Restaurantes. Quero lugar cativo nestes sete!

Fernando Melo é crítico de vinhos e comida e decidiu partilhar quais os restaurantes a que tem pressa de voltar depois do período de confinamento pela pandemia da covid-19

Aqui ficam os sete restaurantes a que tenho urgência em voltar, por imperativos diversos e com as saudades à cabeça.

A cozinha de raízes no estado mais puro:

Solar Bragançano
Praça da Sé 34
5300-265 Bragança
Tel. 273 323 875
12:00-15:00: 18:00-23:00
Fecha: Segundas (de Outubro a Junho)
Preço médio: 20 euros

Sempre que transponho a porta exterior da bonita e bem cuidada casa onde com amor à sua arte e aos outros Ana Maria Baptista e Desidério Rodrigues diariamente preparam uma grande experiência à mesa, e subo os degraus que me vão levar à cozinha ou à sala de estar, ouço interiormente Ricardo Reis nas palavras de José Saramago: "É sempre agradável conhecer gente doutros lugares, pessoas educadas". Se tivesse de resumir numa frase apenas o Solar Bragançano, era essa que utilizaria. A frase, já agora, acontece numa resposta do protagonista de "O Ano da Morte de Ricardo Reis", no momento em que está a subir para o seu quarto e lhe perguntam se quer juntar-se a eles ao jantar. Há uma noção de paz merecida que nos é logo ali oferecida e sempre as salas estão cheias de almas em paz vindas de partes diversas. Nos potes de ferro estão desde a alvorada alguns dos tesouros culinários de que só Ana Maria sabe tudo e que à mesa são ouro puro. A sopa de castanhas é artigo de fé, a perdiz com uvas perdição e o pudim abade de Baçal redenção. Mas há mais, muito mais, dá bem para duas semanas sem repetir sequer. Um bacalhau fabuloso, cabrito de Montesinho de nível antológico e um arroz de lebre que se recorda com água na boca. Desidério faz com Mónica Figueiredo, das Vinhas da Ciderma, em Galafura, os belíssimos vinhos da casa, e é copiosa a sua garrafeira.

Uma sala que é abraço:

Cimas / English-Bar
Av. de Sabóia 9
2765-027 Estoril
Tel. 214 680 413
12:30-16:00; 19:30-23:00
Fecha: Domingos
Preço médio: 50 euros

José Manuel Cima Sobral é um grande profissional, um grande amigo e um grande pai. O restaurante foi fundado pelo seu pai e oficia ali desde muito novo, mantendo contudo os estudos superiores em economia e salvo erro até engenharia. É difícil puxar-lhe pela sua história, fui apanhando pedaços do seu brilhante currículo dos tempos universitários nas muitas vezes que me sentei ali à mesa. Há parentesco com o fundador do Gambrinus, em Lisboa, e a decoração de ambos os espaços tem muitos pontos comuns. Mas Cimas é Cimas, tanto configura abrigo seguro como promontório dos prazeres da mesa, em registo espantosamente familiar. Fazem a melhor galinhola do mundo, que gosto de dizer a brincar que é a única que é melhor que a minha. Servida primorosamente, em momentos diferidos, na altura certa. "O que é que lhe apetece comer", é a abordagem clássica de José Manuel Sobral, que depois diz o que tem do dia. Tanto pode incluir bruxinhas - santiaguinhos - como sapateira ou o que eu adoro: salpicão de marisco. Só aqui me sabe bem e quando vou preciso também desse abraço. Maravilhosa a lampreia no tempo dela, já percebi que poucos conhecem e um dos pratos estrela da casa também me apetece sempre: cherne na canoa. Tenho mesmo de voltar ao Cimas.

Ser dono da casa:

Líder
Alameda Eça de Queirós 120/130
4200-272 Porto
Tel. 225 020 089
12:00-15:30; 18:30-23:00
Não fecha
Preço médio: 27 euros

Chega o momento do check out dos hotéis quando durmo no Porto e como não sou de esperar pela última hora nem de ser despejado na cidade que me viu nascer, saio pelas 11 da manhã, meto-me num táxi e como só volto para baixo no último comboio, vou impingir-me ao amigo Manuel Moura, gigante da tradição gastronómica na Invicta. Já aconteceu estarem ainda a aspirar e a limpar o pó, mas sempre a porta franca para mim. Sirvo-me de tremoços no pequeno bar logo à entrada e sento-me quieto a ler até alguém aparecer. A casa é sua, dizem todos à vez e percebo que não tenho o exclusivo, longe disso; todos no Líder são bem tratados. Bolinhos (pastéis) de bacalhau a estalar, rissóis pequeninos daqueles a que ninguém resiste, presunto cortado fininho, amendoins e está a empreitada de boas-vindas cumprida, quando ainda nem é meio-dia. Mas se for meia-noite é igual, já abusei o suficiente da paciência de todos para perceber que parte da casa é mesmo minha. Amêijoas à Bulhão Pato, Papas de sarrabulho, filetes de pescada ou de peixe-galo com arroz de tomate, bacalhau assado ou à Narcisa, com presunto, tripas à moda do Porto - Manuel Moura tem subidas responsabilidades na confraria - mão de vaca com grão ou um simples bife grelhado, casa mais casa é impossível.

A refeição mais vibrante:

Rei dos Leitões
A
v. da Restauração 17
3050-375 Mealhada
Tel. 231 202 093
9:00-24:00
Fecha: Quarta
Preço médio: 40 euros

Acho que nunca cheguei ao Rei dos Leitões que não estivesse transido de fome ou morto de sono, respetivamente ao almoço e ao jantar, completamente fora das baias aceitáveis mesmo para quem tolera de coração a prolixidade aos amigos. Licínia Ferreira e Paulo Rodrigues são pessoas a quem nunca vi um esgar sequer de contrariedade, mesmo nos dias de enchente, quando nem devia ter pensado em aparecer. Já vai para uma década que o casal assumiu integralmente as rédeas da que é uma das mais antigas casas da Mealhada e mudou radicalmente o conceito de serviço e qualidade em toda a região. Começa por ter sempre peixe e cascaria - leia-se marisco - fresquíssimo, que só falta aqui chegar a pulsar. Depois, não há duas refeições iguais, apenas a excelência é fio condutor, tudo o resto muda. Finalmente, o leitão assado à Bairrada é muito bom. Afeiçoei-me a este regime de imprevistos e turbulência assumidos na perfeição e é uma grande recompensa sempre que me sento à mesa no "Rei".

A perfeição:

Ocean
Vila Vita Parc
Rua Anneliese Pohl
Alporchinhos
8400-450 Porches
Tel. 282 310 100
19:00-22:00
Fecha: Segundas e terças
Preço médio: 170 euros

Às vezes apetece-me o luxo e a perfeição absoluta e não vejo razão para fazer voos de meio mundo para me sentar à mesa e ter a refeição perfeita, quando ela está logo aqui. Entrego-me nas mãos da brigada maravilha - chef Hans Neuner, subchef Florian Rühlmann e mestre pasteleiro Márcio Baltazar - e estou no paraíso. Tenho muita pena que tantos falem bem ou mal sem nunca cá ter vindo, e é uma dor de alma assistir ao desfile de pessoas que estiveram aqui em regime de banquete, onde comeram canapés e pouco mais. É a equipa de profissionais mais extraordinária que conheço e com quem felizmente tenho laços profundos de franca amizade. E no topo de tudo e todos, o grande Kurt Gillig, o mais brilhante diretor de hotel de Portugal.

O mar:

Nunes Real Marisqueira
Rua Bartolomeu Dias,112
1400-031 Lisboa
Tel. 213 019 899
12:00-24:00
Fecha: Segundas
Preço médio: 45 euros

Miguel Nunes nasceu já meio calhado para este ofício e aprendeu cedo e depressa com os melhores. Se pensar em ir à sua casa para as coisas marítimas que só a equipa dele processa a contento é já uma enorme alegria, estar ali à mesa é o nirvana. Cascaria sempre de nível superior, de que tenho de destacar os percebes, as canilhas, as amêijoas e os cavacos, mas isso porque sou obtuso e de ideias fixas, peixes de mar que deixam todos na perplexidade, como se de um choque coletivo de moreia se tratasse. O patrão não se faz rogado para se sentar à mesa quando a conversa anima e a paixão pelo produto atinge por vezes o nível supremo de soltura, há dias em que o afoito Miguel leva grupos à cave para lhes mostrar os seus aquários e viveiros. Quando regressamos à sala respiramos ainda melhor e nunca falta uma peça brilhante de carne maturada para executar a primor e fazer-nos acreditar no milagre da casa perfeita. Vivo na esperança de que um dia esta casa seja toda só minha, mas enquanto isso não acontece regalo-me assim, desta forma intermédia. Perfeição é isto.

A terra:

Degust"AR Lisboa
R. Latino Coelho 63
1050-133 Lisboa
Tel. 213 520 896
12:30-15:00; 19:00-23:00

É ponto assente e matéria cientificamente comprovada que não existe uma cozinha nacional. Toda o prato e forma de cozinhar é na sua essência regional. O rapazinho inquieto e desinstalado que vive dentro do chef António Nobre é porventura o maior e melhor expoente dessa tautologia gastronómica. Fui muitas vezes ter com ele a Évora só para me sentar à mesa e provar as suas "trivialidades" culinárias, que me enchiam a alma e as consequentes propostas de pratos, que sempre me fascinaram. Agora está também em Lisboa, felizmente, e tenho a certeza de que muitos não deram ainda por ele na capital, mas não tenho dúvida de que me devo apressar a não dormir na forma se quero ter sequer a esperança de uma olhar para o que o Alentejo e a terra têm ainda para revelar. É a mesa mais mediterrânea de Portugal e eu gosto muito do António Nobre. Somos amigos mas eu interiormente faço-lhe sempre uma enorme vénia, antes de me sentar à sua mesa. Privilégio maior não há.

* Fernando Melo é crítico de vinhos e comida na revista Evasões. Engenheiro físico pelo IST, dedica-se há 30 anos ao estudo das raízes e dos patrimónios gastronómicos do país, percorrendo ao pormenor o território, nas suas mesas, vinhas e adegas. Dá formação em Enogastronomia nas escolas de Hotelaria nacionais.

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