Munique 1972: as olimpíadas do terror

Onze elementos da comitiva isarelita mortos pelo 'Setembro Negro'.

O mundo geria as suas convulsões. Guerras eclodiam, pazes podres vigoravam, ditaduras desmoronavam, outras haviam de desmoronar, outras simplesmente despontavam, a corrida às a rmas nucleares ganhava fôlego, o chanceler alemão Willy Brandt ganhava o Prémio Nobel da Paz e Marlon Brando mandou às malvas a Academia dos Óscares recusando uma estatueta em nome dos direitos que os índios americanos não tinham, Nixon estava à beira de sofrer um "Watergate" fatal, no Vietname o grande papá Ho Chi Minh fortalecia para a eternidade sob uma intensa chuva de napalm, nos Estados Unidos as questões raciais e a vaga gigante de protesto ao esforço de guerra para a maior derrota bélica norte-americana vociferava nas ruas, ainda a comprimidos para a enorme ressaca de um Woodstock já longínquo.


O Médio Oriente, como sempre, era um rastilho aceso correndo para a bomba, como as que rebentavam no Reino Unido com a assinatura do IRA, como as da ETA no reino de Franco, na própria Alemanha Federal das brigadas do Baader-Meinhof, em Itália das Brigadas Vermelhas. Impunha-se o terror como uma espécie de moda. Mas nada remotamente tão sangrento como o conflito israelo-árabe, que parecia condenado a não encontrar paz.


Em 1969, o homem tinha inscrito a sua pegada - o tal pequeno passo para o homem, mas grande salto para a humanidade - na superfície lunar, colocando nesses confins o estandarte americano e proclamando-se, assim, o grande vencedor da corrida ao espaço, sempre no contexto da imensa Guerra Fria. Por altura destas olimpíadas de Munique, as viagens à lua eram já mera rotina. E a televisão, que tinha visto a Apollo 11 em directo como se fosse um filme de ficção, era cada vez mais o ópio predilecto do povo global.


Parecia, pois, o mundo preparado para ter no seu receptor o que desse e o que viesse. Mas a verdade é que ninguém estava preparado para o que reservavam estes Jogos Olímpicos de Munique, em directo e a preto e branco, servido cru, em sangue.


A organização alemã não tinha - parecia -, descurado o mínimo pormenor na organização destas olimpíadas, que prometiam subir ao pódio das melhores de sempre da Era Moderna. Até porque o número de países presentes e o consequente número de atletas não tinha precedentes: para gáudio do omnipresente Comité Olímpico Internacional (COI), confirmaram a presença de 121 países, reunindo 7121 atletas, prontos à dura tarefa de bater os recordes do "outro mundo" registados em altitude, quatro antes antes, na Cidade do México. Na comitiva portuguesa viajava uma esperança chamada Carlos Lopes, um jovem que fazia a sua estreia no maior dos palcos desportivos. Só não estiveram presentes mais atletas porque o COI, temendo boicotes africanos, proibiu a então Rodésia (Zimbabwe) de participar.


Estes Jogos Olímpicos registaram grandes feitos desportivos, o norte-americano Mark Spitz conseguiu mesmo a façanha de conquistar sete medalhas de ouro e outros tantos recordes mundiais, mas na contabilidade final foi a URSS a grande vencedora, à frente dos eternos rivais, pelo menos em matéria de olimpismo, os Estados Unidos da América, relegados de novo para segundo posto.


Porém, tudo isto foi ofuscado quando, em silêncio, elementos do grupo terrorista Setembro Negro conseguiram entrar na aldeia olímpica, em busca da delegação de Israel , matando a sangue frio um treinador e um dos seus atletas, fazendo outros nove reféns, escandalizando o mundo e transformando estes Jogos Olímpicos numa espécie de curso intensivo de terror.


Estavam presentes perto de quatro mil jornalistas para a cobertura dos Jogos, número que praticamente duplicou com o atentado. A pressão já não estava só na organização dos Jogos, mas nas próprias autoridades alemãs. Decidiu-se que as olimpíadas não seriam interrom-pidas, sendo que a Holanda, a Noruega e as Filipinas decidiram abandonar.


Os nove reféns do Setembro Negro, encaminhados com o aeroporto de Fürstenfeldbruck, em Munique, seriam executados, após uma operação de resgate da polícia de intervenção alemã, que acabou por precipitar os acontecimentos. E os Jogos Olímpicos seguiram o seu curso, ensombrados por onze mortes israelitas. Tudo o resto foi desporto. Ou, aliás, nem tudo: dois velocistas norte-americanos, activistas "Black Power", seriam expulsos por desrespeito às próprias medalhas e à respectiva cerimónia em que estas lhes foram entregues. Detalhes. Esse Setembro de 1972 já era negro.

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