Nascente das águas

A aventura do feminino em Portugal começou com o 25 de Abril.

E quando, passados tantos anos, penso nesse dia, nessa data, vejo a liberdade, e a seu lado a mulher. Vejo o sonho, e a seu lado a mulher. Vejo a esperança, e ao lado dela a mulher.

Primeiro só vulto e depois já imagem.

E tal como o 25 de Abril foi uma imensa festa de júbilo, o começo da aventura do feminino também o foi em sobressalto, mulheres que iam então pelos caminhos da luz, vindas da sombra onde as portuguesas tinham sido fechadas: mordaça, invisibilidade, disfarce das feições e da fala, como uma burka que as asfixiasse; enfaixadas pela inexistência, como os pés das antigas chinesas.

Sem nenhuma valia.

Sem individualidade.

Impedidas de decidirem sozinhas, nem sequer naquilo que dizia respeito à sua vida; autorizadas somente a imaginar o nada, pela própria cabeça.

Tempo irrespirável.

Existência irrespirável, destruída pelos desmandos e as arbitrariedades, pelas desigualdades e estereótipos, pelas violações, pelos espancamentos. Em suma, pelo sexismo, com o seu cortejo de crueldades, humilhções, desprezo e violência.

Com o 25 de Abril as mulheres entenderam o prazer de ter voz e vontade, e uma vida pensada e escolhida por elas próprias. Na descoberta de haver o contrário do que até então tinham conhecido: o avesso, o inverso, o reverso da tradicional saga de infelicidade, que sempre as obrigaram a cumprir, como sendo destino trágico e inevitável das portuguesas.

A aventura do feminino em Portugal começou pois com o 25 de Abril: a liberdade, a alegria e o canto, encantamento e surpresa. Lembro-me quando em Abril e em Maio elas vieram em massa para as ruas vestidas de vermelho, bandeiras de si mesmas. Como escrevi na altura: "Tanto povo! / Tanto povo! / Tanta bandeira / vermelha! / Tanta mulher que caminha / Cantando à sua maneira".

E é do seu novo canto, novo olhar e sentido do sentir, da inovação do expressar e querer, que partiu a descoberta de um outro feminino, recriação de uma feminilidade forte e simultaneamente dúctil, e por isso mais rica e cinzelada, adornada pela mudança; diversa maneira de a mulher se encarar, reconstruindo-se, em liberdade de escolha.

Por isso eu digo que o 25 de Abril foi o começo da aventura do feminino em Portugal. Dando a ver às mulheres as asas do corpo, a dissonância da ousadia, o prazer da insubmisão e da rebeldia, despertou nelas a vontade de buscar caminhos, rigores e direcções reveladoras do que sempre calara, escondera de si mesma. O que lhe permitiu tomar rumos, rotas, navegações e atalhos desconhecidos, subirem ladeiras e colinas, perderem-se nas florestas e nas matas do mundo, para se reencontrarem depois nas clareiras.

E nessa viagem, a encontrar primeiro a nascente das águas e em seguida o segredo do fogo e da noite; hoje a aridez e amanhã o enredar da ternura; aqui o vacilo, ali o equilíbrio, trocando a brandura pelo entusiasmo, a obediência pela paixão, por vezes desabrida.

Desatando os nós, os laços, as pedras atadas aos seus passos.

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