Portugal foi avisado para não repetir erros. E repetiu

Ex-FMI já tinha avisado que Portugal fez no BES o mesmo erro que a Irlanda no Anglo Irish: poupou obrigacionistas seniores

O aviso foi feito logo após a resolução do Banco Espírito Santo: "Portugal está a seguir as pisadas da Irlanda." A comparação com o caso irlandês, que em 99% dos casos seria um elogio, era um aviso à navegação. No caso BES, Portugal preparava-se para cometer o erro que a Irlanda cometeu no Anglo Irish Bank. Quase um ano e meio depois do aviso, o tiro é corrigido.

Ontem soube-se que as necessidades de capital do Novo Banco deverão ser suprimidas pela transferência de obrigações seniores, detidas por institucionais, para o mau BES. Estas obrigações tinham sido inicialmente colocadas no Novo Banco.

Para Eduardo Silva, gestor da XTB, esta é solução "não é surpreendente", chamando a atenção para os alertas feitos sobre o BES: "Já em agosto [de 2014] vários economistas, como Ashoka Mody, alertavam para as semelhanças com a Irlanda no Anglo Irish", referiu ao DN/Dinheiro Vivo. "Já nessa altura defendiam que os obrigacionistas seniores deviam ter participado na resolução."

O analista refere-se aos alertas de agosto de 2014 feitos por Ashoka Mody, ex-responsável do FMI e um dos envolvidos no desenho do resgate à Irlanda. Mody identificou logo um problema na solução encontrada para o BES e pouco depois já o denunciava: "É um erro não impor perdas substanciais aos detentores de títulos seniores. Nos Estados Unidos, estes sofrem perdas. Por que razão é diferente na Europa?", questionava na altura. "Portugal é um país ainda com problemas em ter a economia de novo a crescer. Por que razão um país como este, já a braços com uma dívida significativa, tem de assumir ainda mais dívida?", disse ainda Mody. E explicou: "O Anglo Irish devia ter sido fechado no início do programa. Haveria menos austeridade orçamental e a Irlanda teria uma dívida mais baixa e um crescimento mais acelerado."

A imposição de perdas aos títulos seniores do Novo Banco virá através da sua passagem para o BES, instituição cuja probabilidade de saldar estas obrigações é quase nula. Os donos destes títulos vão assim viver o que já acontece com os obrigacionistas subordinados, investidores como os lesados do BES. "A medida que ganha mais força neste momento passa por um resgate "dentro de portas", a resolução recai apenas sobre instituições detentoras de dívida sénior e deixaria de fora os particulares", explicou Eduardo Silva sobre as hipóteses noticiadas para o Novo Banco. "Depois dos obrigacionistas subordinados terem assumido os custos, uma nova resolução visa os obrigacionistas seniores."

Mas serão estes títulos suficientes para resolver a capitalização do Nono Banco? "Será suficiente"... por agora. "Medidas adicionais ficam sempre dependentes dos de-senvolvimentos na venda do banco e injeções de capital, assim como dos resultados em 2016", explica. Já sobre se foi errado passar estes títulos para o Novo Banco, o gestor da XTB considera que é "relativo inferir que foi um erro", já que na altura não se tinha "conhecimento de todas as variáveis". A descapitalização, os prejuízos e o fracasso na venda, diz, tornaram "natural imputar custos aos obrigacionistas seniores" mas, "em agosto de 2014, o cenário era diferente. Se o banco tivesse sido vendido, tudo podia ter sido diferente".

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