Valeu a pena

Se houve esperança na revolução de 25 de Abril de 1974, ela traduz-se nas palavras "melhoria de vida". Liberdade foi um facto, melhor vida uma esperança. Num país pobre e para um povo pobre, analfabeto e sem direitos sociais, a revolução trouxe de imediato a esperança que só encontrava na rota da emigração clandestina para França nos anos 60. A pé por caminhos desconhecidos, os portugueses seguiam para a Europa sem nada nos bolsos, sem papéis legais, apenas com vontade de encontrar trabalho e melhor vida.

Num país pobre e devassado por três guerras coloniais, os portugueses viviam na tristeza da ditadura e sabendo que direitos sociais eram palavras proibidas. É certo que no tempo de Marcelo Caetano tinha sido "dada" - sublinho, "dada", e não "conseguida" (palavra inexistente) - uma reforma mínima aos trabalhadores rurais, que se traduziu numa enorme melhoria de vida para muitos, uma reforma de esmola a quem nunca tinha descontado mas toda a vida tinha trabalhado a terra. Igualmente nesse período da ditadura os sindicatos tiveram um maior crescimento da sua influência e deixaram de ser uma correia de transmissão do regime corporativo. Mas o conceito de direitos dos cidadãos foi uma importante conquista da revolução de Abril. A par da liberdade, é essa talvez a mais importante conquista da revolução. Tão importante, que 30 anos depois tem-se por vezes a sensação de que se "ganhou" o direito à igualdade perante a lei e à plena cidadania, sem que haja com tanta frequência a noção dos deveres de cidadania.

A imagem da mais brutal ausência de direitos sociais retenho-a no que se passava no Alentejo pobre desses anos. Para ter trabalho, muitos vinham de terras distantes da serra ou viviam nas aldeias pobres do campo e iam diariamente às "praças de jorna", isto é, juntavam-se no largo das vilas ou cidades à espera que chegasse alguém, um capataz de algum proprietário, e o contratasse para trabalhar por um dia ou por uma semana… Muitas vezes e muitos dias do ano não chegava ninguém.

O mais chocante da ditadura em que Portugal viveu cerca de meio século e que marcou gerações de portugueses era exactamente o conceito de que os portugueses não eram iguais nos direitos. Havia os ricos e os pobres, os homens e as mulheres, os pretos e os brancos. E estavam muitas vezes interiorizadas na mentalidade dos cidadãos essas diferenças, e sentiam-se no quotidiano. Humildade, reconhecimento e agradecimento eram as atitudes marcantes.

A seguir à revolução lembro-me do primeiro cargo autárquico que desempenhei. Fui então eleita para a Assembleia Municipal de Lisboa (a primeira resultante de eleições livres), e um senhor importante eleito pelo então CDS e ainda pouco experiente em órgãos de gestão democráticos ficava furioso nas reuniões por não poder mandar calar um "qualquer pobre eleito" que vinha de um bairro de lata e - imagine-se! - falava livremente e dizia o que achava que devia dizer. Pior ainda, do seu ponto de vista: é que o camarada tinha tanto tempo para falar como o sr. Importante! Um dia a situação agravou-se quando o Sr. Doutor o resolveu tratar por tu e o outro respondeu com um evidente "Tu? Ó fascista!"… Muitas vezes comentámos em conversa, eu e o Eng.º Abecassis, também do CDS, e um óbvio democrata, os esforços imensos que ele fazia para tentar explicar-lhe que eram estas as novas regras do regime (democrático).

O direito à reforma para todos os cidadãos, mesmo os que nunca tinham descontado (porque isso não existia), como muitos médicos ou por exemplo as domésticas, a que se juntam outros direitos na velhice, na doença, na maternidade, na morte ou no desemprego, e particularmente o conceito de que a segurança social é um dever para quem desconta e um direito para quem precisa, são conceitos que chegam a Portugal com o 25 de Abril.

Só pela conquista da liberdade a revolução de 1974 tinha valido a pena. Mas acrescentar à liberdade a conquista na lei e nas mentalidades de direitos sociais e de cidadania torna o 25 de Abril de 1974 num dia inesquecível de esperança e alegria para quem o viveu como eu vivi.

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