Orquestra que junta israelitas e árabes em Lisboa

A Orquestra do Divã Ocidental-Oriental, que reúne jovens israelitas e árabes, toca hoje pela primeira vez em Lisboa, dirigida pelo seu fundador, Daniel Barenboim.

A Orquestra do Divã Ocidental-Oriental (West-Eastern Divan Orchestra), fundada em 1999 pelo maestro israelita Daniel Barenboim (n. 1942) e pelo escritor e filólogo palestiniano Edward Saïd (1935-2003), visita hoje Portugal pela primeira vez. Logo à noite (20.00), no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian, e sob a direcção do seu maestro-fundador, toca obras de Beethoven, Schönberg e Tchaikovsky. Mas que tem esta orquestra de especial?


Partindo do mútuo reconhecimento da coincidência de pontos de vista sobre a questão israelo- árabe e, especificamente, do conflito israelo-palestiniano, Barenboim e Saïd (este, sendo das letras, era um pianista amador, fazia crítica e era um pensador musical) decidiram constituir um projecto que reunisse jovens músicos (até aos 25 anos) israelitas, palestinianos e dos países árabes circundantes. A ideia passava por juntá-los num mesmo espaço durante três semanas, num workshop orquestral, findo o qual o grupo se apresentaria enquanto orquestra. Mas não só, dado que os objectivos iam bem para além disso: tratava-se, paralelamente, de promover o convívio entre israelitas e árabes, num ambiente isento das tensões que inquinam as relações mútuas nas regiões donde provêm.


Tudo começou num encontro casual, em Londres, corria o ano de 1998, entre Saïd e Barenboim. Palavra puxa palavra e o encontro torna-se uma conversa de várias horas de duração. Descobrem-se almas gémeas e ali idealizam um projecto que iria tomar corpo no ano seguinte, aproveitando as iniciativas da Capital Europeia da Cultura de 1999 - Weimar. A cidade de Goethe. E será de Goethe que retirarão o nome para aquilo que imaginaram. Concretamente, da vasta colecção de poemas escritos entre 1819 e 1827 e intitulados Divã Ocidental-Oriental. Divã é uma transliteração da palavra persa que designa "colecção de poemas"; ocidental- orien tal, porque o grande poeta alemão procede nesta obra a uma aculturação pessoal com a poesia e cultura persas.


Um dos pais da teoria pós-colonial, Saïd adoptava aqui a teoria da alteridade, no sentido em que, embora vizinhos, árabes e israelistas não se conhecem. Tratava-se, portanto, de promover o conhecimento do "Outro", que neste caso é, para qualquer dos lados, o putativo inimigo de décadas. O conhecimento traz consigo a aceitação e o respeito, por sua vez condições sine qua non para um viver em comum, para a harmonia. Por isso, no duplo DVD (editado pela Warner) que contém o histórico concerto que a Orquestra deu em Ramallah, em Agosto de 2005 (em condições heróicas!), o documentário que preenche o DVD 1 se intitule Knowledge is the Beginning...


E para os jovens do Divã Ocidental- -Oriental, 1999 também foi só o início. No ano seguinte, de novo Weimar é a cidade anfitriã deste projecto pioneiro e desafiador. No ano seguinte, mudam-se para Chicago e, em 2002, cabe a vez a Sevilha. A capital andaluza, correspondendo aos anseios do próprio Barenboim, toma para si este projecto e passa a acolher os estágios anuais da orquestra desde então. Dois anos depois, no Verão de 2004, o governo andaluz, em parceria com entidades públicas e privadas (entre as quais se conta a Fundação Gulbenkian) cria a Fun- dação Barenboim-Saïd. Entretanto, Edward Saïd falecera no ano anterior, vítima de leucemia. A Fundação foi também uma homenagem póstuma a essa grande figura de humanista.


Segundo Barenboim, a Orquestra do Divã Ocidental-Oriental é "não só um projecto musical, mas também um fórum para o diálogo e reflexão acerca do problema israelo-palestiniano". Crê o maestro que, "através dos contactos inter-culturais feitos pelos músicos, o projecto venha a desempenhar um papel importante no ultrapassar de diferenças políticas e culturais entre os países representados no workshop".


Deste modo, a orquestra "é um bom exemplo de democracia e de convivência civilizada".


Contra a ignorância mútua e a separação, surgem aqui a cooperação e a co-existência facultadas pelo acto de fazer música em conjunto, no qual a harmonia é essencial para se atingir o objectivo comum. Ideal último é que, concerto a concerto, ano a ano, a semente da compreensão mútua cresça um pouco. E que, num futuro próximo, a Orquestra e os músicos árabes e israelitas (e andaluzos) que a compõem sejam aplaudidos indistintamente em Israel , na Síria, Líbano, Jordânia ...


Perfil de Daniel Baremboim

Nasceu em Buenos Aires, em 1942.

É maestro, pianista solista e de música de câmara.

Director da Ópera Estatal de Berlim (Unter den Linden) desde 1992.

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