A novela da pessoa mais famosa do mundo

O DN está a publicar uma série de textos sobre a figura da princesa Diana, o seu legado e percurso. Hoje, a sua relação com o príncipe Carlos, a sombra permanente de Camilla, a figura pública e a vida privada, a sua proximidade com a gente comum e os seus dramas.

Um pesado livro, de suculentas páginas e imagens inesquecíveis, narra a história de uma desditosa princesa. Tudo começa com um "Era uma vez". No fim, não aparece "E foram felizes para sempre". Nem "The End". As personagens são Diana , Carlos, Camilla, entidades concretas como a realeza, o povo, os media. A heroína morreu aos 36 anos, num túnel de Paris. Está sepultada em Althorp, propriedade da família, em Inglaterra. Dez anos depois da morte, as audiências continuam fascinadas com o que lhe sucedeu em vida. Foi, nesse tempo, a pessoa mais famosa do mundo.


A princesa no sofá da sala!


"Há [entre mim e o povo] um entendimento incrível. Top of the Pops, Coronation Street, todas as telenovelas. Diga uma... eu segui-a. A razão pela qual as vejo ainda, não é tanto pelo interesse nelas, mas é porque, se vou para fora, seja Birmingham, Liverpool ou Dorset, falo de um programa de televisão e estamos no mesmo nível. Decidi isto sozinha. Funciona tão bem! Toda a gente as vê. E se eu digo: 'Viu isto e aquilo?' Fico imediatamente ao mesmo nível. Não sou a princesa e eles o povo: é o mesmo nível". Diana podia ser "estúpida como uma porta", como ela mesma declarava para fazer charme e baixar as expectativas; mas era magistral na relação com os súbditos. Também com os media e com uma nova ideia de realeza que corporizou. Mas falemos dos súbditos.


Ela catapultava-os para um outro patamar. A humanização da realeza atribuída a Diana pode, grosseiramente, resumir-se nesta frase: uma princesa de verdade, de que a tiara é a prova evidente, sentou-se connosco no sofá da sala para seguir dramas de todos os dias. Uma como nós. Em todo o caso, especialmente distinta. As suas pernas eram altas e torneadas, a pele tinha um brilho acetinado, o cabelo exibia uma cor irrepreensível, os olhos tinham o azul das princesas dos contos de fadas.


As telenovelas. Tratavam, como tratam sempre, de dramas comuns. A sua vida confirmava o que ali se passava. A vida na realeza, afinal, também era feita de ciúme devastador, ambição desenfreada, de pequena e grande mentira, sofrimento, lamúria, jogo de enganos. Também de ostracismo, imaturidade, distúrbio alimentar, solidão. Para além dos ingredientes-base que funcionam como as batatas e a cebola numa sopa: as pedras preciosas, os vestidos que arrasam os demais, as viagens à volta do mundo, os palácios de cortar a respiração, os círculos onde poucos são admitidos. Mas, na caderneta em que a vida desta princesa se transformou, os cromos são impressos num papel excepcional, o brilho é refulgente. Não há camisolas puídas, os dentes nunca estão cariados. As fotografias são iluminadas a rigor e, por força da repetição, acreditamos naquilo que elas dizem.


O que dizem as fotografias…


Se acreditarmos nas fotografias, vemos uma mulher adorada, sorridente como o Sol, a apertar a mão a leprosos e doentes com sida. Uma Santa Diana do Ocidente. Se acreditarmos nas fotografias, descremos nas suas palavras, anos mais tarde, quando o conto de fadas estava em avançado estado de decomposição: "Atirei-me pelas escadas abaixo quando estava grávida de quatro meses do William, para tentar obter a atenção do meu marido."


Nas fotografias não lhe conhecemos os desaires, os casos adúlteros, as crises de choro - o marido, Carlos, lamentava a má sorte de ter uma mulher chorona; e queixava-se à mãe, Isabel, a Rainha, de que a bulimia estava a dar cabo do casamento… Nas fotografias não podemos perceber aquilo que ela mesma confessa ao biógrafo Morton: que a noiva que acena esfuziante no seu coche de Cinderela, descobrira dias antes que o marido tinha uma amante de nome Camilla. Alguém o suspeitou, quando a viu sorrir na varanda de Buckingham Palace? "O lado público era muito diferente do privado.".Como em todos nós. "No público, queriam a princesa encantada, que vinha, tocava-os, transformava tudo em ouro e fazia desa - parecer as suas preocupações. Poucos compreendiam que o lado individual estava crucificado" (A Verdadeira História de Diana ", de Andrew Morton).


Santa e pecadora


Em que ficamos? Na santificada vítima de uma instituição sufocante, ou na megera manipuladora que tudo fazia por um pedaço de atenção? Seria tola a ponto de não enxergar o desastre iminente? Ou seria a starlet que leu os romances de Barbara Cartland e transformou a vida num deles?


Nestes romances, as flores nunca chegam a murchar. Talvez sejam de plástico, porque na realidade não há flores eternas. Os romances de Car-tland provocam congestão dos sentidos. No caso de Diana foi mais grave porque foram os únicos que leu! "Em Cartland encontrei todas as pessoas com quem sonhei, e tudo aquilo por que esperei", disse uma vez.


E aqui a tragédia junta-se à comédia: a incontestada rainha da literatura rosa era nada mais nada menos do que a mãe da madrasta de Diana ! Uma madrasta freudianamente odiada, ou não estivéssemos em pleno conto da Cinderela. Raine não é uma mulher dispensável se queremos entender o fio desta trama. Raine é a bruxa má que roubou o coração do pai!


Era uma vez …


Muitos anos antes do "Era uma vez" que trouxe Diana às nossas vidas, ela viveu uma vida em que não era famosa. Estranho: houve um tempo em que também ela não foi famosa. Mais estranho ainda: ninguém podia prever que a mais nova e gorducha das irmãs Spencer , que não era especialmente boa em nada, se transformaria na pessoa mais famosa do mundo.


Nesse tempo, ela era apenas a filha adorada. A que consola o pai depois do abandono da mãe. A que faz de conta que não existe vergonha social perante um vulgaríssimo adultério. Diana aprendeu nesses anos a viver na duplicidade em que toda a sua vida assenta. Chorava com a mãe as intermináveis lágrimas de fim-de-semana, confortava o pai com sorrisos afectuosos durante a semana. Uma parecia saber pouco da outra. Em separado, ambas tinham uma prestação exemplar. Diana aprendeu a ser as duas. Numa só.


Afinal havia outra…


Rever Diana no "Panorama" da BBC, o celebérrimo programa em que confessa que o seu comportamento não é impoluto, é assistir a uma epifania: fica-se a conhecer uma nova mulher. Que usa olhos de carneiro mal morto. E os revira para nos contar da infelicidade em que vive submersa. Três, num casamento, são sempre uma multidão. Ela, Carlos e Camilla. Além de outra tríade poderosa: a família real, os media e os amantes de Diana . Duro, muito duro.


No princípio do "Era uma vez", Diana era a menina de boas famílias que imaginava, aos 14 anos, que o seu destino seria casar com alguém que tivesse exposição pública. Um diplomata, talvez. Ela era "virgem e sacrificial" (nas suas palavras), fácil de manobrar, e por isso foi escolhida para casar com o Príncipe Carlos.


O sacrifício era em prol do reino e o casamento de grande conveniência. A virgindade era uma espécie de assunto de Estado quando o que estava em causa era o corpo de onde nasceria o futuro rei de Inglaterra. É verdade que ela respondeu que sim, que of course estavam apaixonados, quando um jornalista lho perguntou no anúncio do noivado. Of course? Se exceptuarmos a virgem inocente, a ninguém mais ocorreria semelhante resposta. A própria avó de Diana , citada por Tina Brown, considerava disparatado falar de um grande amor. Não era disso que se tratava.


Caldo entornado


Casaram e não foram felizes para sempre. Contraria o conto de fadas, mas assenta bem no melodrama em que a vida de Diana se transformou. O mais espantoso é que são faces da mesma moeda. Da mesma Diana . Como a sua fraqueza é a sua força. É por causa do seu coração partido, da sua sorte desditosa que a identificação se faz, e transversalmente. É por causa da sua vocação mediática, do génio para lidar com os media que o mundo acompanhou os passos que deu. É por causa da sua proximidade com a gente comum e com os dramas infelizes que o recém-empossado Tony Blair inventou, sobre a notícia da sua morte, o cognome "Princesa do Povo".


A sua vida, e sobretudo a morte, atingiram audiências insuperáveis. Foi irrelevante que ao seu lado estivesse Dodi Al Fayed. Um playboy cocainómano de quinta categoria, não fosse o pai ser proprietário do Harrods. Mas a imagem final é resplandecente e foi tirada por Testino.


Livro aberto


Como passou de uma cara redonda e doce a uma imagem esculpida e "fosforescente" (Tina Brown)? Mais do que a mão, a cara por de mais fotografada de Diana funciona como mapa. Nela se lê tudo. Os seus passos, as suas quedas. É essencial para entender o fenómeno em que se transformou.


Não se pode compreender como uma mulher impreparada ascende a tal posição se não se compreender que todos nós vivemos melodramas como o seu. Todos saboreámos os detalhes comezinhos da sua vida e verificámos que no nosso quintal havia uns parecidos. Um "nós" colectivo amou-a como personagem de ficção, vibrou com a revolta e a subsequente vitória sobre os opressores. Repudiou a manipulação descarada, o calculismo, a estratégia, o cinismo. Apreciou os vestidos com redobrada volúpia. As gravidezes. As campanhas de solidariedade - a sua imagem em Angola, ao lado de um menino estropiado, é tão famosa quanto a de Armstrong a pisar a Lua… Ficámos amigos de Elton John, dançámos com John Travolta.


Como Marilyn ou Dean, morreu cedo. Ficou cristalizada num tempo, não foi sujeita à decadência, à velhice, à erosão. E com a morte, perdoámos tudo. Já passaram dez anos.

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