Analistas censuram ausência de Cavaco, políticos contornam

Homenagem. O PR alega que fez o que tinha de fazer. E que devia cumprir a 'promessa' de mostrar à família 'a beleza dos Açores'

Os políticos não quiseram ou não puderam dizer, mas os analistas foram cáusticos sobre a ausência do Presidente da República nas cerimónias fúnebres de José Saramago. 'Errou mais uma vez!' - é o veredicto do professor José Adelino Maltez.

O investigador de ciência política lembra que Cavaco Silva 'é o Presidente de Portugal e José Saramago era um dos pedaços maiores de Portugal, que nos deu visibilidade no mundo, tal como Camões, Fernando Pessoa e o Padre António Vieira'. José Adelino Maltez lamentou que o Chefe do Estado não tenha querido interromper as suas férias nos Açores para homenagear este vulto da cultura portuguesa.

Carlos Abreu Amorim é ainda mais crítico. Sublinha que Cavaco Silva é conhecido por 'ser um institucionalista', de que deu provas ao promulgar a lei do casamento homossexual, contrariando as suas próprias convicções. Agora, afirma, que estamos 'perante um funeral nacional, é incompreensível do ponto de vista institucional que não tenha estado presente'.

'Aníbal Cavaco Silva prevaleceu sobre o Presidente da República. E isso é de lamentar.' Na opinião do analista político e professor universitário - que faz questão de sublinhar que está nos antípodas do pensamento político do escritor - 'concorde-se ou não com a figura humana, com o passado ideológico de Saramago, a atitude do Presidente é a de um homem minúsculo que não foi capaz de um gesto de grandeza institucional'.

Carlos Abreu Amorim admite que por detrás desta ausência esteja o receio de Cavaco Silva de ainda poder defraudar mais a direita católica, que o tem atacado por causa da promulgação da lei do casamento gay. 'Cavaco, que está a perder a confiança e credibilidade desse seu eleitorado, fez este gesto para lhes agradar', diz. E considera que até a selecção nacional, que já anunciou que ostentará hoje uma faixa negra no braço dos jogadores quando tocar o hino nacional antes da partida com a Coreia do Norte, 'sabe estar mais à altura do acontecimento do que o Presidente'.

Nos Açores, Cavaco considerou a 'polémica estéril'. Ele que se fez representar no funeral do escritor pelos seus chefes das casas Civil e Militar, Nunes Liberato e tenente-general Carlos Alberto de Carvalho dos Reis, garantiu ter feito o que lhe competia como Chefe do Estado: uma nota oficial a elogiar a obra literária de Saramago; enviou uma coroa de flores e promulgou os dois dias de luto nacional aprovados pelo Governo.

Justificou ainda a sua permanência nos Açores porque queria 'cumprir a promessa que fez à família, filhos e netos, de lhes mostrar a beleza da região'.

À excepção do líder do BE, todos os outros políticos desvalorizaram a ausência do Presidente Cavaco Silva. Só Francisco Louçã lhe fez um apelo, ainda no sábado, para que se fizesse representar no funeral, esquecendo a 'perseguição política' contra o escritor protagonizada por um dos seus governos. Louçã referia-se ao boicote que foi feito ao livro Evangelho Segundo Jesus Cristo, em 1992, pelo então subsecretário de Estado Sousa Lara.

Mas quem também parece ainda não lidar bem com o passado é o líder do maior partido da oposição, o PSD. Pedro Passos Coelho alegou compromissos partidários - no caso uma festa de militantes em Leiria - para não participar no funeral do escritor. Ainda assim pronunciou-se sobre a atitude de Cavaco Silva: 'Não quero contribuir para polémicas dessas.' Miguel Relvas, secretário-geral do PSD, substituiu-o nas cerimónias e também não quis comentar a ausência do PR.

Marcelo Rebelo de Sousa considerou as explicações de Cavaco desnecessárias, tanto mais que 'a função presidencial prevalece sobre os netinhos...' Mas o antigo líder do PSD assegurou, na TVI, que o PR 'fez o essencial' e marcou de forma 'espiritual' as cerimónias com a nota que enviou de condolências.

No que toca a ex-presidentes da República, Saramago fez o pleno. Todos compareceram nas cerimónias fúnebres. Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio, nenhum criticou o actual Chefe do Estado. Apenas Soares garantiu: 'Se fosse presidente, estaria presente.'

O líder do PCP, Jerónimo de Sousa, considerou que 'a ausência do PR não deve desviar as atenções da celebração e da homenagem do povo e do Estado a Saramago'.

A segunda figura do Estado, o presidente do Parlamento, também não compareceu por estar precisamente nos Açores. Jaime Gama fez-se representar pelo vice-presidente da Assembleia da República Guilherme Silva, que não quis falar aos jornalistas sobre qualquer das ausências.

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