"Consumo de drogas é usual mas não generalizado nas claques"

Como define as claques portuguesas em geral? O que as move?

As claques portuguesas de apoio aos clubes inserem-se, grosso modo, na subcultura de adeptos de futebol denominada de ultra. Enquanto grupos, caracterizam-se por deterem uma organização interna que programa e dinamiza junto dos seus associados as acções de apoio e deslocações aos jogos. Individualmente, na sua maioria são rapazes identificados com o estereótipo da cultura tradicional masculina, marcado pela afirmação e resgate da honra quando ameaçada. No ambiente de confronto do futebol, os adeptos ultras agem colectivamente na afirmação e defesa dos seus clubes de forma exacerbada (até às últimas consequências) e na demarcação pela oposição, onde se inclui a afronta e a minimização dos adversários, tidos não raras vezes como inimigos.

Como caracteriza a claque do Benfica No Name Boys?

Apesar da sua direcção se demarcar da subcultura ultra, de resto a única claque a assumir-se desse modo, o comportamento de apoio ao clube nos estádios é muito semelhante. O sentido de identidade própria que dão de si reproduz-se no distanciamento dos procedimentos usuais de acompanhamento das claques pelas forças policiais, tornando-se assim mais autónomos ou independentes.

Qual é o perfil tipo de um elemento desta claque ?

Encontra-se uma grande heterogeneidade ou transversalidade social e multicultural nos No Name Boys. Ainda que devido à idade a maioria seja estudante, encontram-se jovens inseridos no mercado de trabalho, sendo que a precariedade de emprego ou o desemprego que os afecta se encontra associado em grande medida ao existente na sociedade. Também a estrutura social dos seus elementos espelha a existente na sociedade portuguesa, onde predominam os grupos sociais de menores recursos. Sendo o Benfica um clube de expressão nacional, existem elementos de várias localidade do país, ainda que de forma mais concentrada em Lisboa.

Existe uma predisposição desta claque para a violência?

A predisposição para a violência tanto existe nos elementos dos No Name Boys como nos elementos de outras claques, embora esta deva ser contextualizada no historial de afrontas e lutas entre umas e outras e com forças policiais. O sentido de afiliação ou identidade ao clube constitui a força maior que os move no seu apoio, sendo para muitos uma "razão de vida".

Com quem se identificam os seus membros? Que ideais têm?

Enquanto membros da claque não se encontra propriamente a defesa de ideais para além da glorificação do clube e da claque a que pertencem. Os ideais passam muito por ver vencer a sua equipa, do seu clube ser um vencedor e assim se associarem à imagem de serem os melhores ou os "maiores" no mundo do futebol. Este ideal estende-se à imagem da claque e sentido de honra face aos outros, nomeadamente a valentia que os seus membros demonstram no contexto do comportamento esperado da cultural tradicional masculina. Apesar de em algumas claques portuguesas se encontrarem membros afectos a organizações da extrema-direita, sou levada a afirmar com base nos estudos que tenho realizado, que esta não será a realidade dos No Name Boys.

Estamos a falar de adeptos perigosos?

A perigosidade advém dos contextos. Quando se sentem afrontados ou ameaçados irão ripostar, utilizando todos os meios ao seu alcance, pois nos valores que partilham este é o comportamento esperado que lhes permite resgatar a honra enquanto grupo.

Drogas e armas estão intrinsecamente associadas às claques?

Da minha observação às claques nunca assisti à manipulação ou ao simples porte de armas de fogo. Também, no tipo de ocorrências registadas pelas forças de segurança nos espectáculos desportivos, não são referidos ilícitos provocados por armas de fogo. Já o consumo de drogas leves durante os jogos tende a ser usual, ainda que não generalizado a todas as claques nem a todos os membros dos sectores onde se localizam as pessoas que comportam estas práticas.

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