"Os políticos abdicaram perante os comandos financeiros"

Numa entrevista exclusiva ao DN, Manuel Maria Carrilho falou da sua visão da política portuguesa e da importância dos 35 anos de democracia para o país.


Diz-se que os portugueses apreciam governantes de pulso forte. Concorda?

O que os portugueses apreciam são governantes que saibam combinar a capacidade da boa decisão com o efectivo conhecimento dos problemas. Mais do que de "pulso forte", os portugueses apreciam quem tem uma visão de futuro do País, uma visão estruturada, integradora, e que sejam capazes de a partilhar, motivando os cidadãos.

Vive-se essa realidade actualmente em Portugal com José Sócrates, mas a contestação crescente à sua forma de exercer o poder política é visível. Teria sido possível outro modo de exercer a governação?

São sempre possíveis vários estilos, mas é bom ter em conta que o exercício do poder é hoje uma arte muito difícil, e por diversas razões. Em primeiro lugar, porque nos últimos 20 anos se desenvolveu uma ideologia de "menorização" da política, segundo a qual o mercado resolveria tudo e bem. Viu-se!... Depois, a invocação dos constrangimentos europeus à mais pequena dificuldade criou uma impressão de impotência dos governos nacionais, que a globalização veio reforçar. E isto no contexto de uma crise que está a abalar todas as certezas das últimas décadas. A situação é, pois, propícia a…

Essa contestação é real, nascida no eleitor, ou empolada pela comunicação social?

Claro que tem sempre uma base real. A crise é bem real, local e globalmente, todos o sentimos. Mas também não podemos esquecer que a comunicação social - como acertadamente explica Castells - vive fundamentalmente de três coisas: do acontecimento, desprezando a sua explicação; da fulanização, desvalorizando os projectos e as ideias; e do conflito, secundarizando ou ignorando o seu contexto. Goste--se ou não, é com isto que é preciso saber lidar, com espírito aberto e com sentido pedagógico.

Ao fim de 35 anos de democracia parece que os partidos políticos com representação parlamentar já entraram na terceira idade. Estarão esgotados na sua expressão da vontade popular?

Os partidos estão, todos eles, muito fechados em si próprios, nos seus problemas e interesses. Como já uma vez disse, entrámos no século XXI com partidos que não querem sair do século XIX. O que, naturalmente, desmotiva os cidadãos, hoje divididos entre solicitações muito diversas e com um quotidiano extremamente difícil. Mas a sociedade - a que, e bem, se chama "civil" - reserva sempre surpresas… às vezes grandes surpresas! Precisamos de partidos que sejam simultaneamente antenas da sociedade e laboratórios de ideias.

Nascidos num tempo em que a esquerda e a direita eram palcos com uma clara definição, qual a razão para os partidos políticos buscarem o centro como modo de responder ao eleitor?

A atracção pelo centro tem resultado, entre outros factores, da indiferenciação ideológica, da fragmentação social e da segmentação eleitoral, não se esqueça que é o centro que faz, ou "compõe", as maiorias. Mas pressinto que o tropismo, a atracção centrista, já teve melhores dias…

A passagem à História dos líderes carismáticos que dominaram o cenário da política (Soares ou Cunhal, por exemplo) não fez nascer lideranças com o glamour necessário para que a política interesse ao cidadão. Será esta a realidade?

O que aconteceu, e aumentou o fosso entre a política e os cidadãos, foi também que os políticos se tornaram nos bodes expiatórios de quase tudo o que corre mal. Mas isso não aconteceu por acaso. Aconteceu porque eles próprios abdicaram, perante a força dos "comandos financeiros", do poder legítimo que os eleitores lhes delegaram, sem no entanto desistirem, digamos, do palco. Tornaram-se assim na face visível - excessivamente visível, sem dúvida - do problema. Mas, como tantas vezes acontece, a face invisível é muito mais interessante…

A fixação dos movimentos sociais como expressão que se substitui aos partidos parece estar a acontecer. É a resposta dos tempos ou será efémera?

As pessoas, as sociedades, procuram sempre, em cada momento, alternativas àquilo que não as satisfaz. E nem o que surge está condenado a ser efémero, nem o que já existe tem garantias de eternidade. Ao contrário do que tantas vezes se diz, os partidos não são a "essência" da democracia - se existe uma tal essência, ela encontra-se na liberdade de expressão e na escolha do Governo pelos cidadãos através do voto livre.

E qual é a solução ao nível político?

O facto é que, até hoje, não se descobriu nenhuma alternativa realista aos partidos, pelo que é neles que continua a encontrar-se a chave da revitalização da democracia. E quem é que não vê que no "criticismo" dos partidos se esconde, muitas vezes, um demissionismo tão conformista como cómodo?

De onde vem o sucesso de protagonistas do passado, como Manuel Alegre, que se beneficiam dessa "onda" antipartidária?

Não são os "protagonistas do passado" que contam, são os protagonistas com história, o que é bem diferente. Porque a história é fonte de compreensão, que é ainda o que as pessoas mais procuram. O sucesso de que fala decorre disto e de uma forte afirmação no registo dos valores. Mas atenção, valores sem programa de acção podem ser, em política, um caldo de equívocos sem fim…

Que reformas aponta como necessárias para o estado deste Estado?

Portugal precisa de um novo desígnio, de algo que, como um íman, concite uma grande convergência de vontades e de sonhos, de energias e de ideias - é o que já tenho chamado o desígnio de uma "Nova República". Mais do que de comemorações mais ou menos formais, era à volta desta ideia que se podia organizar o Centenário da República, que é já para o ano. E esse desígnio poderia, a meu ver, dar forma ao salto que todos ambicionamos dar no caminho de um país mais qualificado.

E tem propostas concretas?

Do que, a meu ver, Portugal precisa é de uma qualificação estrategicamente pensada, capaz de concretizar em objectivos, em timings e em financiamentos o "triângulo mágico" da qualificação. Isto é, que seja simultaneamente uma qualificação do território, das instituições e das pessoas. É isso um desígnio, algo que conquiste magneticamente as pessoas, que projecte o País no tempo, com um sentido de empenho, de construção e de fraternidade.

Acredita, então, nessa Nova República como uma solução para Portugal. Um projecto quase antigoverno?

É por aqui que, sem quimeras tecnológicas, seria hoje possível retomar a utopia educativa dos fundadores da República. Essa utopia, esse desígnio, poderia dar corpo a um Conselho de Ministros e a um vice-primeiro-ministro que lhe fossem especificamente dedicados. A uma dotação dos fundos europeus que ultrapassasse os 50% do financiamento global. À consagração dos professores como os "heróis do nosso tempo", que enfrentam todas as crises de que todos fogem: da autoridade, da família, da democracia, etc. À aposta de tirar as nossas universidades do fundo de todos os rankings e de criar uma que disputasse os primeiros lugares. À ambição de retomar criativamente, em termos de projecção internacional, as nossas raízes mundiais. Ao impulso de fazer da comunicação um instrumento de emancipação dos cidadãos, não da sua idiotização. E podíamos continuar, pensando sobretudo nos jovens, numa Nova República centrada no seu futuro.

A adesão à União Europeia fazia prever uma realidade para Portugal bem diferente da que a actual crise provocou. Essa situação desmotivará a participação eleitoral nas europeias?

Estou cada vez mais convencido de que o que falta na política é boa oferta, é inovação e qualidade. É essa, parece-me, a principal lição da eleição de Obama. Não foi a Internet, como muitas vezes se diz, que o levou à vitória, mas a sua visão, os seus argumentos e o seu estilo. Onde não há entusiasmo, não é a Internet que o cria.

Qual a razão de a participação do cidadão português no projecto europeu ser demasiado diminuta face aos benefícios que já auferiu?

A integração europeia teve bons resultados para Portugal, mas também estimulou uma irresponsabilidade, digamos, adolescente, criando a ideia de que há sempre alguém para ajudar, que aparece sempre um "Brasil" quando as coisas são difíceis. Foram, têm sido em média cerca de dez milhões de euros por dia… e assim será até 2013! É hoje incontroverso que houve desatino, muito betão (estamos no podium europeu das auto-estradas!) e pouca, muito pouca, aposta na massa cinzenta. Muita pressão de obra e de imediato, e pouca visão de futuro e de longo prazo. A Europa passou a ser um dado adquirido, não se vive como um projecto que mobilize as pessoas, que apele à participação.

Compara-se muito esta crise à de 1928/9 mas a de 2008/9 não possui uma dimensão global que questiona de um modo muito mais vigoroso os valores em que está fundada a actual civilização ocidental?

Sem dúvida, a novidade está, em primeiro lugar, em que esta é a primeira crise simultaneamente global e estrutural do capitalismo. E, depois, em que ela aponta para uma mudança de paradigma, não no sentido de um modelo alternativo - que é preciso reconhecer que não existe -, mas no sentido de alterar profundamente os padrões de vida dominantes, no que se refere ao consumo, ao valor do trabalho, às rotinas do crédito, etc. É por isso que se pode, com propriedade, falar de crise de civilização. E, para lá disso, como J. Attali defende no seu La crise, et aprés" (que acaba de ser traduzido para português), ela impõe um reequilíbrio fortemente regulamentador ao nível global, entre o poder dos mercados e o poder da democracia, do Estado de direito. Sem esse passo, é de temer que de pouco servirão os planos que por todo o lado se têm anunciado em catadupa…

O fim do anterior regime não foi um abrir de porta para uma revolução cultural como seria de esperar. O que falha na cultura portuguesa para que raramente signifique prestígio internacional?

Há meses, ao ler a correspondência de Sophia com Jorge de Sena, encontrei uma carta de Abril de 1976 em que ela escrevia que "o problema, a tragédia de toda esta revolução, é a sua incompetência cultural." Talvez... mas repare, se há área ou domínio em que Portugal existe, globalmente falando, é o da cultura - seja na literatura ou na arquitectura, no cinema ou na música, nas artes plásticas ou na dança… A cultura é um "trunfo", que um país com as raízes mundiais que Portugal tem podia ser muito mais potenciado.

Ao fim de 35 anos qual o veredicto para o 25 de Abril: culpado ou não culpado?

É importante que o clima de pessimismo que se vive não obnubile o essencial, que é o carácter democraticamente redentor do 25 de Abril. E não se responsabilize o 25 de Abril por aquilo que, colectivamente, não fomos capazes de fazer desde então. Só um novo desígnio nos tirará do pessimismo actual - a "Nova República" é uma proposta nesse sentido.

A presidência de Durão Barroso é criticada por não ter actuado de um modo suficientemente enérgico para que a UE lidere o processo de saída desta violenta crise. Concorda com a acusação de pas- sividade de Sarkozy, por exemplo?

O "passivismo", essa espécie de entusiasmo na submissão a um suposto destino (a expressão é de Emmanuel Todd), é infelizmente um traço muito generalizado. A situação actual, a gravidade da crise que vivemos, impõe outra atitude, caso a Europa pretenda assumir-se como uma potência política, ao nível da primeira potência científica e técnica que ela efectivamente é. E, aqui, do que se trata é de a Europa ser capaz de dar o passo para o governo económico, para a criação de um espaço público comum e para a estruturação da sua dimensão cultural, no sentido lato do termo. Sem esse passo, é a própria unificação europeia que - e isso poucos o vêem ou, pelo menos, o dizem - pode estar comprometida.

Há quem diga que o projecto europeu está em perigo!

Por isso continuo a defender o referendo constitucional europeu, simultâneo em todos os países da UE, que instituísse o povo europeu como entidade política. E digo-o porque penso que a Europa chegou aos limites da sua construção pragmática, que consistiu em identificar-se com o seu mercado e em pôr entre parêntesis a sua natureza política e cultural. No fundo, apostou-se que uma Europa sem substância era o que melhor combinava com a globalização. Mas todos os sinais apontam, sobretudo desde o "não" de 2005, para o esgotamento desta orientação. A Europa continua, politicamente falando, por fundar.

A reeleição de Durão Barroso justifica-se?

A Europa precisa de audácia, de visão e de tenacidade - aguardemos pelas eleições para o Parlamento Europeu, de 7 de Junho, para saber o que pensam os europeus.

A sua nomeação para a UNESCO trará benefícios para além dos poucos a que estamos acostumados a retirar destes cargos?

Mais do que pensar em benefícios, temos que pensar nos deveres e nas responsabilidades de Portugal no concerto internacional. E a UNESCO é uma organização determinante no âmbito da educação, ciência e cultura, domínios de cuja relevância ninguém duvida. Isso mesmo leva a que hoje, mais de 60 anos passados sobre a sua fundação, muitos desejem que ela se consiga reinventar, tendo em conta os desafios inéditos que o mundo enfrenta. Também aqui se procura uma nova visão.

Onde estava no 25 de Abril de 1974?

Em Lisboa. Passei o dia entre a Baixa e a minha casa a ver a Revolução.

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