Bispo do Porto: Há 'consciência de que é preciso fazer algo e respeito pelos governantes"

O bispo do Porto afirmou hoje que a greve geral é uma "manifestação legítima e saudável", considerando que, apesar da grave crise, "as pessoas têm consciência de que algo é preciso fazer" e, "em geral, respeitam quem governa".

Afirmando que "movimentos sociais e manifestações públicas são normais e legítimas numa sociedade democrática", Manuel Clemente afirmou esperar que não haja o perigo dessas manifestações evoluírem para algo mais. "Espero que não, e não é um esperar idealista", disse.

"O sentido da crise, do gigantismo daquilo que agora nos afecta é muito generalizado, as pessoas têm essa consciência de que algo é preciso fazer e, em geral, respeitam as pessoas que governam o país, que foram eleitas há pouco tempo, e percebem que estas medidas não seriam tomadas de ânimo leve".

Para o bispo do Porto, que falava aos jornalistas à margem de um debate sobre o futuro da ciência, a decorrer na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, apesar desta consciência existir, é preciso que "todos participem na elucidação não tanto das causas mas das realidades", e ver como "solidariamente" é possível ultrapassar esta fase. "Creio que este sentimento está muito difundido na sociedade portuguesa", sublinhou.

Manuel Clemente afirmou também que o Orçamento do Estado para 2012 "não pode ser uma machadada para a classe média, porque esta é o sustentáculo da democracia".

Na sua opinião, no reino da pura necessidade não há democracia, há necessidade e, por isso, a democracia é um valor que se sustenta precisamente com a viabilidade das vidas, das profissões, e isso é que se chama classe média.

"Apesar das dificuldades que são grandíssimas e até inesperadas neste tamanho como estão apresentadas", o bispo do Porto lembrou que o OE será objecto de discussão no parlamento e, olhando "para estas coisas não apenas do ponto de vista interno", é preciso esperar para "ver o que se vai salvaguardar".

Manuel Clemente confessou ter dificuldades em perceber como é que o país chegou ao estado em que está.

"Creio que as razões para a austeridade nunca são suficientemente explicadas. Procuro ser um observador e leitor atento, mas devo dizer que com tantos números e tanta complexidade de factores, como cidadão comum tenho dificuldade em lá chegar e todas as explicações são bem vindas", disse.

O prelado considerou ainda que não será agora altura para encontrar responsáveis pelo estado em que se encontra o país, afirmando que "aquilo que aconteceu também foi democraticamente sufragado". "Tivemos uma sucessão de governos, de partidos que se foram alternando no poder, todos eles democrática e eleitoralmente sufragados".

Em geral, concluiu, "a responsabilidade política não é exactamente uma responsabilidade de outro tipo e creio que o próprio desenvolvimento das coisas, que todos queremos que seja solidário, acabará por ultrapassar muitos defeitos do passado".

Manuel Clemente não tem dúvidas de que "agora é [preciso] arregaçar as mangas e por o cérebro a funcionar" da melhor maneira.

"Todos estamos a perceber, não só pela situação portuguesa mas pela da Europa, que hoje em dia aquilo que fazíamos não chega, temos que nos reencontrar como humanidade mais solidária, mais universal, com a contribuição específica de cada ramo, mas sem perder o sentido do conjunto", sustentou.

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