Indústrias Navais (AIN) reclamou hoje um instrumento de recapitalização destas empresas sob pena de o setor ficar fora dos fundos do próximo quadro comunitário de apoio, entre 2014 e 2020.

Em causa estão as exigências impostas às indústrias de construção e reparação naval nacionais que, segundo explicou o secretário-geral da AIN, José Ventura de Sousa, obrigam nomeadamente a uma autonomia financeira de 15% para permitir a candidatura a fundos comunitários, como aconteceu no anterior quadro.

"A maioria dos nossos estaleiros não tinha essa autonomia financeira, mas valores muito mais baixos. No novo quadro, se essa exigência se mantiver, novamente os estaleiros não terão capacidade para concorrer", reconheceu José Ventura de Sousa.

O responsável falava durante um seminário dedicado ao setor da construção e reparação naval, promovido em Viana do Castelo pelo Diário de Notícias. Os oradores presentes neste encontro reclamaram que a estratégia nacional para o mar, anunciada pelo Governo, passe "das palavras aos atos", nomeadamente através do Ministério da Economia.

"Ou existe um instrumento de financiamento que permita a esta indústria recapitalizar-se ou os estaleiros terão muita dificuldade em concorrer a este novo quadro", sublinhou Ventura de Sousa, salientando que em Portugal o setor emprega, de forma direta, mais de 3.500 trabalhadores.

"Mas esse número, em termos de postos de trabalho diretos e indiretos, pode ser facilmente multiplicado por cinco", admitiu.

Os fundos do próximo quadro comunitário, reconheceu, poderiam ser utilizados na modernização dos estaleiros nacionais, processo tido como decisivo para a sua afirmação no mercado internacional e em novos produtos, como as energias renováveis.

Segundo números oficiais, existem em Portugal mais de uma centena de empresas da área da construção e reparação naval, mas apenas cerca de duas dezenas têm "alguma dimensão", indica a AIN.

Na generalidade, estas empresas apresentam um nível elevado de endividamento e, por outro lado, uma autonomia financeira e liquidez baixa, pelo que os níveis de eficiência económica são reduzidos.

A recapitalização destas indústrias, defendeu o secretário-geral da AIN, poderia passar por uma "facilidade de acesso" a linhas de financiamento. Sem repetir, no entanto, cenários do passado, como quando o Estado entrou no capital destas empresas, dando por isso como exemplo os Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC).

"O facto de ser um estaleiro do Estado tem criado dificuldades. A pouca competitividade dos ENVC também deriva de ser um estaleiro do Estado e por depender da Defesa, enquanto os outros dependem da Economia", reconheceu Ventura de Sousa.

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