APERTARA MALHA

Cada atentado terrorista (ou tentativa frustrada de atentado) permite um conhecimento mais detalhado da malha da rede terrorista que actua nas nossas sociedades. Quando passam dois anos sobre os atentados de Londres de 7 de Julho de 2005, a capital britânica foi, de novo, o palco de mais uma acção terrorista, desta vez, felizmente, gorada pela eficácia da acção preventiva das forças de segurança do Reino Unido.

Mas os acontecimentos da semana passada permitem algumas reflexões sobre a natureza e as características organizativas e funcionais das redes de terrorismo fundamentalista islâmico na Europa.

A primeira reflexão possível no actual estádio da investigação é que havia uma conexão entre o atentado preparado numa zona de diversão nocturna da cidade de Londres e o atentado contra o aeroporto de Glasgow, na Escócia. A escolha dos alvos continua a incidir em locais públicos de grande frequência, o que potencia o número de vítimas (e até a diversidade das suas nacionalidades). A escolha das discotecas de Haymarket faz lembrar o atentado de Bali, na Indonésia, há três anos. A ligação entre os acontecimentos de Londres e de Glasgow mostra, pela primeira vez, uma capacidade de articulação de uma rede em vários pontos do território britânico, funcionando segundo uma certa cadeia de comando cujos contornos compete agora à polícia identificar.

A descoberta da viatura armadilhada em Londres tem um duplo significado. Por um lado, revela um modelo artesanal de preparação de explosivos, semelhante ao usado nos atentados diariamente perpetrados no Iraque. Por outro lado, a eficácia da acção preventiva da polícia, ao detectar a viatura armadilhada e ao identificar o método de detonação dos explosivos (uso de um telemóvel controlado à distância), permitiu estabelecer possíveis conexões que levaram à precipitação do atentado contra o aeroporto de Glasgow, atentado falhado por erros de preparação e execução provocados pela pressão decorrente daquela descoberta londrina... o insucesso dos terroristas suicidas levou à sua detenção, o que sucede pela primeira vez no Reino Unido!

Mesmo assim ainda se verificaram duas tentativas de colocação de bombas num hospital de Glasgow, onde se encontrava internado um desses detidos, gravemente ferido com queimaduras.

Acresce ao cenário traçado que dois (ou mesmo eventualmente três) dos detidos eram médicos do sistema nacional de saúde britânico, embora com origem em países do Médio Oriente (Iraque e Jordânia). Esta característica reforça a ideia de que muitos dos terroristas fanáticos são pessoas com elevados níveis de educação, com família constituída, com empregos estáveis e cuja motivação para acções extremistas não resulta nem da marginalidade social nem do desespero da pobreza, mas sim da alienação cultural alimentada por uma doutrinação ideológica de matriz religiosa.

Estas características ajudam a perceber melhor a complexidade do combate cultural e ideológico ao terrorismo e identificam, com maior precisão, os grupos onde se leva a cabo o potencial recrutamento de terroristas. Mas, ao colocar o acento tónico em pessoas aparentemente bem inseridas nas sociedades onde vivem, pessoas com comportamentos discretos e que não chamam especialmente a atenção, pessoas que habitualmente não frequentam locais sujeitos a especiais regras de vigilância (por exemplo, as mesquitas clandestinas que existem nas cidades do Reino Unido), estamos a apreender em toda a sua dimensão a dificuldade da acção preventiva que cabe às forças de segurança na luta anti terrorista.

E aqui reside o paradoxo: à medida que os nossos conhecimentos permitem apertar a malha da análise das redes terroristas, vamos descobrindo que essa malha é muito flexível e ampla. O risco de estigmatização de comunidades inteiras é, pois, um risco real.

A reacção britânica, tanto a oficial como a das populações, é exemplar, mas a ameaça persiste e os riscos inerentes ampliam-se.

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