Nobel usou escrita como 'reflexão sobre grandes causas'

A ministra da Cultura Gabriela Canavilhas afirmou hoje que Saramago 'usou a escrita para uma reflexão sobre as grandes causas da humanidade', tendo lutado 'contra as injustiças' e defendido os direitos humanos

A ministra salientou que Saramago 'uma vez e tantas outras vezes' usou as suas palavras no 'respeito à terra e aos homens' e também na 'denúncia contra a guerra do Iraque ou contra a ocupação palestiniana' ou ainda em prol das 'causas dos sem terra, do movimento anti-globalizante, da preservação do ambiente, ou do anti-clericalismo desassombrado'.

Canavilhas sublinhou que Saramago foi 'fiel ao seu compromisso com a consciência (...) edificando uma obra coerente, ousada, sólida, moldada pela ética, visando, sempre, a dignificação do homem'.

A governante referiu que o fez por vezes 'subvertendo normas', referindo-se a narrativa de frases longas e de 'pontuação singular', e também 'enfrentando dogmas'.

A escrita, disse Canavilhas, 'foi instrumento, foi arma, foi agente provocador e plataforma de interrogação permanente do indivíduo e da sociedade'.

A titular da pasta da Cultura, cujo discurso foi aplaudido pela população que se encontrava na Praça do Município e seguiu a cerimónia através de um ecrã gigante, afirmou ainda que a actividade cívica de Saramago, aliada à criação literária, 'conseguiu com a sua obra fazer pensar os destinatários, perturbar os conformados, incomodar as consciências e aguçar a lucidez'.

Gabriela Canavilhas sublinhou ainda a importância do Nobel da Literatura ganho por Saramago em 1998 e o contributo das suas obras para a afirmação e difusão da língua e literatura portuguesas e 'para a união do mundo lusófono'.

Antes da ministra, falou Carlos Reis pela Fundação Saramago que referiu que o escritor habitou 'o espaço da heterodoxia' e referiu a sua 'constante militância para desassossegar imagens feitas'.

Carlos Reis afirmou que esta é 'uma despedida sem adeus'.

O ensaísta afirmou, citando Eça de Queirós, que Saramago 'está vivo e o seu espírito fulge descansado das humilhantes misérias da carne'.

Reis citou vários títulos de Saramago ao longo do seu discurso, referiu várias vezes a importância da infância vivida na Azinhaga e do avô Jerónimo, um contador de histórias.

Carlos Reis afirmou que a 'frondosa arvore literária' que é a literatura de Saramago entronca em escritores como o padre António Vieira, Montaigne, Almeida Garrett e Raul Brandão, mas nela há também reflexos de Luís de Camões, Fernando Pessoa, Almada negreiros e Kafka.

Saramago, disse o ensaísta, é 'uma personalidade em que uma cultura se identifica e uma literatura se ilustra', deixando 'um legado precioso'.

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