"A agenda internacional é um inferno!"

O ministro confessa que a logística a 27 é muito complicada de gerir

Acabava de se despedir do representante da Autoridade Nacional Palestiniana. Um pedido de boas-graças da União Europeia na ajuda à resolução possível do conflito israelo-palestiniano selou o almoço. Passo rápido. Vários lances. Dezenas de degraus. Corredores de muitos metros. Por fim, o gabinete no Palácio das Necessidades e o sofá para descanso do guerreiro. Luís Amado, ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, confessa ali mesmo: "A agenda internacional é um inferno!" É ali também que, muitas vezes, fecha os olhos "uns dez minutos", num sono leve, entre audiências, reuniões, audições, saídas para colóquios e cimeiras internacionais.

A imagem romântica do ministro dos Negócios Estrangeiros que, entre almoços e algumas conversas, vai gerindo as relações do mundo, cai por terra num clássico do jornalismo "um dia com" Amado. Ser ministro na era da globalização é trabalho suado e muito viajado. "Andar de avião para avião", diz a assessora de Imprensa, Paula Mascarenhas, porque viagem, viagem propriamente dita, e um pouquinho de lazer à mistura nada feito. "Os seus colegas bem se queixam quando viajam com o ministro que nem tempo têm para escrever."

Amado ainda tenta contrariar. "É um ministro que nos fustiga com os horários!" Gera-se um trocadilho entre ministro e assessora a envolver duas escalas em Alexandria, norte do Egipto, sem que a agenda tenha permitido um salto à sua mítica biblioteca. "Quando fomos à Líbia, ainda fomos visitar uns templos...", diz o titular dos Negócios Estrangeiros. "Um templo", emenda Paula Mascarenhas. Afinal, Amado reconhece, "lá vai o tempo em que decidíamos ir a um país qualquer porque não conhecíamos".

Uma união a 27, a globalização, as situações de crise a nível mundial, é muita exigência física para um ministro. "Estamos condicionados pelo automatismo dos eventos. Já não determinamos a nossa agenda", refere Luís Amado.

Os dois ou três últimos meses de preparação da presidência portuguesa da União Europeia intensificaram o ritmo de trabalho. Reuniões atrás de reuniões. Pequenos-almoços, almoços, jantares de trabalho. "Estou numa fase em que tenho que falar com toda a gente que tem necessidade de desenvolver com a União Europeia uma relação durante os próximos seis meses." Traduzindo as palavras do ministro que também é de Estado, quase todo o globo...

Não sendo possível dar a volta ao mundo, vamos ao "dia com" Amado. Uma amostra muito parcial de uma agenda sempre supercarregada, de um governante que, apesar do ar cansado, mantém sempre uma calma olímpica. |

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8.38 Chegada

O Mercedes metalizado, que transporta o ministro dos Negócios Estrangeiros no banco de trás - e com o guarda-costas no banco da frente -, entra nas Necessidades. Isola-se no gabinete a preparar duas intervenções, uma no Parlamento outra na Gulbenkian.

9.00 Troca de impressões

Num salão, que outrora foi sala de jantar da família real, Luís Amado espera pela primeira audiência do dia. E troca breves impressões com o DN sobre a sua agenda. "A logística que tivemos que preparar para acolher 27 Estados-membros foi um quebra-cabeças. A 15 era muito mais fácil." Desvenda o segredo do ar sempre calmo. "É o antídoto para o stress destes dois meses complicados. Não se pode acelerar, senão..."

9.14 Brasileiros

Sérgio Cabral, governador do Rio de Janeiro, fica surpreendido por ver o ministro ao cimo da escadaria. Ele que está atrasado (a audiência estava marcada para as 9.00), utiliza a boa disposição brasileira na desculpa. "Estão cada vez mais britânicos! Nós ainda não conseguimos." O pequeno-almoço desfila: omeletas, bacon, fruta, pão, sumo de laranja. A conversa gira em torno da Cimeira União Europeia /Brasil. Amado recebe a camisola dos mil golos do Romário, autografada pelo jogador (em baixo, à direita). Uma igual, branca, vermelha e preta, foi dada a Sócrates.

10.10 Entrevista

Os jornalistas do Expresso, Nuno Saraiva e Luísa Meireles, já esperam pela entrevista. "Tenho que tentar resistir à pressão psicológica dos jornalistas", brinca o ministro. A presidência portuguesa da UE é, uma vez mais, o mote.

11.10 Pausa para trabalho

Luís Amado sai da entrevista satisfeito. É cordial a despedir-se dos jornalistas. Percorre a pé a distância considerável que o separa do piso térreo do palácio, onde ficam os salões nobres e as audiências, do seu gabinete no primeiro andar. Dispensa sempre o elevador.

10.20 Dossier de imprensa

A assessora leva-lhe o dossier de imprensa. Fica no gabinete a preparar a intervenção que vai fazer no Parlamento pouco depois (à direita).

11.34 São Bento

O ministro sai para a AR, onde encerra o seminário "Os desafios de segurança internacional e a cooperação no âmbito do CPLP", na Sala do Senado.

12.50 Acaba a conferência

Um jornalista da Antena 1 ainda lhe consegue roubar uns minutos com o microfone na mão e o ministro acede a dar-lhe algumas respostas.

13.30 Almoço

Almoço nas Necessidades com Nasser al-Quodwa, representante da Autoridade Nacional Palestiniana (em cima).

14.30 Regressa ao gabinete

Dispensa mais uns dez minutos de conversa ao DN. Admite que lhe falta tempo para a família - mulher, uma filha de 25 e um filho de 23. "Falta também tempo para ler e pensar." O novo tratado da UE consome-lhe as energias. "Não podemos agora baixar as expectativas. Seria ridículo termos um mandato e não acentuarmos a vontade de chegar a acordo rapidamente."

16.15 Posse

Dá posse a um novo director-geral do MNE.

16.45 Gulbenkian

Rui Vilar recebe-o na Gulbenkian. É convidado a encerrar o II Congresso Nacional Portugal e o futuro da Europa. E de tudo o que diz, retém-se que a UE quer solidificar o seu poder no mundo.

B Nasceu na Madeira, em 1957

B Casado, pai de dois filhos

B Licenciado em Economia

B Auditor do Tribunal de Contas

B Ex-deputado do PS, ex-secretário de Estado adjunto da Administração Interna e dos Negócios Estrangeiros

B Ex-ministro da Defesa

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