Negociações com a 'troika' foram "uma gargalhada"

O antigo secretário-geral da UGT, Torres Couto, e antigo negociador, em 1983, com o FMI considerou que as negociações com a 'troika' foram "uma gargalhada", em críticas que incluem o primeiro-ministro, a oposição e o Presidente da República.

Cavaco Silva e José Sócrates tiveram a possibilidade de "serem, numa cooperação estratégica, as duas locomotivas deste acordo [mas] o Presidente da República (PR) não o quis fazer, o primeiro-ministro também não, e fomos confrontados com uma situação terrível: um país a três vozes", disse José Manuel Torres Couto, que participou nas negociações do plano do Fundo Monetário Internacional (FMI) em 1983, em entrevista à agência Lusa.

"Não nos apresentámos nas negociações [atuais] de forma unida, toda a gente foi falar com o FMI, cada um a apresentar a sua lista de mendicidade, cada um a fazer os seus pedidos, cada um a tentar, por portas ínvias a resolução dos seus problemas. Isto é de gargalhada", acrescentou.

Recordando que, apesar da grande tensão social que se vivia na altura das negociações de 1983 - com a fome a alastrar pelo país, por exemplo - os maiores partidos políticos portugueses, os sindicatos, os patrões e o Governo conseguiram unir-se para negociar com o FMI, algo que Torres Couto lamentou não ter visto, na atualidade.

"Havia uma coisa que era essencial na altura, e que continua a ser essencial hoje, mas não se verifica -- havia o acordo dos maiores partido do arco da governação: PS e PSD (...) hoje lamentavelmente temos estes partidos numa guerrilha permanente, mais preocupados com eleições, com o umbigo, do que com a resolução deste problema", considerou.

"Depois tínhamos uma situação com muita verdade, porque o primeiro-ministro da altura, Mário Soares, e o ministro das Finanças sempre falaram ao país uma linguagem de verdade, e sempre deram uma dimensão da crise com um transparência absoluta. Infelizmente hoje existe muita opacidade, quando começamos a mexer nos números da dívida, do défice, há desorçamentações, há cadáveres nos guarda-fatos, há desconfiança entre Governo e oposição em relação aos números que o Governo apresenta", disse ainda Torres Couto.

O antigo sindicalista recordou ainda negociações com o FMI, com os parceiros sociais e o Governo, em 1983, que se prolongavam até altas horas da madrugada e de onde se saía com cheiro a tabaco -- "infelizmente ainda se fumava", disse -- e que se alimentavam a pregos ou bifanas, de "uma tasca atrás do ministério, porque o ministro das Finanças Ernâni Lopes dizia que o momento era de rigor e de contenção e por isso tínhamos de ser contidos na refeição".

"Havia algo extremamente importante, que foi a intervenção do PR da altura. O PR era Ramalho Eanes, que não tinha a legitimidade política que tem o atual, mas Ramalho Eanes organizou - com a maior discrição, sem se substiuir a quem quer que seja, sem invadir competências -- uma multiplicidade de contactos em Belém, para preparar as pontes possíveis de entendimento", referiu Torres Couto.

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