Presidenciais mostram divisão no Montenegro

A oposição agrupou-se em linhas étnicas

O Montenegro é um pequeno país, com apenas 650 mil habitantes, que se separou há dois anos da Sérvia, sem oposição de Belgrado. Mas as eleições presidenciais que hoje se realizam parecem um resumo das actuais fragilidades dos Balcãs, com as minorias étnicas a apoiarem a oposição, os socialistas reformados a arriscarem uma segunda volta e o Kosovo a dominar os debates.

Segundo todas as sondagens, o favorito à vitória é o presidente Filip Vujanovic, candidato do Partido Democráticos dos Socialistas (DPS), uma formação de antigos comunistas que está no poder na região há 20 anos. Os socialistas montenegrinos confundem-se com a história deste país recente: as suas origens remontam à ex- Jugoslávia e o partido manteve-se no poder quando o multipartidarismo foi introduzido, em 1991.

O primeiro-ministro Milo Djukanovic, o político mais importante do país, no poder há 17 anos, foi aliado do líder sérvio Slobodan Milosevic, mas também dirigiu o movimento separatista que levou à independência. Apesar da longa permanência no poder, o candidato deste partido poderá conseguir mais de 50% logo na primeira volta.

É neste contexto que surge um desafio da oposição, no qual é indisfarçável a componente étnica. No Montenegro há profundas divisões que ameaçam a própria independência, não sendo de excluir um eventual regresso à esfera da Sérvia.

As contas finais podem não ser fáceis para os socialistas. O opositor mais forte de Vujovic é Andrija Mandic, que corre pela Lista Sérvia. Os seus apoiantes estão insatisfeitos com a separação e querem mais proximidade económica e cultural com a Sérvia. As sondagens dão a Mandic apenas 20%, mas os sérvios representam 30% da população.

"Vujanovic não pode ganhar na primeira volta e esta é uma boa ocasião para que todos os eleitores se unam para iniciar um processo de mudança no Montenegro", afirmou o candidato pró-sérvio, durante a campanha.

O terceiro candidato com algumas hipóteses, Nebojsa Medojevic, concorre pelo Movimento para a Mudança (PZP) e surge nas sondagens com 18%. Medojevic é lider do que classifica como movimento cívico contra "um regime"e acusa o primeiro-ministro Djukanovic de associações mafiosas, numa referência a suspeitas de ligação do actual chefe de Governo a uma história de contrabando de cigarros para Itália, através do Adriático, que remonta aos anos 90. A sua plataforma é essencialmente anti-corrupção.

Os candidatos da oposição contam com as divisões étnicas, pois os partidos das minorias albanesa e bósnia, em conjunto mais de 24% da população, decidiram não apoiar a candidatura de Vujanovic.
O Montenegro goza, apesar de tudo, de uma situação económica relativamente boa, pois desde a divisão da Sérvia o crescimento anual rondou 8%. Em valores per capita, o investimento directo externo é um dos maiores da Europa, reflectindo a importante aposta no turismo.

Se houver segunda volta, os socialistas temem que o candidato em segundo lugar possa atrair os votos de toda a oposição. Andrija Mandic tem possibilidades de ser este adversário. "O que quer que alguém diga, Montenegro permanece um Estado sérvio", disse Mandic, numa entrevista, dando a entender que a própria questão da independência poderia ser posta em causa.

Por seu turno, Vujanovic defende a adesão à NATO e à UE: "Os candidatos presidenciais que eram contra a independência do Montenegro há dois anos não têm direito moral para liderar o país no futuro. Ganhámos a independência, agora temos de começar a nossa luta pela União Europeia", declarou o ainda presidente.

Durante a campanha, Vujanovic evitou abordar a questão do Kosovo, para não irritar a minoria sérvia, que tem outro candidato, de menor importância, Sdrjan Milic.

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