Telecomunicações com o número mais baixo de sempre de trabalhadores

Nunca as telecom tiveram tão poucos recursos humanos como hoje. A Altice responsabiliza o "ambiente regulatório adverso e hostil" pela destruição de emprego no setor.

No final de 2020, a globalidade das empresas cujo core business não são as telecomunicações, mas que parte da atividade também passa pelas comunicações eletrónicas, empregava o número médio de 10.855 pessoas associadas a essa atividade. O número cai para os 7.891 trabalhadores especificamente associados à atividade de comunicações eletrónicas, se se observar apenas as empresas cuja atividade principal são as telecomunicações, segundo o relatório "Mercado das Comunicações na Economia Nacional (2016-2020)", divulgado pela Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom) em meados de dezembro.

O documento do regulador constata a manutenção de uma "trajetória descendente", que se tem agravado nos últimos cinco anos. Fonte oficial da Anacom confirma ao DN/Dinheiro Vivo que, em ambos os casos, a redução de recursos humanos (incluindo funções de apoio ao negócio, como as áreas financeiras e administrativas) culminou nos números de trabalhadores "mais baixos de sempre" do setor.
Em cinco anos o número médio de trabalhadores reduziu-se em 3914 pessoas. Só de 2019 para 2020 assistiu-se a uma quebra de 1902 pessoas - num ano o setor ficou sem quase metade dos trabalhadores que perdeu em cinco anos.

O relatório da Anacom explica que o emagrecimento do setor, em termos de recursos humanos, se deve "maioritariamente ao acentuado decréscimo do número de empregados de um dos prestadores com maior dimensão no mercado de comunicações eletrónicas". Acresce que "outro dos prestadores mais relevantes no setor" registou também "uma redução considerável do seu número de empregados".
Fonte oficial do regulador não quis revelar a que empresas se refere a análise. O documento indica, ainda, que "este decréscimo não foi compensado pela contratação de trabalhadores por outras empresas do setor". Ou seja, os trabalhadores que estão a sair das telecom não estão a ser recrutados por outras empresas de telecomunicações. Estão a deixar o setor.

Os trabalhadores que estão a sair das telecom não estão a ser recrutados por outras empresas de telecomunicações. Estão a deixar o setor.

Em 2021, o número de trabalhadores nesta área deverá sofrer nova revisão em baixa. Só a Altice Portugal - líder do mercado nacional de telecomunicações - avançou, nos primeiros meses do ano, com uma segunda versão do Programa Pessoa, um plano de rescisões por mútuo acordo a que se candidataram cerca de 1500 trabalhadores. A empresa não revelou quantos saíram mesmo, mas Alexandre Fonseca, CEO da dona da Meo, disse à Lusa, em abril, que estimava a saída voluntária de cerca de mil pessoas. Acresce, já na segunda metade deste ano, um novo processo que culminou na saída de 204 pessoas (32 por despedimento coletivo).
Não são públicas saídas em massa da NOS ou Vodafone, duas outras principais empresas do setor.

"Efeito colateral" da Anacom?

O ritmo de perda de recursos humanos pode ser alarmante, numa altura em que a exigência sobre as empresas de telecomunicações cresce, devido à implementação da quinta geração da rede móvel (5G) e aos novos critérios regulatórios de cobertura do país com redes de telecomunicações.
Contactados os principais players do mercado (Altice, NOS e Vodafone), bem como a associação dos operadores, a Apritel, apenas a Altice respondeu às perguntas do DN/Dinheiro Vivo. Para a empresa liderada por Alexandre Fonseca, a responsabilidade está do lado regulatório, não dos operadores.

"Portugal e o setor das telecomunicações nacional vivem um contexto particular. O ambiente regulatório adverso e hostil, causado pela autoridade reguladora - Anacom - tem vindo a destruir valor ao mercado. Inevitavelmente, este cenário de instabilidade e falta de previsibilidade regulatória induz à redução de investimento por parte dos operadores e, consequentemente, cria condições para a destruição de emprego", afirma fonte oficial da Altice ao DN/DV.

Para a Altice Portugal, a "destruição de emprego" no setor é "lamentavelmente um efeito colateral sério e grave da atuação" da Anacom. "Os programas organizacionais, que todo este setor encetou para reduzir efetivos, são da responsabilidade deste regulador e da sua atuação cega para a economia e para os verdadeiros interesses do país, sendo disso exemplo o processo do leilão do 5G ou as más decisões tomadas em tantos outros processos que têm como denominador comum a ausência de racional e de análise de impactos", acusa a empresa.
Ainda que questionada, a Altice não esclarece se a diminuição de trabalhadores pode penalizar a estratégia da empresa ou dificultar o alcance de novas metas, tendo em conta as exigências do 5G e dos novos critérios de cobertura, bem como a escassez de talentos especializados nas áreas tecnológicas que servem o setor. Não obstante, a empresa assegura ter uma "estratégia de atração de novos talentos e rejuvenescimento da sua estrutura". Fonte oficial diz que foram realizadas, este ano, 120 novas admissões para os quadros e contrataram-se 54 trainees, além de terem sido integrados 157 estágios profissionais e 64 estágios curriculares.

Emprego cai mas investimento sobe

Apesar do emprego no setor estar no nível mais baixo de sempre, o mercado das telecomunicações tem mostrado resiliência nos indicadores de investimento, rendimento e resultados operacionais. O relatório da Anacom mostra que o nível de investimento entre as empresas de telecomunicações teve um crescimento homólogo de 20% em 2020, para 700,7 milhões de euros. O valor mais elevado dos últimos cinco anos em análise.
E mesmo que 2020 tenha sido o ano da pandemia, "o rendimento da atividade de comunicações eletrónicas totalizou cerca de 4,32 mil milhões de euros", o que representou um crescimento de 3,02% face a 2019. Este nível de rendimentos da atividade no setor é o segundo mais elevado em cinco anos. Só não supera os valores de 2016 (4,36 milhões). Contudo, o relatório nota uma quebra homóloga de 12,1% no EBITDA do setor em 2020.
O setor assistiu também a uma recuperação dos resultados líquidos das empresas. Em 2019, passaram de um prejuízo global de mais de 1,8 mil milhões, para um lucro global de 240,3 milhões. O valor acrescentado bruto do setor correspondia (2,8 mil milhões de euros), em 2020, a 1,42% do PIB, quando em 2019 tinha sido de 1,59%, segundo a Anacom.

jose.rodrigues@dinheirovivo.pt

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