Quando o teatrodesceu ao Portugal Profundo

Uma companhia só conseguiu abandonar a aldeia com protecção da tropa.  O actor  Leandro Vale  fundou em Bragança, há trinta anos, o primeiro grupo profissional

De repente, o fogo da palavra tinha voz e rosto em palcos improváveis, a imaginação e muita vontade tornavam o espaço cénico. Lugar de sonhos libertários. Sacudida a censura, o teatro, exclusivo de algumas cidades, descia às terras mais distantes. Pouco depois do 25 de Abril, o beirão Leandro Vale deixa o Teatro Experimental do Porto (TEP) e funda, em Bragança, o primeira grupo teatro profissional. Dá-lhe o nome de Teatro em Movimento, e, como o nome sugere, andarilha há mais de três décadas. No Estúdio António Pedro, sede do grupo, na cidade de Bragança, já se produziram dezenas de espectáculos, para públicos vários, que a companhia partilha em diversas localidades de Trás-os-Montes. A digressão, depois, estende-se ao resto do País. E, como a s palavras são apátridas, o Teatro em Movimento ultrapassa a fronteira. Não foi empresa fácil, nos primeiros tempos, a itinerância no Portugal profundo. Havia desconfianças, medos antigos à força da palavra. Num espectáculo na aldeia de Águas Frias (Chaves), conta o actor e encenador, certa vez, a recepção foi mais gélida do que o nome da própria terra. À hora do espectáculo, na cantina da escola, nem um espectador. Mesmo assim, a companhia entrou em cena: lentamente, apareceram as primeiras pessoas; no final, via-se uma sala lotada e os actores recebiam aplausos. Qual o mistério da gente de Águas Frias? O presidente da Junta desvendou-o, já noite alta na companhia de presunto e vinho, a Leandro Vale: "Tiveram sorte, os últimos que estiveram só saíram com protecção da tropa. O povo não gostou do que viu e ouviu!".

Mais Notícias