Uma inquietante estranheza

Paula Rego (n. 1935), uma das mais consideradas artistas plásticas portuguesas, residente em Londres, confessou, um dia, que pinta à beira do precipício num movimento de grande fisicalidade. A pintura existe, pois, como um prolongamento de si própria: «Eu sou aquilo».

Pensar sobre a sua arte é reflectir sobre o medo que a ameaça de fora e de dentro. Paula descobriu o absurdo na sua multiplicidade, ou seja na mistura de elementos contraditórios que geram o processo criador: amor/ódio; verdade/mentira; humanidade/crueldade; fragilidade/ferocidade; liberdade/repressão.


Na sua obra, são as relações de poder a assumir diversas formas, sobretudo no registo da voz feminina: as da criança dominada pelo pai ou pela mãe,  pelo(a) professor(a); as da mulher pelo marido ou pelo amante (e vice versa), do indivíduo pelo Estado, da personalidade pela paixão ou da consciência pela culpa. O registo feminista da sua obra é o de Alice que atravessa para o lado de lá do espelho, esquecendo-se do medo.


O grito, nesta obra, recheada de ironia e de malícia, existe como lugar-limite, não de uma auto-apregoada angústia, mas de um aquém para lá da representação. Artaud falava do despedaçar da linguagem para tocar a vida. Paula Rego tem consciência disso. Freud e, antes dele, Shakespeare, já havia demonstrado que as intrigas mortais da tragédia grega são questões de família, de que emergem laços de poder fortíssimos.


Paula Rego ousa penetrar no território da ambiguidade afectiva como quem, hábil no uso da desproporção, vê a generosidade transformar-se em egoísmo ou o amor em posse. A sua pintura vive de uma inquietante estranheza, emergindo tantas vezes do lugar do doméstico, do oculto, do que envergonha, da solidão, do terrífico, na dialéctica entre pesadelo e realidade. A sua arte lúcida não julga, mas conta, incessantemente, histórias, sem qualquer carácter ilustrativo, construindo uma imagética, na qual as contradições humanas são mantidas num território de incomunicabilidade ou de comunicabilidade deformada.


A  pintora cria para não morrer no caos circundante, ressuscitando o signo no seu teatro de emoções. Afinal, palavra e imagem conjugam-se por meio da alegoria e do símbolo, do acto combinatório ou do paradoxo.


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