Três paixões e as outras mulheres de um escritor

Memória. As três influenciaram, cada uma à sua maneira, a obra literária de Saramago: Ilda Reis, Isabel da Nóbrega e Pilar del Río

Do amor de José Saramago e Pilar del Río já tudo foi contado. De como em 1986 ela, jornalista, 36 anos, ficou maravilhada ao ler O Ano da Morte de Ricardo Reis quis vir a Lisboa fazer o percurso aí descrito entre o Hotel Bragança e o Cemitério dos Prazeres. De como telefonou ao autor para o felicitar e se encontraram e continuaram a trocar correspondência. E de como assim se foram apaixonando até se casarem em 1988. Ela, que já era fã de Saramago, tornou-se também a primeira leitora dos seus livros, corrigindo-os e traduzindo-os para castelhano. 'Comecei pelos livros', contou numa entrevista em 2001. 'Coleccionei-os antes de conhecer José. Posso dizer que gosto de falar dos livros de José Saramago porque já o fazia antes de o conhecer. Recomendei--os antes. Agora só tenho mais motivos para o dizer porque são os livros da minha vida.' Saramago transformou a vida de Pilar, primeiro com os seus livros e depois com o seu amor, explicava.

A cumplicidade do casal, que aparecia constantemente de mão dada, era visível. Com Pilar, José Saramago encontrou a paz e pôde, também, reconciliar-se com o passado. Embora se recusasse sempre, nas entrevistas que dava, a falar das suas anteriores paixões. Duas grandes paixões.

Com Ilda Reis esteve casado durante 26 anos. Conheceram-se quando ambos tinham 20 anos e nem ele era escritor nem ela era artista plástica. Saramago edita o primeiro livro em 1947, o mesmo ano do nascimento da sua única filha, Violante. Após o divórcio, pai e filha separam-se. Ela fica magoada pelo facto de o pai sair de casa para ir viver com Isabel da Nóbrega: 'Foi uma situação muito complicada para mim, de tal forma que há momentos que pura e simplesmente não guardei e não me lembro', contaria mais tarde a filha. E também existem divergências políticas: Violante militava no MRPP enquanto José Saramago era do PCP, conta João Céu e Silva no livro Uma Longa Viagem com José Saramago. Entretanto, Violante foi para a Madeira, Saramago encontrou Pilar. O tempo curou as feridas. Lentamente. Em 1998, depois do Nobel e da morte de Ilda Reis, a relação entre pai e filha já estava normalizada.

Antes disso, já tinha nascido Ana, filha de Violante, que aos 18 anos veio estudar para Lisboa, instalando-se na casa do avô na Estrela. Apesar de Saramago e Pilar viverem já em Lanzarote, Ana pôde finalmente conhecer o avô. 'Quando nos aproximámos eu já era madura (...), o que acabou por tornar a nossa relação muito sólida, muito próxima e muito de igual para igual', contou a Céu e Silva. Podiam 'ter conversas, discutir, argumentar, concordar e discordar'. 'Para além de escrever como escreve, é um prazer ouvi-lo falar', dizia a neta. O irmão, 12 anos mais novo do que ela, já não teve oportunidade de o conhecer assim, antes do boom do Nobel.

Depois de Ilda, antes de Pilar, houve ainda outra mulher: a escritora Isabel da Nóbrega. Conheceram-se no jornal A Capital, em 1968, e ela ficou logo caída por aquele olhar 'de quem estava a sofrer'. 'Aos poucos começou a haver um certo encantamento entre nós', contou ela, mais tarde. 'Um dia disse-lhe: agora você vai escrever crónicas' - e terá sido assim que nasceu um escritor e uma paixão. Viveram juntos durante 16 anos, período durante o qual Saramago escreveu, entre outros, Deste Mundo e do Outro (1971); Levantado do Chão (1980) e Memorial do Convento (1982) e O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984) - todos eles nas suas primeiras edições tinham uma dedicatória a Isabel, a quem chamava de 'bruxinha'. Que o influenciou, ajudou e incentivou: 'Fui eu que o levei a Mafra. Ele não queria ir e eu disse--lhe que ele ia ficar esmagado, espantado, porque era uma coisa para ele. E lá, disse-me que até gostava de pôr aquilo num livro. E foi o Memorial do Convento.'

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