A CHINANA ÁFRICA

A importância atribuída pela presidência portuguesa da União Europeia às relações Europa-África, com sólida justificação histórica e estratégica, articula-se com o quadro de referências organizado pela Cimeira Mundial de Setembro de 2005, teoricamente vinculada ao UN Millennium Development Goals.

Será naturalmente tida em conta a política da China em relação à África, tornada pública com sentido de cooperação no âmbito das Nações Unidas. Até ao fim da década de setenta do século passado, a China intervinha ideologicamente na área dos 3 - AAA (Ásia, África, América Latina), fazia circular o conceito de cidade planetária para abranger todo o norte rico do mundo, acompanhava de várias formas os movimentos de libertação, mas estava de facto afastada da ONU, em cujo Conselho de Segurança era Taiwan que exercia o estatuto de membro permanente.

Mas a partir de 25 de Outubro de 1971, pela Resolução 2758 da assembleia geral, o Governo da República Popular foi proclamado como o único legal representante do país. A partir de então, e em vista da composição dos votos, 26 dos quais foram de países africanos, não deixou de ser invocado o conceito de Mao, segundo o qual "foram os nossos irmãos africanos que nos introduziram nas Nações Unidas".

É natural que as políticas de imagem das soberanias recomendem moderação aos leitores das mensagens com que alimentam a opinião pública, mas neste caso não pode deixar de prestar-se a devida atenção à avaliação de Kofi Annan: depois de salientar que a cooperação China-África, no âmbito da ONU, era um exemplo de cooperação Sul-Sul, afirmaria na mensagem à II Conferência Mundial do Fórum sobre Cooperação China-África que "a China, com o seu apoio ao desenvolvimento das infra-estruturas, saúde, educação, agri- cultura, trocas comerciais e muitas outras áreas em África, mostra-se fiel ao seu compromisso com a cooperação Sul-Sul, e pode ajudar a África a dar passos seguros para acompanhar os UN Millennium Development Goals".

Conviria não ignorar a delegação do Governo de Pequim (2005) no Governo de Macau, no sentido de desenvolver a política de cooperação com os países da CPLP, apoiando-se na herança cultural portuguesa .

Desde a recordada tomada de assento no Conselho de Segurança, a China participou em pelo menos 12 missões de peace keeping das Nações Unidas em África, cooperou com a União Africana no mesmo sentido, envolveu- -se em numerosos projectos económicos e sociais, e aproveitou a Cimeira de 2005 para anunciar o programa que seria desenvolvido no Fórum China-África Cooperation de fins de 2006.

Os oito pontos definidos para essa coope- ração não deixarão de estar presentes na me- ditação que será levada a cabo na busca de uma reformulação da cooperação e solidariedade euro-africana: assistência financeira, apoio à integração africana, redefinição da dívida, abertura do mercado importador aos produtos africanos, treino de profissionais qualificados, prevenção das doenças, programas escolares, concessão generosa de quatro mil bolsas de estudos anuais a partir de 2009.

É evidente que este enquadramento político não é construído sem ter em vista a África Útil, um realismo que também inspira as conclusões do Conselho da Europa de 8 de Dezembro de 2000. Visão dinamizadora da presença nas áreas de interesse económico, onde também cresce a diáspora chinesa, de acordo com a convicção do anónimo marinheiro da frota de Vasco da Gama, que explicava que chegavam à Índia em busca de cristãos e especiarias. A China está liberta do capital de queixas da colonização ocidental; a Europa tem maior capital de experiência, de saber e de intimidade. No equilíbrio entre a competição e a cooperação na relação com África, em que os EUA estão sempre interessados, a intervenção portuguesa vai ter a oportunidade de ser a voz escutada da justa medida, num tema em que as relações com África implicam com a relação com a China. 

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