Jogar matraquilhos no cibercafé Aloísio

A alteração de gostos  dos portugueses  a partir de um  velho café de aldeia que tem Internet  e onde se joga a sueca  com os  sinais de sempre

Os clientes nocturnos do Café Aloísio, na aldeia de Árvore, desconhecem o tempo em que a fisga era a arma da infância e a lousa, objecto delicado, o mágico espaço onde se escreviam as primeiras letras. Essa geração pertence ao Portugal passado, orgulhosamente só, do falso esplendor salazarista. O antigo Café Aloísio, numa zona rural de Vila do Conde, é agora gerido por um jovem: Francis Barbosa: Acompanha os sinais do tempo, os novos hábitos de Portugal europeu. Global.

Por isso, como se os novos gostos exigissem nova ortografia, a palavra café depressa seduziu um prefixo: agora é cibercafé, na justa medida da aldeia. Do tampo do balcão sumiu o copo de vinho (bíblico vinho), que os remotos camponeses bebiam em gestos vagarosos para, desse modo, a bebida cobrir toda a prosa.

São jovens, na sua maioria, os frequentadores do café. A mão no telemóvel, sempre a dedilhar céleres mensagens; uma passagem pelo YouTube. No enorme plasma, onde raramente se vê telejornais, na noite de sábado emergem as letras de canções que alguém cantará, em versão muito pessoal. Nas sessões de karaoke, enfim, juntam-se as gerações da fisga, do SMS e a mais recente: a geração Magalhães, fascinada com o canto. No cibercafé Aloísio também existe bilhar de matraquilhos. Ou melhor: os matraquilhos continuam, resistem a todas as modas: é marca do passado sem ser, contudo, nostálgica peça de museu. E nos matraquilhos, tal como no karaoke, não há conflito de gerações - porque certos gestos parecem tocados pela intemporalidade.

Mais Notícias