A senhora porta-voz

Vai falar em nome da União Europeia a partir do dia 1 de Julho

Tem o episódio intacto na memória: a reunificação da Alemanha foi anunciada, em Fevereiro de 1990, numa conferência que juntou a NATO e o Pacto de Varsóvia, em Otava, com o objectivo de lançar as negociações do Tratado Open Skies (Céu Aberto). "Foi um momento muito marcante", afirma ao DN Clara Borja, a recém empossada porta-voz da presidência portuguesa da União Europeia .

Instalada numa das salas do Palácio das Necessidades, em Lisboa, a diplomata de 47 anos conta como foi coleccionando pedacinhos de História ao longo de 20 anos de carreira. E como foi construindo uma identidade a partir de experiências vividas em países como os EUA, a França e a Itália. Quanto ao novo desafio, confessa que espera ter um dia-a-dia muito "trabalhoso e estimulante", com "briefings permanentes para informar a imprensa o melhor possível".

Filha de embaixador, Clara Borja nasceu em São Sebastião da Pedreira e foi para Paris aos três meses, sendo o francês a sua língua materna. Fez todo o liceu em França. Mas foi nos EUA que residiu mais tempo. "Vivi em Boston, zona de estudantes, onde havia muitos hippies", recorda, sublinhando que estava lá quando "foram assassinados Bob Kennedy [irmão mais novo do presidente JFK] e Martin Luther King [activista dos direitos humanos e Nobel da Paz]".

Assinalando que a década de 60 foi uma altura em que os EUA "questionavam muito a sua identidade", Clara Borja refere que gostou muito "das pessoas, porque eram abertas, muito simpáticas e informais". Quanto à França, país onde vai sempre, destaca uma educação que é muito "virada para fazer as pessoas pensarem pela sua própria cabeça". Aspecto que considera indispensável.

Terminado o liceu, aos 18 anos, volta a Portugal e inscreve-se no primeiro curso de Economia da Universidade Nova de Lisboa. "Eu era o número seis da Faculdade de Economia", lembra, entre risos, enu me- rando alguns dos seus professores estrela, "como Abel Mateus ou o falecido reitor Alfredo de Sousa".

Fez depois uma pós-graduação em Economia Europeia na Católica e chegou a trabalhar num banco. Mas a paixão pela História e pela política acabou por falar mais alto. Foi admitida no concurso para adidos de embaixada, em 1986, juntamente com outros 30 candidatos. Estes foram, por sua vez, seleccionados entre um total de 600. "Houve muita gente porque as candidaturas não abriram durante quatro anos."

No seu primeiro trabalho como adida ficou, precisamente, responsável pela área das relações Leste/Oeste na então direcção dos Serviços de Defesa, Segurança e Desarmamento. Teve, por isso, a oportunidade de assistir à negociação do tratado sobre armas convencionais na Europa. Aquele que a Rússia agora quer abandonar por causa do escudo antimísseis dos Estados Unidos.

Ocupou-se, entre 1991 e 1994, da explosiva pasta da Jugoslávia, passando pela missão portuguesa junto da UE e pela área do Magrebe e Médio Oriente durante a segunda presidência portuguesa da UE em 2000. Esteve, até agora, como número dois na representação portuguesa na Organização para a Segurança e Cooperação na Europa em Viena. "Entrei na OSCE a 16 de Agosto de 2005. Lembro-me porque fazia anos", diz, explicando o quanto apreciou o tempo passado na capital austríaca, "uma cidade muito ligada à música. Autêntico centro de melómanos".

Questionada sobre o papel de um porta-voz num país sem grande tradição de porta-vozes, a diplomata, que estará baseada em Portugal, admite que é "essencial" ter uma "imprensa bem esclarecida". Quanto ao período de tempo que teve para preparar o novo cargo, dois meses, recusa entrar em especulações e diz só "que se faz o melhor que se pode com o tempo que se pode". |

Esta é a terceira vez que Portugal assume a presidência europeia desde a sua adesão em 1986. A primeira foi em 1992, quando o "clube" ainda tinha o nome de CEE, contando com 12 países. O porta-voz foi então Fernando Balsinha, jornalista da RTP, que entretanto faleceu. A segunda foi em 2000, quando o "clube" já dava pelo nome de UE, contando com 15 países. O porta-voz foi o embaixador Fernando Neves, ex-secretário de Estado dos Assuntos Europeus, actual secretário-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros. "Foi a primeira pessoa com quem falei. Ele deu-me sugestões e disse-me que, por vezes, ser porta-voz até foi muito divertido", conta Clara Borja ao DN.

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