Putin em Mafra amigo dos direitos humanos

Sócrates diz que cimeira UE-Rússia foi "construtiva"

De manhã, na cimeira em Mafra, propôs à UE um instituto para a defesa dos direitos humanos e convidou a Europa a vigiar as eleições legislativas russas. À tarde encantou-se com as focas do Oceanário. Actual, págs. 6 e 7

Foi um Vladimir Putin comprometido com os direitos humanos e a democracia aquele que ontem apareceu aos jornalistas na biblioteca do Palácio Nacional de Mafra. O chefe do Estado russo acabara de transmitir à União Europeia que aceita a presença de observadores da Organização para a Cooperação e Segurança na Europa (OSCE) nas legislativas de Dezembro e de propor a criação de um instituto euro-russo para a promoção dos direitos humanos.

O homem forte do Kremlin, que permaneceu sério, frio, tão frio quando a temperatura que naquele palácio barroco se fazia sentir, também garantiu aos jornalistas que ali faziam a cobertura da vigésima cimeira UE -Rússia que não tem a intenção de alterar a Constituição, no contexto das presidenciais de Março de 2008, nas quais já não poderá candidatar-se a um terceiro mandato presidencial.

Frequentemente acusado por organizações não governamentais de permitir violações grosseiras desses mesmos direitos que ontem defendeu, nomeadamente na Chechénia, Putin sugeriu ainda que o novo instituto se situe em Bruxelas ou noutra capital europeia. O presidente da UE , José Sócrates, indicou que vai estudar a proposta e afirmou esperar que "ninguém minimize o facto de esta ser a primeira cimeira em que há resultados nestes domínios [dos direitos humanos e da democracia]".

O primeiro-ministro disse que esta cimeira foi "construtiva e permitiu bom trabalho", após a assinatura de dois acordos UE -Rússia, um sobre o combate ao narcotráfico e outro relacionado com as exportações de aço. Sócrates não escondeu, porém, que persistem divergências entre as duas partes que há dez anos assinaram um acordo de cooperação, mas, agora, ainda não conseguiram abrir nova parceria. O bloqueio deve-se ao veto polaco motivado pelo embargo russo à carne de Varsóvia. O entendimento entre as partes não é para já, disse fonte da Comissão Europeia ao DN, confirmando que o início das negociações deverá acontecer na segunda metade de 2008.

Quanto à área da energia, Sócrates considerou "bem encaminhado" o sistema de alerta precoce sobre eventuais cortes de gás, como o de Janeiro de 2006. Putin também admitiu a existência de dificuldades, sem especificar, mas referiu a necessidade de reciprocidade no investimento entre a UE e a Rússia e garantiu que são "exagerados os rumores de que as empresas russas [como a Gazprom] querem comprar tudo na Europa".

Também o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, referiu o potencial das relações comerciais entre europeus e russos e indicou que empresários das duas partes tinham dito que apenas as tensões políticas impedem o seu pleno sucesso (ver texto ao lado). Barroso sublinhou o apoio da UE à entrada da Rússia na OMC.

Na cimeira não faltaram também as questões internacionais como Kosovo, Irão, Médio Oriente e referências ao escudo antimísseis que os EUA querem instalar na Europa (ver caixa). Putin, sem referir o Kosovo, cuja independência unilateral Moscovo contesta e pode vir a ser reconhecida por países da UE , frisou que "é importante a primazia do direito internacional". Apesar do tom amistoso, dos sorrisos de Sócrates, Barroso e Javier Solana, fonte diplomática disse ao DN que Putin manteve a dureza habitual na cimeira .

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