Milhões das privadas superam os do futebol

Instituições de ensino superior privado movimentam em média 383 milhões de euros por ano, valor superior a sectores que mexem com muito dinheiro, como a Liga portuguesa. Ainda assim, faturação está longe de significar lucro e há instituições em dificuldades.

O ensino superior privado movimenta em média mais de 383 milhões de euros por ano, um valor superior a outros sectores tidos como bastante lucrativos. É o caso do futebol profissional, onde os orçamentos dos clubes da I Liga deste ano se ficaram pelos 260 milhões de euros. Apesar disso, há instituições a passar por dificuldades, decorrentes da crise e da fuga de alunos para o ensino superior público.

O estudo "O Custo dos Estudantes no Ensino Superior Português", coordenado pela investigadora e pró-reitora da Universidade de Lisboa, Luísa Cerdeira, concluiu que os custos de educação dos alunos do privado rondam os 4349 euros anuais. Multiplicando este valor pelo número de alunos contabilizados pelo Ministério da Educação em 2011, 88 290 inscritos, chega-se ao valor aproximado do que encaixam as entidades privadas: 383 milhões de euros.

Os 4349 euros anuais não contabilizam custos de vida, como o alojamento ou a alimentação, mas apenas os gastos com o curso. Os estabelecimentos privados encaixam uma verba muito próxima deste valor (que no geral quase atinge os 400 milhões de euros), uma vez que o mesmo estudo indica que entre 92% e 94% deste "bolo" é destinado a "propinas, matrículas e outras taxas", sendo os restantes "outras despesas, como livros ou equipamentos".

Os custos com o curso no ensino superior privado é assim 3,5 vezes superior ao público, onde a média é de apenas 1241 euros. A investigadora Luísa Cerdeira explica que esta diferença "se justifica devido às propinas que são, naturalmente, mais elevadas. Além disso, o privado tem de gerar receitas, que só podem vir de um sítio: as propinas".

Se for feita uma distinção dentro do próprio ensino superior privado, verifica-se que, em média, os custos de educação são mais elevados no ensino politécnico (4690 euros) do que no ensino universitário (4225 euros). "Isto acontece porque nos últimos anos alguns politécnicos privados perceberam que tinham mercado na área da saúde, um nicho com muita procura, e puderam aumentar as propinas", explica Luísa Cerdeira.

Privadas vão à bola com os milhões

Muitas vezes o futebol é visto como um sector que movimenta muito dinheiro. No entanto, olhando para os orçamentos do principal escalão do futebol (este ano ficaram-se pelos 260,5 milhões de euros, mas normalmente rondam os 300 milhões), é fácil constatar que o ensino superior privado é um negócio com alguma relevância na economia portuguesa. E a comparação com o futebol é feita pelas próprias instituições privadas para demonstrarem que sobrevivem quase sem apoios estatais. "Os estabelecimentos privados de ensino superior recebem menos benefícios fiscais que os clubes de futebol", lamentou o presidente da Associação Portuguesa do Ensino Superior Privado (APESP), João Redondo.

O valor elevado não significa que os estabelecimentos de ensino superior estejam a nadar em dinheiro. Há instituições onde lucros ou proveitos (cooperativas e fundações não têm fins lucrativos) têm caído nos últimos anos, como efeito da crise e da fuga de alunos para o público.

Quebras chegam aos 360%

Os milhões que o sector movimenta não tornaram as instituições imunes à crise. Se há entidades que conseguem crescer na atual conjuntura, algumas das maiores do sector têm visto os seus ganhos decrescer de ano para ano. Os proveitos da Cofac - cooperativa que detém a universidade privada com mais alunos (a Lusófona de Lisboa) e mais cinco estabelecimentos de ensino superior - recuaram cerca de 360% no último ano. O relatório e contas da cooperativa, a que o DN teve acesso, demonstra que, em 2010, a entidade teve um resultado positivo de 2 169 100 euros, contra apenas 591 082 euros em 2011.

No entanto, os resultados continuam a ser positivos, daí que seja destacada no relatório a manutenção do "equilíbrio financeiro". O mesmo documento mostra que só em propinas e mensalidades pagas pelos alunos, a Cofac arrecada 55 milhões de euros por ano, uma subida em relação a 2011 (ver texto ao lado), o que corresponde à maioria das receitas, que atingiram os 59,6 milhões de euros no último ano. Por outro lado, as despesas não permitem resultados mais positivos, sendo que só os "gastos com pessoal" (principal despesa) absorvem 65,3% das receitas. A entidade gerida por Manuel Damásio gasta assim cerca de 40 milhões de euros só em salários.

O Unisla - uma SGPS que detém os ISLA de Santarém, Leiria e Gaia - apresentou no último ano quebras ainda maiores: mais de 430%. Em 2010, este grupo teve proveitos de 277,5 mil euros, que passaram para resultados negativos de 93,4 mil euros. O Unisla também é gerido por Manuel Damásio, a quem não poderá ser imputada a responsabilidade destes resultados, uma vez que só em novembro de 2011 o Grupo Lusófona adquiriu estas três instituições. Também em curva descendente está o Instituto Piaget, entidade que conta com cerca de 2000 alunos e que viu os seus resultados líquidos diminuírem (de 2,7 milhões em 2010 para 1,2 milhões em 2011). A cooperativa que detém a Universidade Autónoma também está a braços com dificuldades.

Mas o cenário não é negro para todas as instituições: a cooperativa que detém a Universidade Portucalense tem crescido de forma sustentada nos últimos anos. Em 2008 tinha um resultado líquido negativo de 537 mil euros, que se transformaram em proveitos de 3 245 000 euros em 2011. Também a fundação FEDRAVE, entidade instituidora do Instituto Superior de Ciências da Informação e Administração, tem conseguido aumentar os ganhos. Os 35 693 euros de resultados líquidos positivos em 2008 passaram a 1 080 356 de euros no último ano.

O facto de existirem instituições que conseguem passar incólumes à crise está relacionado, no entender de João Redondo, com "o crescimento das instituições de ensino superior privado, que sempre foi mais regulado do que o público". O presidente da APESP destaca ainda a "capacidade que o ensino superior privado tem demonstrado para conseguir reagir às adversidades em momentos de crise", ao mesmo tempo que lembra que o grande impulso das instituições privadas, "nos idos de 83", coincidiu com a segunda ajuda externa do FMI ao País.

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