A Virgínia deixou-se invadir pela América

A Virgínia, onde quem manda nas eleições é a filha de um imigrante de Penacova, quem manda nas sondagens é Barack Obama. Se ele ganhar no estado que foi a alma dos separatistas sulistas na Guerra da Secessão anuncia-se uma revolução política na América. Desde 1964, nenhum candidato democrata ganha ali as presidenciais. Para McCain seria a perda que dificilmente compensará noutros estados.

Foi a primeira grande batalha da Guerra Civil: em Julho de 1861, no Norte da Virgínia, as tropas do general McDowell, da União, e as do general Johnston, dos estados separatistas do Sul. A batalha de Manassas não seria aqui lembrada não fosse um episódio que tem leituras modernas. A Virgínia era a alma do Sul e a cidade de Richmond era capital da Confederação sulista. Mas esse Sul estava encostadinho à capital do inimigo. Os cidadãos de Washington vieram de carruagem, com as mulheres e cestos de piquenique, para verem das colinas a derrota dos sulistas. Mas tiveram de fugir em debandada com o seu exército. Para o Sul foi uma batalha ganha numa guerra perdida quatro anos depois.


Durante quase século e meio o vizinho rio Potomac marcaria a linha onde o Sul começava e o Norte e a sua capital Washington paravam. Daí, naturalmente, a Virgínia não votar nos democratas, os do partido que haviam consumado, com os Direitos Cívicos, na década de 1960, o que a abolição da escravatura havia começado. Desde 1964, nenhum candidato presidencial democrata ganhou na Virgínia.


Acontece, porém, que a História roda e não é um simples rio que a pára. Da mesma forma que os ricos vieram assistir à batalha de Manassas, os funcionários de Washington começaram a vir habitar a graciosa e histórica Virgínia. E o Distrito de Colúmbia (Washington) é de todos os estados americanos o que dá maior vantagem aos democratas (as últimas sondagens: 82% para Obama , 13% para McCain). Essa invasão silenciosa influenciou a Virginia.


Ontem, o Real Clear Politics, um site que pondera as médias das sondagens, dava uma vantagem de 7 pontos para Obama na Virgínia. Vitória que a confirmar-se no dia 4 é surpreendente: tão seguros estavam os republicanos que só há uma quinzena abriram sedes de campanha no estado. As regiões do Norte, as tais encostadas aos democratas Washington e Maryland fornecem o essencial dessa ponta-de-lança democrata. Mas no Sudoeste do estado, território camponês e branco, a mobilização dos pró- Obama é tal que a sua cidade principal, Roanoke, tornou-se o alvo das atenções da imprensa. Aquela região assiste àquilo que pode ser a imagem destas eleições.


O jornalista Gary Young, do britânico The Guardian, foi viver há semanas para Roanoke, chamando-lhe "Anytown, USA", "Cidade Qualquer, América". A cidade que tem mais do que a média de negros dos EUAs, cercada pelo campo que tem menos que a média de negros dos EUA. Daqui a 12 dias, ali será o campo de batalha dos campos de batalha da América.


Há três dias, Obama falou no Coliseu de Richmond, a que foi capital da Confederação sulista. Ele criticou as repetidas alusões à "América verdadeira", em contraponto à "América não-patriótica", dos discursos de Sarah Palin. No estado que tem a maior população militar e com maior percentagem de veteranos (a maior base naval americana é em Quantico, no condado Prince William), Obama disse: "Aqueles que lutam e morrem juntos não servem a América Vermelha [a cor dos republicanos]. Nem a América Azul [dos democratas]. Servem os Estados Unidos da América!" A multidão, no pavilhão que fica a dois quarteirões do Museu da Confederação, respondeu aos gritos: "USA! USA!"


Afinal, um grito natural em Richmond, capital do estado que deu quatro dos primeiros cinco presidentes da América. Natural no estado de uma das americanas que mais levou a América ao Mundo: Ella Fitzgerald. No estado que vai votar no dia 4, surpreendendo ou não. Mas quem for não pode levar t-shirts com o nome " Obama " ou "McCain". Decisão tomada pelo Departamento de Eleições da Virgínia, dirigido por Nancy Rodrigues. Filha de um imigrante de Penacova e prova que a Virgínia é a América genuína.

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