DESPORTO

Euro cifrões

Tivemos equipa, faltou seleção

A minha tese sobre a seleção é simples. O futebol é isto, Portugal é isto. Olhemos com alguma objetividade para a equipa de Paulo Bento. Quem eram os jogadores? Onze grandes estrelas, onze génios em que o selecionador acreditava piamente. Quem mais? Mais três suplentes, nos quais era possível ao treinador acreditar pontualmente, mas não sempre - apenas alguns minutos de vez em quando. O resto, os restantes, os outros todos, eram excursionistas. Foram de passeio ao Europeu. Não foram em vão, não é isso. Foram entreter-se e entreter o grupo. Serviram de partenaires ao Ronaldo no pingue-pongue ou de adversários do Pepe na Playstation. Também jogaram cartas e snooker. Grandes partidas aquelas. Missões espinhosas, portanto. Missões motivadoras. Mas apenas fora do relvado. Lá dentro a música era outra. Era (foi) exclusivamente para os 11 magníficos solistas e para os três figurantes ocasionais. Nunca para os excursionistas. O que estou a dizer? Que o Paulo Bento fez um milagre sobre as cinzas que o Queiroz deixou. Deu esperança onde antes só havia descrença. Deu fio de jogo onde antes não havia um cordel de talento coletivo. Fez uma equipa consistente. Ultrapassou a fase de grupos, ganhou à Holanda, jogou à bola com a República Checa. Atacou mais do que defendeu. Mostrou que a seleção portuguesa tem muito futebol e é muito superior não apenas à maioria dos adversários mas - e isto é o mais importante - ao que jamais ousaram acreditar os adeptos. Paulo Bento reabilitou a confiança dos portugueses e a autoestima da seleção. Esta meia--final, embora perdida, soube a final. Depois de tanto tempo - o tempo de Queiroz e de qualificação para o Europeu - sem uma única razão para ver um jogo do princípio ao fim, agora até fez sentido gravar para mais tarde recordar. Bem visto, Paulo Bento. Foi pena, no entanto, que só tivessem jogado aqueles 11+3. Foi pena que na meia-final a equipa tivesse ficado sem pilhas para o prolongamento, enquanto o Custódio ou o Viana apodreciam no banco, e os espanhóis corriam outra vez. Foi pena. Faltou experiência a Paulo Bento para acreditar que ao lado do Ronaldo todos ficam melhores. Podíamos perder, mas tínhamos perdido como seleção - não como 11+3. Com mais quilómetros (como selecionador), Bento não teria cometido este deslize. Agora, sim, estamos mesmo prontos para o Mundial.