"Vamos fazer em 7 anos o que não foi feito em 30"

O CEO da Casais reconhece que o setor pode ser pivô de ativação da economia. Mas alerta que é preciso apoiar a modernização da indústria.

O grupo Casais, com presença em 17 geografias e que emprega mais de 4500 pessoas, não vai sair incólume da crise, mas as preocupações estão mais centradas em 2021 e na possibilidade de se verificar uma travagem do investimento privado. Até porque o lançamento de obras públicas de envergadura só deve ocorrer no final desse ano.

Qual é o impacto estimado da covid na atividade da Casais?
Neste ano, tínhamos previsto ultrapassar a barreira dos 600 milhões de volume de negócios, um crescimento de 15% em termos globais. O que identificamos é um impacto nesses 15%, isto é, projetamos agora para 2020 a repetição de 2019. É uma perspetiva conservadora. Ficar ao nível de 2019 é francamente bom, até porque foi o nosso melhor ano de sempre.

Como se estão a comportar os diferentes mercados onde o grupo tem presença?
Temos países onde ainda não retomámos atividade, como a Argélia. Se calhar até vamos suspender aí. Em cada geografia temos níveis de resposta diferentes. Em Portugal, já estávamos a prever em 2019 um acréscimo - acabou por não acontecer no ano passado, mas a carteira foi acumulando. Neste ano, os meses de janeiro, fevereiro e março foram os melhores em cinco anos. Não tínhamos esse nível de faturação em Portugal há muito. Em abril sentiu-se um impacto negativo mas em maio já estávamos a crescer. Este ano, até vamos ter um incremento de atividade em Portugal, muito pela carteira que vinha a ser construída desde o ano passado. Desde 2011 que Portugal caiu para menos de 30% do peso global do grupo e mais para baixo também já não era possível. Nos restantes mercados as respostas são mistas. Nos países lusófonos (Angola, Moçambique) houve algum impacto, mas não devemos notar grande diminuição na atividade. Estamos mais preocupados com a carteira para o próximo ano e seguintes, porque são mercados que não têm a mesma capacidade de criação de riqueza e vão ter algumas dificuldades em conseguir financiar projetos. Na Europa, a atividade vai continuar de forma bastante estável. No Médio Oriente também houve algum impacto, não em abril mas quando começou a subir o número de infetados. Cancelamentos de contratos não houve, há um adiantamento de alguns novos. Nos EUA, a operação tem estado estável e no Brasil vamos ficar a 25% do que estava orçamentado. Isto são 15% de redução face ao orçamento mas que permite atingir valores de 2019. Uns mercados compensam outros.

Vai haver uma redução do peso da operação internacional?
Neste ano, a operação internacional vai pesar 62% a 65% de uma projeção de 515 a 520 milhões de volume de negócios. O peso do mercado nacional vai aumentar, devido a obra privada. Aquilo que é característico do nosso país - segurança, clima, estabilidade - continua a atrair pessoas que querem viver e ter um ativo em Portugal. Mas temos de estar atentos porque todos os governos vão procurar atrair investidores internacionais e reter os seus habitantes. A Grécia, que saiu muito mais tarde da crise, está muito bem preparada e agressiva na procura de investidores internacionais e está a conseguir. Nós manchámos a nossa credibilidade quando demos aquele passo atrás com os vistos gold e, mesmo que nada tenha acontecido, a mancha ficou e assustou os investidores, que perceberam que isto podia ser frágil do ponto de vista legislativo e fiscal.

Porque vão sair da Argélia?
O país tem dificuldades do ponto de vista operacional, nas viagens e na logística. Os contratos têm sido adiados. Sempre foi uma geografia bastante difícil e a nossa operação também não é muito grande. Vamos concentrar recursos onde há mais massa crítica.

O grupo recorreu ao lay-off?
Em alguns casos tivemos que recorrer ao lay-off, porque parou a atividade. Cada país tem o seu modelo. Tivemos lay-off no "backoffice", porque em abril 50% das nossas operações a nível global estavam suspensas. Muito do serviço que prestamos fora é feito daqui, da nossa sede. Sem atividade lá fora não havia forma de alimentar a estrutura e tivemos de reduzir horários. Em muito poucos casos houve suspensão total.

Como avalia a atuação do governo na pandemia?
A resposta foi imediata e suficiente. O impacto desta crise ultrapassa o governo, é uma crise de cauda longa, os efeitos vão ser muito duradouros. A retoma vai depender da boa operacionalização do plano de investimentos, que terá o apoio da União Europeia, com a escolha assertiva dos projetos a realizar no país, com a requalificação profissional - vamos precisar dela. O plano vai obrigar à cooperação entre entidades públicas e privadas, precisamos de trabalhar nessa sincronização e cooperação. O governo tem estado bastante presente, quer do ponto de vista da saúde quer das empresas, mas isto é uma maratona. No sprint inicial arrancámos bem, resta saber se temos o fôlego para fazer a maratona.

Os milhões que vêm da UE serão a salvação do país?
Não podemos correr o risco de acontecer o que aconteceu na crise anterior. Fazendo uma retrospetiva do setor da construção de 2008 a 2010 não se passou nada, porque havia um pacote de investimento em obra pública. Estamos agora a falar de uma resposta à crise também com pacotes de investimento público, mas isso também tivemos e, em 2011, quando acabou o pacote, a situação deteriorou-se abruptamente... Temos uma oportunidade, mas é única. Se falhamos na aplicação de recursos para tornar o país mais competitivo - as nossas empresas mais competitivas, no contexto português e internacional -, os países que forem assertivos na capacitação das suas empresas vão dominar. Estamos na ponta da Europa. É fácil as empresas serem engolidas por grandes conglomerados se não soubermos criar escala.

Como perspetiva o próximo ano? A alavanca será o investimento público?
Vai depender muito do lançamento de novos contratos e não tenho a certeza se a confiança, principalmente do privado, irá estar no mesmo patamar. Temos de trabalhar bastante para 2021. Em Portugal, as nossas obras são essencialmente privadas, cerca de 85%. No exterior, o setor público pesa mais de 60%. Os pacotes de investimento público só deverão avançar no final de 2021. Há todo um calendário a percorrer: definição de projetos de investimento, lançamento de concursos, empreitadas... Mas o sentimento é positivo face aos pacotes que vão ser lançados, de investimento público nacional e internacional. A construção pode ser o pivô de ativação da economia, temos uma grande responsabilidade na desmultiplicação por outros setores. Mas ninguém adivinha crises políticas, se vai haver novas discussões na Europa. Os países estão em reação e proteção. É tudo muito incerto, não podemos fazer planos a muito longo prazo. Entrando o investimento temos o desafio de conseguir concretizar toda essa carteira, porque se olharmos para o pacote estamos a falar de fazer em sete anos mais do que foi feito em 30. Mas isso vai implicar que o setor da construção se reconfigure. A questão da produtividade e da reindustrialização - falada há tanto tempo - vai ser incontornável, porque não há outra forma de se fazer investimentos se não com uma indústria reconfigurada. Não podemos cometer o erro de lançar empreitadas que exigem determinadas competências e capacidade instalada sem dar tempo à indústria para se preparar. Não é difícil perceber quais são as obras estruturantes para tornar o país mais competitivo, mas é preciso sequenciá-las. E lançar em antecipação pacotes de incentivo ao setor. As empresas de construção sempre estiveram fora desses apoios. Se queremos ter uma indústria com mais pré-fabricação, digitalização, tem de haver pacotes voltados para a construção.

Leia mais em Dinheiro Vivo a sua marca de economia

Mais Notícias