"Há um movimento na ETA a exigir um cessar-fogo"

José Manuel Anes é Presidente do Observatório da Segurança.

Acredita realmente no anúncio de cessar-fogo que a organização separatista basca ETA fez ontem?

Não acredito na sinceridade desta liderança militar da ETA mas sei que ela foi obrigada a tomar esta decisão. E fê-lo por várias razões: pela forte pressão policial de que tem sido alvo tanto em França, como em Portugal e noutros países, e também por questões internas. Existe um movimento cada vez maior dentro da ETA que exige um cessar-fogo. Há dias, o partido Eusko Alkartasuna e o Batasuna exigiram à ETA um cessar-fogo permanente com supervisão internacional, situação que esta declaração da ETA não contempla.

Se a declaração de ontem não contempla essa exigência, afinal que leitura se pode fazer do documento?

Que são boas notícias de qualquer modo, porque eles [etarras] estão realmente enfraquecidos. Foram neutralizadas várias bases em França e também em Portugal.

Mas acha realmente que a trégua pode ser permanente?

Eles estão tão enfraquecidos que é possível que o seja. Afirmaram que tinham tomado a decisão há uns meses. É mentira. Eles foram obrigados a tomá-la, foi-lhes exigido pelos mais velhos, por uma maioria crescente dentro da ETA que quer realmente encontrar uma solução pela via pacífica.

Afirmou que não tem confiança nesta liderança militar da ETA. Porquê?

Porque é formada por pessoas muito jovens que não têm uma linha política definida, não possuem treino militar nem experiência de clandestinidade. É uma direcção radical. E há o perigo de aparecer um grupo ainda mais radical, tal como aconteceu nas negociações de paz para a Irlanda do Norte quando, a determinado momento, apareceu o IRA Verdadeiro.

Nesse cenário, é possível um processo negocial? Acredita?

De certa forma, o processo já começou. Já há negociações a decorrer entre o Governo e o Eusko Alkartasuna e o Batasuna, mas a Espanha só o assumirá quando a ETA decretar uma trégua permanente e sob supervisão internacional, essa é uma exigência de que o Governo espanhol não pode abdicar .

E se, entretanto, acontecer um atentado feito por essa ala mais radical? Como pensa que Espanha irá reagir?

Compromete a abertura do processo negocial. Nesta fase, o que é importante e possível é conseguir a declaração de um cessar-fogo permanente sob supervisão internacional. É algo que os moderados vão continuar a exigir, até porque querem concorrer às eleições locais de 2011.

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