ABRIL PESOU NA CARREIRA MILITAR

A maior parte dos militares que estiveram directamente envolvidos no 25 de Abril de 1974 e no 25 de Novembro de 1975 conseguiu refazer as suas carreiras. Mas muitos viram a sua progressão interrompida. Os que já não estão no activo auferem pensões de reforma à volta dos 2500 euros mensais. Também há aqueles que foram parar a outras profissões

Os militares envolvidos nos acontecimentos do 25 de Abril e no 25 de Novembro, que ficaram nas Forças Armadas independentemente do lado da barricada em que estiveram, conseguiram refazer as suas carreiras.

Contudo, sublinha a investigadora Manuela Cruzeiro, "os principais militares de Abril ficaram com as carreiras interrompidas" porque, salvo raras excepções, ficaram no posto de tenente-coronel. "Os militares que estiveram verdadeiramente implicados ficaram basicamente" naquele posto, enquanto "os que são hoje generais [como Ramalho Eanes ou Tomé Pinto, entre outros] são os mais importantes protagonistas do 25 de Novembro", acrescentou aquela responsável do Centro de Documentação 25 de Abril , da Universidade de Coimbra.

"Era por isso que Salgueiro Maia dizia, com ironia, "os implicados no 25 de Abril "", referindo-se a um castigo e não a um prémio para aqueles entraram na Revolução dos Cravos, lembrou ainda Manuela Cruzeiro.

Pensões baixas

Além das divisões ideológicas e das marcas deixadas pelos acontecimentos revolucionários, as principais figuras do 25 de Abril acabaram por seguir carreiras distintas.

Vasco Lourenço foi um dos fundadores da Associação 25 de Abril , a que preside desde então, dedicando-se a preservar a memória desses acontecimentos.

Enquanto Ramalho Eanes entrou directamente na política, outro general de então e que chegou a chefe do Estado-Maior do Exército no início dos anos 1980, Garcia dos Santos, usou a profissão de engenheiro civil obtida nas Forças Armadas para continuar a sua vida profissional. Hoje, como general de quatro estrelas reformado, a sua pensão ronda os 3100 euros limpos.

Já o vice-almirante Vítor Crespo, oficial-general de três estrelas, tem uma pensão mensal na casa dos 2500 euros líquidos, abaixo do limite dos 80% dos oficiais com aquele posto. Membro da comissão coordenadora do Movimento das Forças Armadas e do Conselho da Revolução , Vítor Crespo manteve-se nas fileiras até ao limite de idade.

"Em geral, os militares de Abril passaram à margem [dos casos de] corrupção" que têm marcado a vida democrática do pós-25 de Abril , enfatizou ontem ao DN Vítor Crespo, que agora se dedica à investigação em astronomia medieval.

Outro general que prosseguiu a sua carreira militar foi Tomé Pinto, com uma passagem de vários anos pelo comando da GNR. Depois de deixar as fileiras, envolveu-se no processo de paz angolano, especificamente na formação das Forças Armadas daquele país lusófono. Actualmente continua a ter fortes laços com Angola, onde tem dado conferências.

Rocha Vieira envoveu-se também na política. Depois de ser representante da República na região autónoma dos Açores, o general foi nomeado governador de Macau, cargo que desempenhou nos anos que antecederam a entrega desse território à China. É o actual chanceler das ordens honoríficas.

Costa Martins, que conseguiu refazer a sua carreira até ao posto de coronel - e obter a própria reintegração na Força Aérea - por via judicial, no início dos anos 1990, dedica-se hoje ao sector do urbanismo. Contudo, "continuo a lutar pelo meu bom nome e pela verdade", onfessou ontem ao DN. Recorde-se que esse oficial da Força Aérea, que ocupou o aeroporto de Lisboa aquando do 25 de Abril , foi destituído do cargo e das funções que exercia no ramo sem ser ouvido.

Costa Martins, que recebeu mais de 400 mil euros aquando da sua reintegração, tem uma pensão na casa dos 2500 euros.

Neste caso das pensões, registe--se que o seu valor difere muito de caso para caso e mesmo entre oficiais com a mesma patente, pois o cálculo depende, entre outros pormenores, da data de saída das fileiras. 

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