PERFIL: Steinbrück, o dedo atrevido que indigna os alemães

Peer Steinbrück tinha nesta campanha a difícil missão de se conseguir diferenciar de Merkel. Ao candidato do SPD, de 66 anos, exigia-se que disputasse espaços de poder com uma rival forte, entusiasmasse uma massa de pessoas paralisada pela satisfação com a sua atual líder e pouco disposta a mudanças.

Mas o social-democrata surgiu minado por disputas internas no seu partido, com o líder do SPD, Sigmar Gabriel, a fazer declarações paralelas e, por vezes, contraditórias às suas. Aos 150 anos, o partido tem vindo a perder milhões de apoiantes. Steinbrück, dizem alguns media, tem falta de carisma, faz declarações polémicas e irrita-se facilmente, o que poderá prejudicar, igualmente a sua imagem. Talvez esta mistura ajude a explicar porque o social-democrata parte para as eleições de amanhã atrás de Merkel.Numa tentativa falhada de agitar o eleitorado, a uma semana das legislativas Steinbrück apareceu na capa da "SZ Magazin" a mostrar o dedo do meio. A entrevista era gestual e não falada. Quando lhe perguntaram o que tinha a dizer sobre as críticas às suas constantes gafes, ele respondeu, mostrando o dedo do meio. Os alemães parecem não ter gostado da ousadia.

Houve, porém, um tempo em que Steinbrück era um popular ministro das Finanças. Foi durante o primeiro Governo de Angela Merkel, o da Grande Coligação CDU/CSU-SPD, entre 2005 e 2009. As suas qualidades de economista e a forma como geriu a crise financeira valeram-lhe créditos. Foi durante o seu mandato à frente desta importante pasta governamental que a Alemanha aprovou o famoso travão da dívida na Constituição que depois quis impingir a todos os países do euro. Steinbrück diz que não quer repetir a experiência de fazer parte de um Executivo liderado por Merkel, mas a verdade é que se CDU/CSU não conseguirem arranjar aliados noutro lado irão bater à porta do SPD para tentar dotar a Alemanha de uma nova Grande Coligação. Afinal de contas, dizem alguns analistas, os sociais-democratas têm aprovado todos os resgates para países do euro em crise no Bundestag. Apesar do ênfase colocado nas questões sociais e laborais, Steinbrück também é um defensor da necessidade de consolidação orçamental e de reformas estruturais nos países da Zona Euro.

Natural de Hamburgo, tal como a sua principal rival nestas eleições, Peer Steinbrück é filho de Ernst e Ilse Steinbrück. O pai era arquiteto. Ele estudou economia na universidade de Kiel e depois de se formar trabalhou para vários ministérios e, entre 1978 e 1981, esteve no gabinete do chanceler Helmut Schmidt. Foi chefe de gabinete do ministro-presidente do estado da Renânia do Norte-Vestefália Johannes Rau, tendo ali regressado, várias vezes, como ministro da Economia, das Infraestruturas e das Finanças e, em 2002, como ministro-presidente. Seria, no entanto, a sua derrota nas eleições regionais desse estado que, três anos mais tarde, levariam Gerhard Schröder a convocar legislativas antecipadas na Alemanha. O SPD perdeu o escrutínio. A CDU/CSU ganhou-o.

Casado com Gertrud, uma professora de biologia reformada, Steinbrück, de 66 anos, tem três filhos, duas raparigas e um rapaz. O casal vive em Bona e não em Berlim como Merkel e o marido. Volta e meia o candidato vê-se envolvido em polémicas, umas a nível interno, outras a nível externo. Uma das últimas surgiu com as dúvidas lançadas na imprensa sobre a sua verdadeira relação com as autoridades da ex-RDA e levou-o a divulgar no seu site internet o seu dossiê na Stasi. Através dele, conta, ficou a saber que quem passava informações sobre si à antiga polícia secreta da Alemanha de Leste era o marido de uma prima afastada que ele costumava visitar na Turíngia. Desta vez, Steinbrück não cometeu o erro de se fechar no silêncio de se recusar a responder com arrogância a questões relacionadas com os valores que aufere em dar conferências. A muito custo lá fez saber que ganhou cerca de 1,25 milhões de euros em palestras entre 2009 e meados de 2012.

No plano externo contam-se várias controvérsias. Em 2008, em entrevista à "Newsweek", acusou o então primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, de seguir um "keynesianismo estúpido" depois de este ter decidido proceder a uma descida da taxa de IVA. "Alguém vai mesmo comprar um leitor de DVD só porque ele custa 39,10 libras em vez de 39,90?", questionou, nessa entrevista. Sem papas na língua, denunciou "o capitalismo de casino" e o sigilo bancário na Suíça, sugerindo mesmo que este país fosse inscrito na lista negra dos paraísos fiscais. "Com a Suíça temos que usar não apenas a cenoura mas também o bastão", disse, enfurecendo os suíços. Mais recentemente, referindo o resultado das legislativas italianas, realizadas em fevereiro último, Steinbrück afirmou: "De certa forma estou horrorizado por ver dois palhaços ganhar". Referia-se a Silvio Berlusconi e a Beppe Grillo, cujos partidos ficaram, respetivamente, em segundo e em terceiro lugar.

No debate televisivo que teve com Merkel, o primeiro e único, acusou a chanceler de ajudar os países em crise na Zona Euro servindo-lhes austeridade em doses mortais. Lembrou que a Alemanha foi ajudada no pós-II Guerra Mundial com o Plano Marshall e que agora é a sua vez de retribuir e de ajudar aqueles que mais precisam. Mas o que muitos europeus querem saber é o que é Steinbrück quer dizer realmente com isto. Quer seja como chanceler. Quer seja como ministro de Merkel. Uma nova vez.

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