"Não é possível reeducar Putin"

Na cimeira de Samara, em Maio, a chanceler alemã, Angela Merkel, falou abertamente sobre a situação dos direitos humanos e democracia na Rússia. Acha que esse tom deveria manter-se em Mafra?

Estamos numa situação muito perigosa. Há países na UE que não querem continuar com a parceria estratégica com a Rússia. Favorecem uma política diferente, seja por causa da violação de direitos humanos, ou do novo imperialismo energético russo. A chanceler tentou salvar a parceria, mas também não queria conflito com países da UE , e isso fez com que a Alemanha perdesse o seu papel de advogado entre a Rússia e o Ocidente.

 

O que pode Portugal fazer?

Pode evitar o confronto, claro, porque não é possível reeducar [Vladimir] Putin, a sociedade russa não está preocupada com a democracia e temos de levá-lo em conta, tentando responder com algum pragmatismo.

 

O seu país quer salvar a parceria, os antigos Estados da UE [15] são muito construtivos, pois não misturam emoções. Portugal assumiu a responsabilidade de, pelo menos, tentar encontrar uma solução. Mas a UE está dividida porque há visões menos positivas. E não pensemos que é só a Polónia, são também os bálticos ou o Reino Unido, que apoia o veto polaco nos bastidores.

Acha, no entanto, que o novo Governo polaco pode retirar o veto à abertura de negociações de uma nova parceria estratégica UE -Rússia?

É preciso lembrar que a Polónia ainda tem um Presidente [Lech Kaczynski] com uma visão anti-Rússia. Será difícil conduzir a Polónia a um compromisso construtivo enquanto ele estiver no poder. A minha opinião é a de que o problema entre a Polónia e Rússia não é entre pessoas, mas entre elites, que, como é óbvio, se odeiam mutuamente.

 

Não parece nada optimista...

O conflito do Kosovo será como um banho de água fria em Dezembro para as relações entre a Rússia e o Ocidente. Cada vez há coisas em que concordamos menos: Kosovo, Irão, sistema antimísseis, temos problemas em entender as políticas energéticas. A Carta da Energia nunca será ratificada pela Rússia, há uma tentativa da UE de impedir que companhias como a Gazprom entrem no mercado europeu, há esforços na Rússia para levar empresas estrangeiras que lá estão a sair. Não sei como poderia estar optimista.

 

A Rússia nunca ratificou a Carta da Energia, assinada em 1994, precisamente em Lisboa. O que é isso diz sobre a boa-fé com que os russos negoceiam?

A Carta da Energia é antiquada. É um documento que só favorece os interesses da UE . Mas os diplomatas continuam a falar. A UE depende da energia russa e a Rússia é um grande mercado que precisa de investimento ocidental. Há uma oportunidade.

 

O que vai acontecer na Rússia quando Putin deixar de ser Presidente em 2008?

Vai haver continuidade completa e isso é motivo de preocupação. Putin vai continuar a ter um papel, não haverá mudança nas elites, não prevejo quaisquer mudanças.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG