A saída da cepa torta

Passados 35 anos, o 25 de Abril é uma daquelas datas de excepção que nos transportam ao passado e a um dia inesquecível. Não vale a pena despejar uma tonelada de indicadores económicos e sociais para ilustrar a distância entre a vida de hoje neste canto da Europa e a que existia então. Limito-me a sugerir aos leitores do DN de amanhã que meçam a dimensão quase surreal do País de antes de Abril no artigo "Lembro-me de que...", da autoria de Ferreira Fernandes, inserido no caderno especial dedicado à Revolução dos Cravos.

Hoje, com uma economia 3,2 vezes maior da que existia em fins de 1973 (o que, ao longo de 35 anos, dá a respeitável taxa de crescimento real média de 3,4% ao ano), os problemas são totalmente outros. Há oito anos que andamos a marcar passo, com um crescimento real medíocre de 0,8% ao ano, o que nos vai afastando do nível de vida real dos parceiros na Zona Euro. E, a somar a isso, existe o sentimento generalizado de que não conseguimos sair desta cepa torta. O sentimento de um vaivém sem descanso e sem sustentabilidade: depois dos ganhos, que a Revolução de Abril impôs, veio o severo ajustamento até 1987; depois dos anos dourados do fim da década de 90, novo aperto do cinto, até hoje.

Em vésperas de três fortes embates eleitorais, com toda a experiência acumulada das diversas orientações políticas na governação e da actividade das oposições ao longo das três décadas passadas, o tema difícil que exige respostas claras é o da compatibilização de uma estratégia de crescimento mais vigoroso com a melhoria gradual, mas sustentada, de quem trabalha ou atingiu já a reforma. Há quem venha defendendo com insistência que uma coisa anula a outra: para reforçar as empresas e os rendimentos (lucros) dos detentores do capital é forçoso aumentar a pobreza relativa dos excluídos dos meios de produção. Mas há também uma outra teoria e uma outra prática - a da social-democracia nórdica - que aponta para uma via intermédia de partilha de rendimentos capital e trabalho, com ganhos reais para ambos. A condição é justamente um forte crescimento real, com ganhos continuados de produtividade e competitividade baseados numa força de trabalho cada vez mais qualificada e produtiva. E envolvida na vida e nos resultados das empresas onde trabalham.

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