Retrato de uma nação deprimida e endividada

Esta campanha eleitoral para a Presidência é também uma altura crítica nos Estados Unidos: os bancos colocaram já à venda mais de um milhão de casas por todo o país. E preparam-se para leiloar mais milhão e meio - um aumento de 70% no primeiro semestre de 2008 em relação ao ano passado. As pessoas fazem fila, em desespero, junto das instituições bancárias. Muitas tentam esconder os problemas.

Marion Anita Gardner, que contabiliza dois divórcios, dois filhos desavindos e dois anos em coma profundo, jamais teve uma vida fácil, é certo, mas também nunca se queixou demasiado. No entanto, quando se tornou numa das vítimas do crédito hipotecário nos EUA, ficou pior do que nunca. Destroçada, primeiro, e indignada, depois, a bojuda negra de 57 anos e gargalhada fácil, residente num dos bairros mais miseráveis da zona leste de Cleveland, Ohio, não desistiu.


Lutou contra a Countrywide, dona de 20% das hipotecas norte-americanas e epicentro da crise no crédito de risco que erodiu as fundações da economia mundial. Extenuada dessa batalha que drenou as forças ao seu corpo doente, a pragmática Anita não percebe como é que a campanha dos candidatos republicanos à Casa Branca, John McCain e Sarah Palin, evita aquilo que a traz mais preocupada: "É a economia, estúpido!", exalta-se quando o senador do Arizona surge na TV e sempre que sai à rua. Porque a vizinhança está cada vez mais cheia de lotes sem ninguém. Em breve, por ali haverá só casas arruinadas, além dos templos baptistas e muçulmanos de púlpito vacante.


"A primeira vez que visitei a casa, em 1974, era uma desgraça! Mas soube logo que esta era a tal", garante Anita, recordando esse dia em que trazia o filho mais velho, Ernest Jr., agarrado ao peito. Embalada pelo amor à primeira vista, contraiu um empréstimo de 20 mil dólares visando adquirir a casa em madeira, de dois pisos, sita na Avenida Lorenzo, artéria juncada de lixo, hip-hop e conversas gritadas dos jovens negros dedicados ao ócio. Por falta de emprego e de iniciativa.


Algo que nunca faltou a Anita, soldadora na TRW Automotive, fabricante de componentes automóveis. "Estive lá 31 anos. Ganhava cem mil dólares por ano, a trabalhar 12 horas por dia e sete dias por semana. Adorava, e chegava para as prestações mensais de 523 dólares", garante. E foi naquela casa que nasceu o benjamim da família, Justine, pianista sofrível de 28 anos em busca dos tops.


Mas, em Setembro de 2001, tombou enferma. A violência das várias cirurgias ao cérebro remeteu-a para o limbo comatoso por dois anos. Quando despertou, magra e débil como jamais fora, era prisioneira do crédito, cujas prestações haviam acumulado entretanto. "Antes da doença, faltavam só 5000 dólares para liquidar a hipoteca; quando me notificaram, eram já 79 mil", sublinha, na sala paupérrima onde pontifica o mutismo de um piano vertical. Compassiva, a Countrywide passou a taxar-lhe mil dólares. Para evitar o tribunal. E Anita juntou-se, assim, ao contingente de pessoas, das 52 milhões que contraíram empréstimo imobiliário nos EUA, com dívidas superiores ao valor das casas.


São 23% do total. Anita recusou. E face ao anúncio do leilão do imóvel, foi à ESOP em busca de auxílio. Aquela organização comunitária, especializada na ajuda aos endividados, analisou o processo e concluiu que a lei era estranha à Countrywide. Após pressão cerrada, desde manifestações defronte ao colégio dos filhos dos executivos do banco até ao assédio aos seus telefones privados, a credora cedeu, e Anita volveu ao domicílio. "Elas [as financeiras] são criaturas de Bush. Como é possível pensar em votar num homem, McCain, que significa mais quatro anos do mesmo?", interroga-se. E as sondagens no Ohio, indicando a vantagem de 6,6% para Obama , sugerem que há mais a questionar o mesmo.


E há também mais gente a recorrer à ESOP, nesta altura crítica em que os bancos colocaram à venda mais de um milhão de casas por todo o país nos últimos dois anos e se preparam para leiloar mais milhão e meio - um aumento de 70% no primeiro semestre deste ano em relação a 2007. É vê-lo, ao desespero, todas as terças-feiras em Cleveland, fazendo fila no prédio que aloja a ESOP. "Chegam tímidos e muitos escondem os problemas; dizem que vêm por causa de familiares ou amigos. Para eles, perder a casa é como perder a dignidade", assegura James Jones, da ESOP. Os desvalidos, de condição e etnia variadas, são assistidos por juristas da organização, que ajudam a renegociar dívidas e a reformular contratos. Mas, por vezes, não é possível.


Nessa circunstância, que é a do casal Harper, de Akron, já só resta a fé. Há cinco anos contraiu um empréstimo para comprar a casa em que o mecânico Randy nasceu em 1965. Além da questão sentimental, tinha divisões suficientes para acomodar Harper, a mulher Patty, e os três filhos adolescentes. Na altura, Randy começou a pagar 639 dólares por mês; agora, são 1100. Demasiado para quem ganha 2000. Acólitos da Igreja de Cristo, em Akron, os Harper entregam o destino "nas mãos de Jesus", esperando pela redenção. Da dívida. Caso contrário, "iremos para debaixo da ponte", diz o mecânico de raiz húngara. "Se houver espaço." E o seu sorriso amargo reflecte, em tons amarelos, o estado de espírito que irá sufragar, a 4 de Novembro, o homem a quem será pedido o milagre de resgatar o orgulho de uma nação deprimida. E endividada.

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