A primeira cimeira falada em português

Líderes acham que Ronda de Doha pode ser salva

 Os três líderes que ontem participaram na conferência de imprensa final da cimeira União Europeia -Brasil falaram todos em português. Foi algo nunca antes visto em cimeiras envolvendo a UE e constitui o primeiro verdadeiro triunfo da presidência portuguesa da UE. "Coincidência ou não, precisou Portugal de tomar o poder na UE para que esta cimeira se realizasse", brincou o Presidente Lula, cujo "Silva é português". Houve risos na sala, mas o dirigente brasileiro não estava apenas a brincar. A UE era pela primeira vez representada por dois portugueses, que sorriam a seu lado: o presidente do Conselho Europeu, José Sócrates, e o presidente da Comissão Europeia , Durão Barroso.

Se no plano simbólico, a primeira cimeira UE-Brasil mereceu a classificação de "histórica" (palavra usada por Sócrates), no plano político, o resultado será mais difícil de avaliar. A UE apresentou aos brasileiros um documento de proposta de parceria onde em 20 páginas não existe um parágrafo sobre "agricultura", que é o tema mais difícil para os europeus e mais urgente para os brasileiros.

O Brasil terá de apresentar as suas próprias propostas, talvez em Outubro. Mas está desde já lançado um processo de reuniões regulares que poderá culminar, possivelmente no próximo ano, sob presidência francesa da UE, com a elaboração de um plano de acção europeu. Isto significa relação política com objectivos concretos e calendário preciso.

O encontro de ontem, entre brasileiros e europeus, tinha na mente duas questões: o acordo de comércio internacional, a ronda de Doha, no âmbito da Organização Mundial de Comércio, OMC, e a questão da energia e das alterações climáticas. Nas declarações finais, os líderes esforçaram-se por passar a ideia de que tudo estava bem, mas foi clara a distância entre os dois, pelo menos no sensível dossier do acordo comercial. "É possível salvar Doha", garantiu Barroso.

"Nesta cimeira, não se negociou", disse por seu turno o primeiro-ministro português, embora na frase seguinte acrescentasse uma frase quase contraditória: "Esta cimeira relançou as negociações" de Doha. Foi preciso mais uma pergunta para Sócrates ter a oportunidade de esclarecer que a cimeira permitira "trocar pontos de vista e perceber melhor as posições do Brasil".

Os dois blocos estão em barricadas opostas na ronda de liberalização do comércio. Os brasileiros querem acesso aos mercados europeus dos seus produtos agrícolas e exigem a redução dos subsídios. Os europeus desejam aceder ao mercado brasileiro em produtos industriais (redução de tarifas), mas acrescentam que já fizeram as suas concessões definitivas.

Como explicava ao DN a comissária responsável pelas relações externas da UE, Benita Ferrero-Waldner, "os europeus já mudaram a Política Agrícola comum (PAC) e fizemos as concessões". Na opinião da comissária, a ronda de Doha terá de ser concluída a curto prazo, pois o "tempo está a acabar". O presidente americano tem pouca margem para concluir um acordo na OMC e os europeus estarão envolvidos na ratificação do futuro tratado e nas eleições de 2009.

O Brasil parece não ter a mesma sensação de urgência, pois defende os interesses das economias emergentes e, nas palavras de Lula, os que "precisam de ganhar mais" na negociação "são os países mais pobres". O chefe do Estado brasileiro também referiu, e foi o único a fazê-lo, que foi discutida a reforma da ONU, onde o Brasil tem ambições de obter um lugar permanente no Conselho de Segurança.

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