Rafael Campos Pereira: "A sociedade quer descarbonizar, mas vai doer. Muita coisa ficará mais cara"

Confiante no potencial do setor que lidera, o gestor defende que se reindustrialize áreas "em que abdicámos da nossa soberania". Lamenta a impossibilidade de planeamento fiscal num país em que "os impostos mudam todos os anos", o que afasta investimento. E critica um PRR feito para "financiar a Administração Pública".

O líder da Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal faz o retrato dos desafios do setor.

Que impacto tem tido a subida de preços da energia no setor?
Há três questões muito importantes e transversais à indústria portuguesa e europeia em geral. Falamos da desindustrialização, que tem sido feita sem grande critério, dos processos de descarbonização da indústria sem alternativas e das medidas usadas por muitos governos europeus para combater a pandemia. Muitas vezes houve restrições que não eram as mais adequadas, confinamentos desajustados e dificuldades que agora nos fazem pagar um preço elevado. Agora, houve excesso de procura associado a uma dificuldade grande nas matérias-primas e na energia elétrica. Na eletricidade, estamos a assistir a aumentos de quatro ou cinco vezes em seis meses. Um exemplo: a AIMMAP faz compras anuais de energia em grupo e comprámos para um conjunto de empresas de um certo segmento energia a 55 euros o MW/h. Seis meses depois, o preço chegou a 280 euros no mercado livre. E isto não é exclusivo nosso, na Alemanha subiu dos 300 euros. As empresas do setor há muito têm vindo a fazer um esforço para aumentar a eficiência energética, mas sendo o setor relativamente heterogéneo a receita não é igual para todos, e há empresas onde estes aumentos têm um impacto enorme. E só não foi maior porque na maioria dos casos as empresas negociaram bem e ainda estão a beneficiar dos preços de abril, que vão manter até 2022. Se a instabilidade continuar, aí sim, poderá haver dificuldades muito maiores - mas já há empresas a pagar o triplo do que pagavam antes.

E há também o gás.
É o mesmo para o gás natural, os preços quintuplicaram em seis meses, de 20 para 100 euros. No caso da compra em grupo, o fornecedor que vendia às empresas do setor associadas nesta compra vendia a 20 euros/MW teve de sair do mercado e o melhor preço que se conseguiu foi de 50 euros. É até pecaminoso falar nisto sem cuidado e não digo que não se deve fazer o processo, mas a descarbonização europeia está a ser feita sem critério, sem alternativas. Estamos a criar uma economia refém de economias altamente carbonizadas, muitas vezes países pouco transparentes e pouco democráticos.

A Europa vive também uma crise no preço do combustível, que também afeta o setor.
Afeta e soma ao problema e tem que ver com o processo anticombustíveis fósseis: é popular ou não é tão impopular aumentar os custos dos combustíveis. Não é só o mercado a funcionar, as entidades reguladoras têm reconhecido que um grande componente destes preços é fiscal: em 12 meses houve 38 aumentos de impostos indiretos nos combustíveis. Hoje, grande parte das nossas exportações está a ser canalizada para geografias mais próximas - até porque o preço do transporte também disparou - e isso faz-se muito em transporte rodoviário. Não há alternativa - a ferrovia ainda não o é. E as empresas são obrigadas a enfrentar esses grandes aumentos de custos. Somando a combustíveis e energia, há as matérias-primas, no nosso caso (aço, alumínio, mas também zinco, cobre, estanho e outras ligas) com aumentos que oscilam entre 50% e 150% em 12 meses. Tudo isto associado a um processo inevitável de subida de salários, que tem acontecido. Mas mesmo com todas estas questões, a generalidade dos gestores destas empresas indicam a falta de mão-de-obra como o principal problema que enfrentam, a imensa dificuldade em contratar. Mas como dizia, os aumentos todos - matérias-primas, energia, combustíveis - têm obrigado as empresas a não acomodar a diferença sob pena de insuflarem e não aguentarem, e antes repercutir as subidas no preço dos produtos e equipamentos.

Ainda no tema dos combustíveis: as medidas públicas para apoiar as empresas de transportes são suficientes?
Não me parece. Há até grande dificuldade de chegar aos clientes dessas. Eventualmente poderão ajudar a que sobrevivam, mas quanto às consequências dos apoios no tecido industrial o efeito é residual.

E quanto é que o setor está a pagar pelas licenças europeias de emissão de carbono?
Não consigo fazer essa conta porque há muita diversidade no setor. Mas embora essa questão seja fundamental, quando dizia que estamos a ficar reféns de economias carbonizadas falo do abastecimento de energias, nomeadamente gás natural. Onde é que a Europa compra? No Norte de África, na Rússia, economias carbonizadas. E que não têm a mesma transparência na gestão destes problemas que o resto da Europa.

Devia haver mais cedências ou mais tempo neste processo de descarbonização europeu?
Não me atrevo a dizer que devíamos demorar mais, mas se mo pergunta assim, tenho de concordar. Repare, a Alemanha vai fechar as centrais nucleares a 31 de dezembro, mas vai continuar a comprar nuclear aos vizinhos, nomeadamente República Checa e França. Não é descarbonização, mas é uma questão paralela ligada à energia e ao que se entende por fontes aceitáveis. Eu não digo que não se deve descarbonizar, mas estamos a fazê-lo sem antes encontrar alternativas. Não há investimento suficiente em renováveis, que continuam a ser caras; os países do sul podiam ser grandes produtores dessas energias e não há investimento europeu suficiente. Que não haja dúvidas: a sociedade quer, e bem, descarbonizar. Mas vai doer, vai haver dificuldade no consumo, um conjunto de produtos que vamos querer comprar não vão existir no mercado, os serviços ficarão substancialmente mais caros, a aviação e o transporte marítimo vão ficar incomensuravelmente mais caros. É preciso ganhar eficiência, é preciso responder às questões climáticas, mas é preciso ter cuidado na forma como evoluímos, porque podemos estar a criar no imediato problemas graves às sociedades e às economias.

Os preços de matérias-primas e transportes estão também altos. Quando podem estabilizar?
É difícil prever. Eventualmente, pode melhorar nos primeiros meses de 2022 porque uma das razões de subida, por exemplo na questão do aço, foi a China ter deixado de produzir um tipo específico, muito carbonizado. Acontece que Pequim - às vezes há hipocrisia nas políticas globais - comprou recentemente 60 mil milhões de euros de carvão à Austrália, maior produtor mundial e player decisivo nas matérias-primas. Agora abasteceu a China, que não por acaso não foi à Cimeira de Glasgow - e está a recuar na descarbonização. Se Pequim infletir um pouco na produção de aço pode haver mais aço no mercado. Outra razão que pode ajudar a estabilizar preços tem que ver com a rapidez com que formos respondendo às encomendas, a este enorme aumento da procura. Por exemplo, no caso do setor português, as empresas nunca pararam em pandemia. E os números evidenciam que, depois de termos exportado mais de 19 mil milhões em 2019 conseguimos exportar 17,1 mil milhões em 2020. É evidente que se reduziu, mas foi um volume extraordinário. Porque não houve cancelamento, só adiamento de encomendas. Houve uma concentração grande de encomendas - adiadas e novas - e o aumento nos transportes marítimos levou a que compradores europeus de geografias mais próximas, que compravam no Oriente, passassem a comprar mais na Europa.

E o setor está a ser capaz de responder à procura?
Está, mas as empresas e os gestores dizem que precisariam de muito mais mão-de-obra. Falava nesta questão para responder à estabilização, porque hoje há também grande procura de matérias-primas pelas nossas empresas e estabilizando o mercado o impacto pode atenuar-se. E finalmente, as nossas matérias-primas também se tornaram commodities interessantes para os investidores, portanto já não concorremos só com empresas de fora, mas também com investidores. Por outro lado, a Europa continua a impor taxas de 25% sobre aço e alumínio, acima de determinadas quotas, protegendo a indústria siderúrgica europeia - o que é muito estranho porque essa indústria é residual face aos setores que fornece. E o capital das maiores siderúrgicas - Arcelor Mittal e Tata - nem é europeu.

Dada a dificuldade de encontrar mão-de-obra, o aumento do Salário Mínimo Nacional (SMN) não é um problema para o setor.
Não é, não pode ser e temos de pensar em aumentos em termos de futuro. Porém, desejarmos esses aumentos substanciais não significa que seja possível fazer tudo num dia. Estamos num processo em que o setor metalomecânico tem sido líder de modernização e crescente digitalização, o que não significa menos empregos mas substituição de postos de trabalho por outros de maior valor acrescentado. E isso só se consegue subindo salários. Recordo um episódio que se passou com um homólogo nosso, alemão, a quem perguntei quantos trabalhadores tinha a sua empresa, e que me respondeu "50... e mais 500 engenheiros". Isto é uma empresa de valor acrescentado. Não podemos fazer isto em dez anos, mas é preciso evoluir e a questão dos salários tem de ser acomodada. Mas também nos preocupa que esteja a ser feita a esta velocidade, porque o aumento significativo do SMN pode provocar erosão do salário médio. Há um achatamento da grelha salarial que cria desconforto e descontentamento nas empresas e enfrentá-lo obrigaria a aumentos muito substanciais que as empresas, particularmente nesta fase, não estão preparadas para acomodar. A questão do SMN não é nem tem sido problema no nosso setor, mas as suas repercussões no resto da grelha salarial inquietam-nos.

Somando todos estes fatores, teme que o setor venha a passar um mau bocado?
Tudo é possível, mas no imediato o que está a acontecer é que os nossos concorrentes para zonas mais próximas estão a ter os mesmos problemas que nós - aumentos na energia, matérias-primas, salariais -, portanto concorremos bem com eles. E outros que poderiam concorrer com preços mais baixos têm hoje dificuldade em colocar aqui produtos dado o aumento brutal do preço dos transportes marítimos. Em muitos setores, isso é um amortecedor. Claro que tem o efeito contrário quando queremos diversificar exportações - o que estávamos a fazer em 2019 e com ainda mais sucesso em 2020, com o setor a crescer mais de 20% nas vendas para fora da Europa em ano de pandemia. A subida nos custos do transporte marítimo que nos protege da concorrência de longe também impede maior crescimento nosso para geografias distantes.

Esse crescimento nas exportações portuguesas de metalurgia (+21,4% até setembro) é sinal de que o setor está a afirmar-se cada vez mais lá fora?
Sem dúvida. Portugal é o país com representação mais forte na feira mais importante de peças técnicas da Europa, subcontratação industrial - que aqui não é pejorativo, é muito valor acrescentado para as principais marcas automóvel, indústria química, aeroespacial, setores de ponta em que somos capazes de fazer serviços e peças técnicas. A Midest em França é a maior feira e nós temos a maior delegação lá. Também numa cidade pouco conhecida fora da Escandinávia há uma feira de enorme relevância para os nórdicos onde temos estado e duplicámos exportações desde que a AIMMAP promove stands coletivos ali. Estamos a afirmar-nos e não por acaso somos o país parceiro na Hannover Messe 2022, a maior feira de indústria e tecnologia do mundo. É um enorme sucesso e que vem do trabalho da diplomacia portuguesa - AICEP, Ministério da Economia, Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemã -, mas com a AIMMAP a promover a presença das empresas. A expectativa era ultrapassar largamente as 100 empresas inscritas e já o temos, em domínios como a energia, o digital e as peças técnicas. Grande parte disto é setor metalúrgico e metalomecânico. E tem que ver com a afirmação das nossas empresas.

Quer dizer que o setor tem margem para crescer ainda mais?
Sim, e nomeadamente na Alemanha. Os principais clientes desta indústria são hoje grandes empresas alemãs: do automóvel, a Bosch, a Siemens. As maiores alemãs compram habitualmente a este universo de empresas. A ideia de levar estas empresas à Hannover Messe é que outras de menor dimensão que não conhecem tão bem a capacidade da oferta portuguesa também passem a comprar - e isso dá uma margem de crescimento enorme, até porque este setor tem uma relação muito forte com a Alemanha, temos cá instaladas muitas empresas alemãs, mas ainda há outras de grande dimensão na Alemanha (para os nossos critérios, lá são médias empresas) que não nos conhecem tão bem e a Hannover Messe é uma oportunidade extraordinária. Porque quando se consegue ser tão competitivo em mercados como Alemanha, Suécia, França, consegue-se vender para toda a parte.

O regime fiscal português é atrativo para investimentos no setor metalúrgico?
O edifício fiscal português não é nem pode ser atrativo como está. Estão a ser feitos investimentos graças a esforços muito grandes de agentes que vão de agências a governantes, entidades de formação, representantes da indústria... Mas um edifício fiscal em que não há previsibilidade, não há flexibilidade nem transparência, mas opacidade, não é um sistema fiscal atrativo. Temos excesso de tributações autónomas. Os empresários portugueses - mas também investidores - não conseguem fazer planeamento fiscal porque não sabem o que vão pagar, porque todos os anos os impostos mudam, nomeadamente na questão das tributações autónomas, questão em que a AIMMAP e a CIP têm intervindo muito. Não é atrativo ou estimulante: no início do ano nunca sabemos o que vamos pagar de impostos.

O país já discutiu muitas vezes a reindustrialização. O setor metalomecânico é um dos que mostram que o país tem indústria, mas é uma exceção? Portugal tem necessidade e capacidade de ter mais indústria?
Tem capacidade, sim e a pandemia mostrou-nos que devemos ter autonomia estratégica e centros de produção mais próximos. Temos de reindustrializar uma série de setores, nomeadamente aqueles em que abdicámos da nossa soberania. Quando vemos a questão da saúde e sabemos que há categorias de produtos que são todos importados do Oriente, é uma questão de soberania. Também nos semicondutores, que nos afetam muito devido à indústria automóvel. Portugal tem condições de ter mais indústria, de apostar crescentemente em indústria com valor acrescentado. Mas é preciso que a Europa resolva uma série de questões. Reindustrialização não é uma palavra mágica, não resulta sem ferramentas indispensáveis ou alicerces que nos defendam.

Pode o PRR ter aqui um papel ou estamos, como disse há dias, mesmo em risco de ser uma Europa 100% verde e 100% falida?
Os números são públicos e em Portugal há excessivo pendor do PRR em desorçamentação, em afetação de verbas que deviam ser para investir em indústria, tecnologia e economia e que estão a servir para financiar o Orçamento, para despesas na Administração Pública. As verbas encaminhadas para apoiar a economia são muito menos significativas do que as usadas para o OE.

Ainda assim, há partes desse esforço que implicam obras que precisam das empresas.
É verdade que a certas infraestruturas previstas as empresas podem recorrer, que as empresas beneficiam de algumas delas até em processos de construção, mas estas políticas de betão - e não só - se calhar não são as mais relevantes no momento. Precisaríamos de mais investimento em tecnologia e formação para vencer o tal campeonato do valor acrescentado. Olhar para a formação não como forma de financiamento da máquina do Ministério da Educação, mas olhar para essas verbas e termos políticas de formação que respondam às necessidades das empresas do futuro. Não tenhamos dúvidas: as novas gerações não vão querer trabalhar na produção, não é apelativo. Hoje temos três caminhos complementares. O primeiro é mais robotização para substituir postos de trabalho e tornar os restantes mais apelativos para novas gerações - o que a prazo irá contribuir para diluir fronteiras entre trabalho manual e intelectual, logo também gera uma sociedade menos desigual, com menos preconceito. Por isso é tão importante investir na digitalização e na robotização. Segundo, no médio prazo temos de importar recursos humanos, conquistar pessoas, até porque temos um problema demográfico e no campeonato do valor acrescentado vai ser óbvio, para engenheiros etc. E por último é evidente a questão dos salários, terá de haver um ajustamento para conseguirmos ter sucesso.

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