"Portugal era a feira cabisbaixa do O'Neill"

O cineasta António-Pedro Vasconcelos, que tinha 35 anos há 35 anos, recorda os tempos em que era difícil ser jovem num País vigiado e em que nem se podia beijar a namorada em público, mas onde também era impossível ser um velho intelectual activo e respeitado num regime que perseguia inteligência e liberdade

Pensou dedicar o seu filme Oxalá a Pinhet, o autor do índice que excluía do serviço militar os muito magros e muito altos, ainda utilizado quando António-Pedro Vasconcelos foi "às sortes" (inspecção militar), pouco antes de começar a guerra colonial. Se tivesse sido mobilizado para África teria ido viver definitivamente para Paris. E, em vez do alter ego com que, no filme estreado em 1984, o cineasta se cruza a ler as notícias no Le Monde sobre o 25 de Abril, estaria a recriar o seu próprio exílio, o regresso para ver a revolução e, após aqueles anos, o retorno à cidade onde a figura central compra os Gauloises do seu quotidiano.

Assim, o crítico e realizador que passou metade da vida no regime fascista e a outra metade na democracia, inspirou-se nos amigos que ficaram na capital francesa (o pintor Jorge Martins, a poetisa Luísa Neto Jorge, o argumentista Carlos Saboga, o cineasta Mário Barroso) e com quem conviveu enquanto ali esteve, durante quase três anos, já casado e com uma bolsa da Gulbenkian para estudar Cinema.

Não é fácil explicar a uma jovem de hoje - que julgará que o querem gozar quando se conta que a primeira televisão do realizador foi comprada a prestações para ver um jogo internacional do Benfica ou que chegou a pôr no "prego" (essa instituição antiga, onde se deixavam objectos, fosse a máquina de escrever ou o par de sapatos, como garantia do dinheiro emprestado) a aliança de casamento e o esquentador da casa de banho - o que era ter 21 anos no Portugal das décadas de 50 e de 60.

Até à primeira metade dos anos 60 , sem classes médias nem consumo, "não havia onde gastar dinheiro". Nessa época, "era preciso arranjar um sítio com uma cama, garantir que se conseguia comer qualquer coisa, algum dinheiro para cigarros (nunca fumei, a não ser, mais tarde, charutos) e para ir ao cinema, comprar uns livros (que também se roubavam) e uns discos de vinil". Em 1958, quando foi estrear o novo edifício da Faculdade de Direito de Lisboa, havia ali apenas um automóvel - toda a gente andava a pé ou de transportes públicos.

Só a partir de 1966/67 é que começa a surgir um maior consumo (televisão, semáforos, novos cafés) e, naturalmente, o boom da publicidade, que deu emprego a muita gente, dos escritores (O'Neill, Sttau Monteiro, Alves Redol, Ary dos Santos) aos cineastas (Fernando Lopes, José Fonseca e Costa e António-Pedro Vasconcelos, que filmou uma centena de anúncios).

O pior era, contudo, esse "ambiente de Feira Cabisbaixa, como tão bem definiu [no livro de poemas] o Alexandre O'Neill". Expulso de um café por beijar a namorada ou a conversar olhando sempre para a mesa do lado e tentando perceber se havia algum informador da PIDE a ouvir o que se dizia, com uma censura que só deixava projectar Os Quatrocentos Golpes depois de fazer 14 cortes no filme de Truffaut, ao sair dessa Lisboa provinciana, fechada e vigiada para Paris da liberdade e da vivacidade o choque era enorme.

Um jovem português de hoje, além de não sentir a vergonha ("era quase humilhante, a não ser que se tivesse, como cartão de visita, o estatuto de exilado, desertor, resistente") de ser identificado com o País da ditadura e da guerra colonial - o que era inevitável até 1966, "quando tudo mudou por causa do Eusébio no Mundial de Inglaterra" -, também não sente o mesmo contraste entre Portugal e o resto da Europa.

António-Pedro Vasconcelos julga que, apesar das facilidades actuais, "os jovens não fazem a viagem com a curiosidade" de alguém que partia para apreciar as obras-primas do madrileno Museu do Prado ou para comprar discos dos Beatles em Londres (trouxe o Abbey Road para um amigo que fazia o programa de rádio Em Órbita). No fundo, com a mesma necessidade interior de quem viu em Paris, vinte vezes seguidas A Bout de Souffle, o filme de Godard que, além de muito sintonizado com a sua geração, demonstrava que, "mesmo sem grandes meios de estúdio, se houvesse talento, podíamos fazer cinema em Portugal". Em contrapartida, agora, "sem fronteiras nem passaporte, um jovem vai até Praga sempre a encontrar McDonalds e a conversar só em inglês".

E, no entanto, além de ter escapado ao serviço militar, a vida do crítico e cineasta não é o melhor retrato da sua geração, mesmo restrita ao universo culto e lisboeta.

Em primeiro lugar porque, casado aos 21 anos (e, pouco depois, com dois filhos), começou cedo a trabalhar. Em 1961, estagiário no jornal República, ganhava 1100 escudos - nenhum dos seus amigos trabalhava, e alguns deles, chegavam a passar alguma fome. Convém lembrar que, nesse tempo, ou se tirava um curso para ser médico ou advogado, ou as saídas eram em número reduzidas e "as profissões muito proletárias". Além disso, havia umas traduções, um dinheiro ganho ao poker, pouco mais.

Ao longo dos anos, admite, "ganhava razoavelmente, entre jornais [foi critico da Imagem, Colóquio, O Tempo e o Modo, Flama e chefe redacção do Cinéfilo], publicidade e documentários" - quando Ricardo Malheiro fundou a Cultura Filmes, que encomendava documentários, para a Gulbenkian ou para a indústria, filmou Exposição de Tapeçaria, 27 Minutos com Fernando Lopes Graça e Indústria Cervejeira em Portugal.

A sua contestação ao regime também nunca foi muito enquadrada nos partidos clandestinos nem nas mais incipientes estruturas políticas. "Assediado para entrar no PCP, como toda a gente da minha geração [até porque os comunistas dominavam o Cineclube Universitário e a revista Imagem], apesar de ter ideais revolucionários, não aderi (nem nenhum dos meus amigos da época) porque li, quando era muito novo, um livro sobre os Processos de Moscovo e fiquei a saber o que era o estalinismo." O livro, obviamente, era em francês, a língua em que contactou com os escritores americanos, também com Kafka ou Thomas Mann, até com a versão que Blaise Cendrars fez de A Selva, de Ferreira de Castro, obra em que alguns consideram que a tradução excede o original.

Na mesma altura, "li Marx e achei fascinante"; mais tarde, "embora sem nunca ter alinhado com o maoísmo, também Mao me pareceu (então) mais genuíno". Mas, sobretudo, a sua primeira grande afinidade foi com a revolução cubana, com "aqueles jovens que vieram da Sierra Maestra para derrubar o regime de Fulgêncio Baptista e, depois, apareciam na ONU com barbas e charuto". De tal forma que, "numa das deambulações nocturnas por Lisboa, a conversar com um amigo, chegámos a pensar ir viver para Cuba".

A sua participação mais activa, embora relativamente breve, foi com o MAR (Movimento de Acção Revolucionária), "que se dedicava a ajudar uns tipos a fugir à tropa - mas aquilo, que até tinha santo e senha, parecia-me um bocado à Tintin [a figura da Banda Desenhada]". No fundo, a forma do seu grupo de amigos se manifestar era, por exemplo, distribuírem-se por uma sala onde era projectado um filme português daquela época e começar a patear - como fizeram no Éden, a 6 de Maio de 1960, na estreia de Cantor e a Bailarina, de Armando de Miranda, acabando todos na esquadra.

Apesar de ser de esquerda e anti-salazarista, "por não estar muito envolvido em actividades subversivas ou clandestinas que o colocassem sob a mira da polícia", ao contrário de muitos outros, nunca teve problemas para sair e entrar no país, o que seria fundamental para quem se define como cosmopolita, inconformado, curioso.

Na comparação entre épocas (que podem ser apreciadas, a cada nível etário, pelos dados da infografia publicada nestas páginas), há também o lugar dos que, antes do 25 de Abril de 1974, tinham a idade actual de António-Pedro de Vasconcelos e, nalguns casos, o reconhecimento público: 70 anos.

"Um lado tenebroso do regime é que os intelectuais ou se exilavam, como o Jorge de Sena, ou então desistiam, morriam por dentro", sublinha o realizador. Havia excepções com quem ainda privou, como os escritores Alves Redol ou o Carlos Oliveira, que "estavam vivos, parecendo dar sentido àquela expressão em que Nietzsche diz que 'aquilo que não te mata, torna-te mais forte'". Para alguém que, a par dos nomes contemporâneos (Beatles, Bob Dylan, Godard), sempre viveu numa admiração pelos mais velhos (Rosselini, Renoir, Hitchcock), este lado do fascismo lusitano era quase incompreensível. Afinal, ou "o intelectual tinha de pensar sozinho, falando disso numa tertúlia semi-clandestina de café, ou, então, era activo, mas tinha traído qualquer coisa".

Para "uma geração muito brilhante e culta - no meu caso, até aos 25 anos, já tinha lido todos os romances, visto todos os filmes e quadros importantes -, mas que acabou por não dar o que prometia", era preciso encontrar saídas. E o crítico cinematográfico procurava escapar a esta pequenez de espírito, passando a ir, com as despesas pagas pelas publicações para que trabalhava, aos festivais de cinema de Cannes e Veneza.

Depois, fixou para sempre esse Portugal, "em que as mulheres ainda não iam aos cafés e só podiam ir ao estrangeiro com autorização do marido", na sua primeira longa-metragem. Um dos primeiros contemplados com os subsídios da Gulbenkian, em 1971 rodou Perdido por Cem, em torno de Artur, um rapaz da província (interpretado por José Cunha) que aproveita uma boleia de Rui (papel confiado a José Nuno Martins) para se escapar para Lisboa. Numa das cenas, filmada em directo na Pastelaria Suíça, no Rossio, o protagonista "lia Musil e olhava para as pessoas que por ali estavam, quase só homens, todos de chapéu, vestidos de negro, cinzento ou azul escuro, com uma aspecto taciturno, como se fosse a Feira Cabisbaixa do O'Neill".

Actualmente, já não será necessário imitar aquele José Caeiro (personagem de Oxalá interpretado por Baeta Neves ) que, sem conseguir adaptar-se a um Portugal de mentalidade diferente e sem o conforto de hoje, na ressaca da revolução que provocara admiração no Mundo, volta para Paris e para essa outra vida sintetizada no maço de cigarros Gauloises.

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