'As donas de casa' no mundo dos homens

A ditadura  considerava-a "o bem da família".  Tinha escassos direitos,  quase propriedade do marido: em 35 anos, a mulher salta as cercas que lhe oprimiam a dignidade

"Nunca houve nenhuma dona de casa que não tivesse imenso a fazer", dizia Oliveira Salazar. O Estado Novo queria a mulher em casa, "o bem da família", dependente do marido, que a representava e por ela decidia em "todos os actos da vida conjugal comum". Maria dos Anjos, 40 anos, casada, três filhos, não pertence a este tempo. Foi das primeiras mulheres a chegar à Escola Superior de Polícia, desempenhou cargos de chefia em diversas esquadras do País, hoje é comandante da Divisão Trânsito do Comando Metropolitano do Porto. Natural da Covilhã, quando decidiu ingressar na PSP não contou com o apoio do pai, um homem que usava farda. "O meu pai era da GNR e achava que, para mim, havia outras coisas mais interessantes a fazer." Esqueceu o conselho paterno, sente-se realizada na carreira que escolheu livremente. Entrar num mundo que, durante muito tempo, pertencia quase em exclusivo aos homens, "aos chefes de família", não foi problema para a agora subintendente Maria dos Anjos: a receptividade "tem sido boa". Pequenos problemas encontrou-os, no início, em certas instalações da PSP, "sem condições para senhoras". Mas as marcas, físicas ou não, do tempo em que o trabalho fora de casa era para os homens estão apagadas na sociedade portuguesa. Parecem memória longínqua estas palavras de Cândida Parreira, uma das raras deputadas na Assembleia Nacional, proferidas em 1934, durante uma acção eleitoral: "Sim, minhas senhoras, o Estado Novo eleva a mulher ao lugar que lhe compete! Nem reivindicações que a masculinizem, nem indiferença que a avilte."

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