Vestido vermelho com versos de Saramago na despedida

Cerimónia oficial foi seguida por centenas de populares. Uma emoção contida dominou  o último adeus a Saramago

Um vestido vermelho marcou a despedida de José Saramago. No dia em que viu o marido pela última vez Pilar del Río quis que o vestido que usou na cerimónia do Nobel, e que tem versos do escritor bordados, estivesse presente. Emprestou-o à violoncelista Irene Lima, que o usou para interpretar duas peças de Bach. Para mostrar o orgulho que tinha nesse momento de 1998 em que o marido recebeu o Nobel da Literatura, Pilar veio ainda à varanda da Câmara de Lisboa agradecer o carinho do povo, ladeada pela violoncelista de vermelho e pela única filha do escritor, Violante Matos.

A cerimónia ficou marcada pelo forte sentimento de agradecimento. Obrigado foi uma das palavras mais usadas durante a manhã de ontem, quando o corpo de Saramago deixou o Salão Nobre da câmara municipal rumo ao cemitério do Alto de São João. E enquanto o corpo esteve à frente do edifício, os aplausos não se calaram. Uma homenagem 'do povo', como faziam questão de referir as centenas presentes na Praça do Município.

António Costa, presidente da Câmara, terminou o seu curto discurso dizendo: 'Obrigado José Saramago.' As mesmas palavras foram usadas por Jerónimo de Sousa para se despedir do 'camarada'.

Atentos a estas palavras estavam algumas figuras ilustres, como os ex-presidentes Mário Soares e Ramalho Eanes, e também muitos amigos. Os discursos e despedidas oficiais duraram menos de uma hora e nesse tempo o Salão Nobre foi pequeno para acolher quem queria estar perto de Saramago no seu adeus.

As flores que no sábado preenchiam grande parte da sala deram ontem lugar às dezenas de familiares e amigos. Entre os presentes, que por diversas vezes deixaram as lágrimas cair em silêncio, estavam figuras como a eurodeputada Edite Estrela, as jornalistas Clara Ferreira Alves e Leonor Xavier, o cantor Fernando Tordo e as escritoras Nelia Piñon e Lídia Jorge.

Todos ouviram as palavras de homenagem da vice-presidente do Governo espanhol. María Teresa Fernández de la Vega falou do amigo, do esposo e do homem da literatura. 'Todos nos sentimos órfãos da sua figura tão querida e da sua voz humana e muito digna.' A estas palavras, a espanhola Pilar respondeu com um sorriso, olhando depois para Saramago. Já Gabriela Canavilhas falou sobretudo do escritor e das suas histórias. A ministra da Cultura referiu ainda 'as frases longas' de Saramago e Pilar sorriu de novo.

Quem mais se demorou foi Carlos Reis, que falou em nome da Fundação José Saramago. Para a despedida, o professor catedrático preferiu usar as palavras do Nobel no discurso de Estocolmo quando recebeu o prémio. E excertos de algumas das suas obras.

Cá fora, sob o sol quente do fim da manhã, as cerca de 300 pessoas iam aplaudindo as palavras ditas no Salão Nobre. Assistiram à cerimónia transmitida através de um ecrã gigante. Apesar de não haver filas, muitos chegaram em cima da hora e acabaram por já não conseguir entrar para velar o corpo.

À saída do cortejo viam-se acima da multidão muitos livros do escritor, erguidos pelos seus admiradores. Memorial do Convento, Caim, A Viagem do Elefante, foram algumas obras que se 'despediram' do seu autor.

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