A morte segundo Saramago

O fim da vida foi tema de vários romances e textos introspectivos do Prémio Nobel.  O escritor José Saramago conhecia a inevitabilidade da morte, mas trabalhou literariamente os vários trocadilhos possíveis sobre a única coisa certa que a humanidade tem

Ainda criança, na aldeia da Azinhaga, ouviu a avó a fazer um comovedor elogio à vida. 'O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer.' Assim mesmo. 'Eu estava lá', conta Saramago no livro As Pequenas Memórias. A avó, 90 anos 'e o fogo de uma adolescência nunca perdida', estava sentada na soleira da porta, 'aberta para a noite estrelada e imensa'.

O jogo da vida e da morte, com Deus muitas vezes também a entrar na partida, está bem presente na obra de José Saramago. 'De Deus e da morte não se tem contado senão histórias', dizia o autor de Levantado do Chão. A morte, a palavra morte, que andarilha por muitas páginas da densa prosa, emerge também no título de dois dos seus romances: O Ano da Morte de Ricardo Reis e As Intermitências da Morte. Esta última obra, grande metáfora da vida e da morte, Saramago abre com a frase, 'no dia seguinte ninguém morreu'. A partir de um Janeiro, num determinado país, ninguém mais morreu. Mas, como viver sempre também cansa, a dada altura, a morte, através de carta, retoma a regras antigas do mundo. Retomou os seus implacáveis poderes: 'A partir da meia-noite de hoje se voltará a morrer tal como sucedia, sem protestos notórios.'

Saramago não contará mais histórias sobre a morte. Mas as palavras que nos deixa são 'o viático, o salvo-conduto, graças ao qual', agora que chegou a hora, se libertará do silêncio mais profundo.

'Mas a imagem que não me larga nesta hora de melancolia é a do velho que avança sob a chuva, obstinado, silencioso, como quem cumpre um destino que nada poderá modificar. A não ser a morte. Este velho, que quase toco com a mão, não sabe como irá morrer. Ainda não sabe que poucos dias antes do seu último dia terá o pressentimento de que o fim chegou, e irá, de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, das sombras amigas, dos frutos que não voltará a comer. Porque terá chegado a grande sombra, enquanto a memória não o ressuscitar no caminho alagado ou sob o côncavo do céu e na eterna interrogação dos astros. Que palavras dirá então?'

'Então ela, a morte, levantou- -se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma impalpável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu.'

'(…) E os homens avançaram para o terreno revolvido, com carros de não e pás, enchendo aqui, no monte, despejando além, na encosta para Mafra, ao passo que outros homens, de enxada ao ombro, desciam aos caboucos já fundos, neles desapareciam, enquanto mais homens lançavam cestos para dentro e depois os puxavam para cima, cheios de terra, e os iam despejar afastadamente, aonde outros homens iam por sua vez encher carros de mão, que levavam no aterro, não há diferença nenhuma entre cem homens e cem formigas, leva-se isto daqui para ali porque as forças não dão para mais, e depois vem outro homem que transportará a carga até à próxima formiga, até que, como de costume, tudo termina num buraco, no caso das formigas lugar de vida, no caso dos homens lugar de morte, como se vê não há diferença nenhuma.'

'(…) Nenhum condenado à cadeira eléctrica, ou à forca, ou à guilhotina, ou ao garrote, ou à fogueira, terá dado voz de acção para ligar a corrente, ou abrir o alçapão, ou soltar a lâmina, ou girar o parafuso, ou riscar o fósforo, talvez por não terem estas mortes dignidade, incluindo as de mais longa tradição na arte, talvez por faltar nelas o factor militar, a instituição das armas, onde tão mais de costume faz ninho o heroísmo, que mesmo quando o condenado não passava de vulgar paisano as balas que recebeu no peito procederam como resgate da mediocridade e foram o viático, o salvo-conduto, graças ao qual lhe virá a ser permitido, quando chegar a hora, entrar no paraíso dos heróis.'

'E nós, portugueses, que poeta devermos ir buscar a França, se lá nos ficou algum, Que eu saiba, só o Mário de Sá Carneiro, mas esse nem vale a pena tentar, primeiro, porque não havia de querer vir, segundo, porque os cemitérios de Paris são lugares bem guardados, terceiro, porque tendo passado tantos anos depois que morreu, a administração duma capital não cometeria os erros duma comuna de província que, ainda por cima, tem a desculpa de ser mediterrânica, Além disso, de que serviria tirá-lo dum cemitério para o pôr noutro, uma vez que em Portugal não há-de ser autorizado enterrar os mortos fora do sítio, ao ar livre. Nem os ossos dele ficariam quietos se os deixássemos à sombra duma oliveira no Parque Eduardo VII.'

'Enquanto andava, ia pensando que ali eu não era eu, que o meu corpo ficara morto virado ao mar, no alto da arriba, e que o mundo estava todo cheio de sombras e confusão. A noite apanhou-me na margem do rio, com uma cidade diante que eu não reconhecia, como as torres ameaçadoras dos pesadelos. Ainda hoje, tantos anos passados, me pergunto que vulto de mim terá ficado disperso na brancura das areias ou imobilizado em pedra na arriba cortada pelo vento. E sei que não há resposta.'

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