O Tratado de Lisboa e o espinho de S. Jerónimo

Novo documento europeu entra agora na fase de ratificação.

O claustro do Mosteiro dos Jerónimos foi ontem transformado no palco de assinatura do novo Tratado de Lisboa , que altera as regras institucionais da UE. A espectacular cerimónia durou duas horas e foi encenada sobretudo para consumo das televisões. Os líderes começaram a chegar às 10.30.
Cumprimentavam o presidente em exercício da UE, José Sócrates, e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, e depois subiam até uma sala de espera onde podiam gozar o esplendoroso sol e a paisagem do rio, muito azul. Em torno, não se ouvia qualquer velho do Restelo a alertar para a vanglória de mandar. O perímetro estava isolado.


O cenário manuelino não podia ser mais simbólico. No refeitório dos monges, que a imprensa internacional transformou num Pentágono, velava o quadro barroco de São Jerónimo . Diz a lenda que o estudioso santo retirou um espinho da pata de um leão. Da mesma forma, ao conseguir ontem a assinatura do novo Tratado , a presidência portuguesa conseguiu retirar um espinho do flanco da UE.


O evento decorreu com precisão monástica. Os discursos centraram-se nas qualidades do Tratado e os líderes tentaram ser modestos. "A história não reconhecerá as palavras que foram ditas nesta cerimónia, mas a história recordará este dia", disse José Sócrates. Entre os chefes de Estado e de Governo dos 27, notou-se a ausência de Gordon Brown, o líder britânico. Questionado sobre isso, à saída, o Presidente francês, Nicolas Sarkozy, não quis polémica e exclamou: "We need Gordon [precisamos de Gordon]."


Os discursos dos três presidentes (Conselho, Comissão e Parlamento) foram sintéticos. A intenção do Tratado de Lisboa é "fazer avançar o projecto" europeu, disse Sócrates. E Hans-Gert Pöttering, o alemão que representa o Parlamento, mencionou o " Tratado Reformador" e apenas uma vez se referiu ao " de Lisboa".


Durão Barroso citou Pessoa: "a sede de futuro". Nos discursos, foi explicado o futuro da UE e lembrado o facto de ter sido naquele local que, em 1985, foi assinado o Tratado de adesão de Portugal à então CEE. Mário Soares, na altura primeiro-ministro, disse ontem aos jornalistas que estava muito satisfeito por voltar ao mosteiro nesta ocasião. " O Tratado [ de Lisboa ] é muito confuso, complexo de mais", admitiu, acrescentando que " o problema do referendo não se põe, o que interessa agora é que o tratado seja aprovado. Ele é um passo em frente."


Seguiram-se as assinaturas, momento tão comprido como uma votação do Eurofestival. Começou por um primeiro-ministro em gestão, o belga, sempre a dois por país, com cumprimento final; alguns Estados, como a França, envolvendo três sig natários, que se cumprimentavam a três. E o MNE britânico, só, o último, sem primeiro-ministro para cumprimentar, teve de estender a mão aos dois membros do protocolo.


No final, os líderes apanharam o transporte público. Enfim, estava tudo arranjado. Um eléctrico moderno e com segurança. E , ao fundo, à espera do banquete, fora do perímetro, alguns protestos, assobios. Velhos do Restelo?


Quebra no protocolo

Nicolas Sarkozy, Presidente francês, quebrou o protocolo dirigindo--se aos jornalistas franceses antes de ir para a cerimónia. 'Erro' de imediato 'perdoado' por José Sócrates, que o acolheu com a boa disposição informal que a fotografia documenta


Sucesso

Após assinatura, Sócrates e Amado selaram com abraço o sucesso no Tratado. À esquerda, Sócrates ao lado da MNE do Chipre, Kozakou-Marcoullis, no eléctrico que os levou ao banquete


A senhora chanceler

Se há Tratado de Lisboa isso deve-se, em grande parte, aos esforços da chefe do Governo da Alemanha, Angela Merkel, aqui retratada já na foto de família tirada no banquete oficial do Museu dos Coches, oferecido pelo Presidente da República, Cavaco Silva. Vários cavalheiros comunitários auxiliam-na a chegar ao sítio que lhe foi previamente marcado no palanque da fotografia oficial.

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