"Pode ser que daqui a dez anos estejamos aqui a falar disto"

Crença de que processo pode arrastar-se dá esperança, mas fim dos hospitais é criticado por quem mora na zona. Mais policiamento é reivindicação.

"Mais segurança, que não há." Alzira Francisco, de 74 anos e residente há 47 no antigo Campo de Santana, não hesita quando lhe perguntam o que falta no local que há mais de 130 anos foi batizado Campo dos Mártires da Pátria. Não é a única que o faz. Na lisboeta Colina de Santana, localizada entre as avenidas da Liberdade e da Almirante Reis, o pedido repete-se em locais tão distintos como o emblemático Jardim do Torel ou num café nas traseiras do Hospital de Santo António dos Capuchos, sempre acompanhado pelo mesmo desejo: de que as três unidades de saúde que ainda ali funcionam não venham a fechar.

"Não concordo. As pessoas [que necessitem de ir ao hospital] vão para onde?", questiona Manuel Rodrigues, enquanto passeia o seu cão num Jardim do Torel deserto. A luz do dia faz que se considere seguro, mas a noite traz consigo o sentimento de insegurança. "Só há um segurança e não pode andar armado", justifica, garantindo que, quando sai de casa, vê "sempre" vidros partidos no chão e que já várias vezes foi abordado por "jovens que até atiram pedras" ao seu animal. "Falta policiamento", reitera.

Algumas ruas mais abaixo, Maria de Fátima, Maria Vieira e Olinda Silva corroboram a versão do vizinho. "Falta segurança e falta luz", acrescentam, numa altura em que a amena cavaqueira à mesa de um café se transformou já num desfiar de incidentes tão diversos como o roubo discreto de uma carteira no miradouro a um assalto à porta de um estabelecimento comercial. Nada que leve Horácio Martins, de 59 anos e residente na colina desde criança, a mudar de opinião.

"Há bairros bem piores. Há alguns assaltos, como há em toda a cidade", desvaloriza, sem que a descontração o abandone quando se fala no eventual encerramento dos hospitais de Santa Marta, de São José e dos Capuchos. Afinal, e apesar das outras duas grandes unidades de saúde da área - o Miguel Bombarda e a do Desterro - terem fechado, não acredita que as restantes venham a seguir o mesmo caminho.

"Pode ser que daqui a dez estejamos aqui a falar disto", desabafara, alguma portas antes e sem sair de trás do balcão, Moisés Pires. "Quando saírem daqui os hospitais, esta zona vai morrer mais um bocado", prevê o comerciante, sublinhando que os encerramentos mais recentes ditaram a perda de "alguns" clientes. "As pessoas deixam de passar por aqui", sustenta.

Alzira Francisco vai mais longe e antevê mesmo a morte do Campo dos Mártires da Pátria. E nem a possibilidade de ali vir a ser construída mais habitação convence a vendedora. "Há aí tanta casa...", diz, o desespero a tornar-se evidente quando se lembra das noites em que recorreu à urgência do Hospital de São José. "Quanto mais cedo morrermos, a menos pessoas eles pagam", remata, mais tarde, Maria de Fátima, sem saber que foi já identificada a necessidade de se instalar duas unidades de saúde primárias naquela colina.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG