Vamos ter de encolher os veículos se queremos salvar as nossas cidades

Se as grandes cidades vão evoluir para metrópoles e atingir o triplo da mobilidade até 2050 então os veículos têm de encolher. Esta a ideia central da manhã de intervenções e debates do último dia do Portugal Mobi Summit, dedicada à micromobilidade, um setor que vale mais de 10 mil milhões.

Assaf Biderman, do MIT, está absolutamente seguro de que não há outra solução para termos cidades sustentáveis sem derivarmos para os veículos ligeiros. E a empresa que lidera, a Superpedestrian, nasceu precisamente para tornar o sistema de micromobilidade mais tecnológico, seguro e rentável, e com condições de chegar também à periferia, onde faz falta.

Partindo das estimativas que apontam para o triplo do fluxo de pessoas nas cidades em meados deste século, o diretor associado e fundador do MIT Senseable City Lab lembrou que o problema se agudizou com a vulgarização do e-commerce e das entregas rápidas aceleradas pela pandemia. "As ruas estão esgotadas, sob uma enorme pressão e vamos ter de abordar este problema", disse Assaf Biderman, em comunicação digital a partir dos Estados Unidos.

"Apesar dos muitos milhões que continuam a ser gastos nos carros elétricos, a sua massificação não vai resolver, por si só, este problema do congestionamento", observa Biderman.

Por outro lado, é a própria utilização dos veículos que está desadequada, pois um carro é ocupado por menos de 1,3 pessoas, em média, nos dias de semana e, se calhar, nem é o meio mais adequado ao tipo de viagem.

É aqui que entra a multimodalidade de transportes em que se combinam vários tipos de meios, como usar o carro da periferia até um parque e depois uma bicicleta elétrica ou uma trotinete para fazer a distância mais curta, a chamada last mile ou até chamar o táxi on demand. "Se conseguirmos evoluir para este tipo de soluções e integrá-la nos nossos hábitos , as cidades vão funcionar muito melhor", sustenta

"O grande desafio é tornar este sistema rentável e seguro também nas periferias". Como o próprio diz, "quanto mais pequeno o veículo e mais longe se afasta das áreas de grande densidade, mais difícil é ganhar dinheiro com ele". Por isso, a Superpedestrian desenvolve software para dotar estes veículos ligeiros de sistemas inteligentes que podem ser geridos remotamente, para controlar limites de velocidade, para não circularem em cima de passeios, para indicarem a necessidade de manutenção, etc. "Há imensas possibilidades", assegura.

A "inteligência destes veículos ligeiros não pode custar milhares de euros como custam nos automóveis, temos de fazer com 30 euros, mas é possível", assegura. Um indicador nesse sentido é que a plataforma da Superpedestrian está já em mais de 50 cidades nos Estados Unidos e Europa.

O efeito pandemia nas cidades

É consensual que a pandemia veio incentivar a chamada mobilidade suave, com menos carros na ruas, mais espaço e maior sensação de segurança para quem se quis aventurar nas bicicletas ou trotinetes e que é algo que veio para ficar. Pelo menos no painel dedicado a este tema, em que Andrea Vota, diretor de Políticas Públicas para Portugal, Espanha e Itália da Bolt, que vive em Madrid, garantiu que na Bolt "com o desconfinamento temos visto uma grande subida dos nossos serviços, que revela que se tiveres ofertas diferentes de transporte na cidade, públicos e privados, como a Bolt, as pessoas devem aproveitar".

Já o português Miguel Peliteiro também começou por recordar a sua experiência pessoal para explicar de onde vem a sua ligação às bicicletas e o que o levou a criar a CycleAI. "Eu fiz todos os meus estudos médicos em Barcelona e levava a bicicleta para todo o lado e criei este hábito. Com a pandemia, voltei para Portugal e numa viagem de bicicleta tive um acidente e achei que tinha de zelar pela segurança das pessoas".

Na opinião de Peliteiro, "a falta de infraestruturas pode explicar algum dos problemas em relação às bicicletas, a cultura das pessoas também, mas não explica tudo". "A falta de segurança é um entrave para quem quer usar bicicletas e trotinetes nas cidades". Por isso, a CycleAI, de que é co-fundador, tem o projeto de implementar um sistema de GPS, como se fosse uma espécie de Google Maps, mas para ciclistas, com indicações de segurança para o utilizador.

Will Norman, comissário para a Mobilidade Ciclável e Pedonal da Câmara de Londres referiu que "com o desconfinamento, aqui em Londres, muitas pessoas ainda estão em teletrabalho ou num regime híbrido, mas estamos a voltar a um volume normal de carros nas estradas. Mas aos dias de semana continua a haver muitas bicicletas nas ruas e ao fim de semana é uma coisa incrível". Resumindo: "O que aprendemos em Londres é que onde fazemos ciclovias as pessoas usam-nas".

O responsável lembrou também, que para além da crise pandémica e do imperativo climático enfrentamos também uma crise de obesidade, pelo que "é essencial que mudemos a forma como nos movemos, a começar pelos mais novos, temos de incentivá-los a irem a pé para a escola, a usarem a bicicleta, a trotinete. Temos de levar os miúdos a pensar que isto é o novo normal. Este é o futuro, tem de ser o futuro", sublinhou o autarca.

Elisa Ferreira e a oportunidade de uma geração

"Eu apoio particularmente o tema deste ano - O paradigma está a mudar, estamos nós? -, porque este é, de facto, um tempo de ação", disse Elisa Ferreira, que encerrou o terceiro e último dia do Portugal Mobi Summit. A comissária europeia prosseguiu dizendo que a crise climática dá-nos um sentido de urgência.

E citou números recentes da Agência Europeia do Ambiente, segundo os quais as horas gastas pelo condutor médio em congestionamentos de trânsito aumentaram entre 2015 e 2017. O problema é mais grave nas cidades, onde se perdem 254 horas por ano parados no trânsito em Roma, 246 horas em Dublin e 237 horas em Paris.

A comissária aludiu também aos efeitos da pandemia que induziu uma subida dramática no teletrabalho "e isto é apenas o início de uma revolução digital que vai remodelar totalmente as nossas cidades e também a forma como vivemos". Como? Na última década, todo o crescimento europeu e quase todos os novos empregos altamente qualificados concentram-se nas maiores cidades. A economia digital é uma oportunidade para nivelar as coisas, para que novos empregos possam ir para cidades mais pequenas", declarou a comissária para a Coesão e Reformas.

Mas, ressalvou, "uma pré-condição para isto acontecer é existir uma mobilidade urbana de grande qualidade em cidades mais pequenas e boas ligações de transportes entre estas cidades pequenas e as cidades maiores". As pessoas querem viver onde existe uma boa qualidade de vida. E isto cria um novo impulso para uma melhor mobilidade em todo o lado. Porque não são apenas as pequenas e médias cidades que terão de melhorar as suas condições.

A terceira razão para este ser um tempo de agir é o Plano de Recuperação e Resiliência. "Temos uma oportunidade única numa geração para o financiamento europeu promover uma recuperação digital e ambiental do covid. Só nas políticas de coesão esperamos mais de 100 mil milhões de euros de investimento na transição "verde", com mobilidade urbana sustentável, que é um dos nossos investimentos principais".

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