Teletrabalho veio para ficar nos serviços. Na indústria não é bem visto

Parlamento debate nesta quarta-feira o futuro do trabalho remoto. Nas fábricas, mesmo nos escritórios, industriais defendem que prejudica a atividade e que não deve ser imposto

A imposição do teletrabalho não agrada nem às associações patronais nem aos sindicatos. Nas empresas a opinião é a mesma, o trabalho remoto pode ser uma realidade se devidamente acordado entre as partes. A EDP, por exemplo, assume que irá adotar um modelo híbrido, mesmo depois da pandemia, permitindo que os seus funcionários trabalhem a partir de casa "pelo menos dois dias por semana". Na Kyaia, fabricante de calçado, o departamento de soluções informáticas e os trabalhadores da plataforma de e-commerce estão todos a trabalhar à distância, mas nas fábricas, mesmo o pessoal dos escritórios, está no seu posto de trabalho porque a distância causa "dificuldades de comunicação, inconvenientes e desassossego".

O tema estará hoje na ordem do dia na discussão, na generalidade, dos dez projetos de lei que pretendem regulamentar o teletrabalho. O pagamento das despesas é um dos pontos que divide os vários partidos. A grande incógnita é saber se os vários projetos chegarão a ser votados ou se descerão, sem votação, à comissão para prosseguir o trabalho legislativo na especialidade. O Dinheiro Vivo foi conhecer a opinião de empresas e associações empresariais.

EDP adota modelo híbrido

A EDP, que conta com cerca de seis mil trabalhadores em Portugal, tem cerca de 70% dos seus funcionários em teletrabalho, desde o início da pandemia, número que "desceu ligeiramente" quando foi permitido regressar aos escritórios, no ano passado. Medida que foi implementada "de forma voluntária e em horários desfasados", o que o grupo pretende voltar a implementar, agora, quando o governo vier a determinar o fim da obrigatoriedade no teletrabalho. "Um eventual regresso aos escritórios deverá ser voluntário enquanto a situação e risco pandémico se mantiverem", explica, ao Dinheiro Vivo, fonte da empresa.

Mas está também já definido, no seio do grupo, que nada voltará a ser como era depois da covid-19. "Num futuro pós-pandemia, a EDP já se comprometeu em adotar um modelo híbrido para as funções que podem ser feitas em teletrabalho, que permita o teletrabalho pelo menos dois dias por semana", acrescenta a mesma fonte.
Os 30% de trabalhadores que estão em regime presencial são apenas aquelas cujas funções não podem ser praticadas à distância, sublinha a empresa, que cita, como exemplo, os colaboradores que asseguram a manutenção dos serviços essenciais de produção e distribuição de energia.

Kyaia contra imposição

Para Fortunato Frederico, que criou e preside à Kyaia, o maior grupo industrial de calçado, o teletrabalho cria "dificuldades de comunicação, inconvenientes e desassossego" nas empresas, e jamais deveria ser imposto. "Isto tem de ser deixado ao critério das empresas e dos trabalhadores, para que seja analisado e acordado caso a caso", defende.

Com cerca de 600 trabalhadores, a maioria do chão de fábrica, o grupo Kyaia tem, neste ano, mantido em teletrabalho apenas meia dúzia de funcionários da área de soluções informáticas e a vintena de trabalhadores da sua plataforma de e-commerce, a Overcube. Os trabalhadores dos escritórios da Kyaia estão a trabalhar nas fábricas porque "lidam com papéis e não podem levá-los todos para casa".

"Sou conservador por natureza - conservador nos hábitos, aventureiro nos sonhos - e acredito que o trabalho presencial é mais fácil, as pessoas falam e entendem-se. Estando a trabalhar à distância, há sempre uma certa desarticulação, pequenas areias na engrenagem, que tornam tudo isto muito complicado", defende o empresário, que acredita que este isolamento social se vai pagar mais à frente. "Tudo isto vai deixar marcas, há elos que se quebram, estamos a decepar as sociedades do calor humano e a tornarmo-nos todos mais soturnos e mais frios", argumenta.

Associações patronais contra a imposição

Com um universo de 250 mil trabalhadores divididos por 15 mil empresas, a indústria metalúrgica e metalomecânica vê com maus olhos a manutenção do teletrabalho obrigatório agora que terminou o estado de emergência. Para a AIMMAP, a associação do setor, o trabalho remoto é uma modalidade que "pode ser interessante para ambas as partes, mas só faz sentido se for implementada de comum acordo". Logo, a imposição administrativa não é bem vista.

Para o vice-presidente da associação, as empresas estão abertas a, "de uma forma racional, organizarem o trabalho de forma eficiente, mas, para isso, "é preciso criar condições para que o trabalho remoto seja feito de forma eficiente e sem perdas de produtividade". E para Rafael Campos Pereira, a experiência dos últimos meses, no que à Administração Pública diz respeito, redundou em "enormes perdas de eficiência". As empresas têm sido "permanentemente confrontadas", garante, com o argumento do teletrabalho nas entidades públicas para justificar atrasos nos processos e adiamento nas decisões ou reuniões. "Houve muitas interpretações deficientes sobre o que é o teletrabalho, que acabou por servir como desculpa para justificar tudo e mais alguma coisa", garante Rafael Campos Pereira.

Também o presidente da Associação do Vestuário, a Anivec - que representa cerca de quatro mil empresas e noventa mil trabalhadores - recusa imposições administrativas nesta matéria, considerando que "tudo o que é obrigatório inibe o desenvolvimento do país". César Araújo insiste: "mas porque é que alguém tem que regular como é que a empresa deve organizar o seu trabalho?". E vai mais longe dizendo que o teletrabalho na indústria é um completo "contrassenso".

"Como é que se espera que haja criação, num departamento de criatividade, se todos estiverem em casa? Não é por videoconferência que se consegue a interação necessária", defende. E os funcionários dos escritórios também não podem trabalhar à distância, a não ser que se pretendam aumentar os custos burocráticos das empresas. "Acha que é possível ter documentos confidenciais a andar de um lado para o outro? E quem é que os vai levar a casa do funcionário que está em teletrabalho?", questiona, reiterando que "tudo o que é obrigatório é um obstáculo ao desenvolvimento".

Ilídia Pinto é jornalista do Dinheiro Vivo

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