Paragem das fábricas em março e abril pode tirar até 20% à produção automóvel

PSA Mangualde vai interromper a laboração a partir de amanhã, por dez dias. Autoeuropa reduziu produção diária em mais de cem unidades. "Crise na indústria automóvel é inevitável", diz economista.

A paragem das fábricas de automóveis por causa do novo coronavírus poderá ter um impacto de até 20% na produção para este ano. Esta é a primeira previsão dos economistas contactados pelo DN/Dinheiro Vivo, horas depois de a unidade do grupo Peugeot-Citroën (PSA) em Mangualde ter anunciado a suspensão da linha de montagem a partir de amanhã e por um período de dez dias.

"A indústria automóvel tem um peso relevante para a economia portuguesa, pelo que o impacto é muito intenso", assinala o economista Augusto Mateus. "Os meses de março e abril serão de redução drástica na produção e representam até 20% da atividade económica em Portugal. A mesma percentagem aplica-se à produção automóvel. Estamos à porta de um choque sem precedentes."

O tiro de partida para este choque económico foi dado ontem pela Autoeuropa, a maior fábrica de automóveis em Portugal. A unidade de Palmela do grupo Volkswagen suspendeu a produção do dia porque centenas dos 5800 trabalhadores tiveram de ficar em casa a tomar conta dos filhos, na sequência da suspensão das aulas.

Nos dias seguintes, a produção diária em Palmela vai diminuir em mais de cem unidades, de 890 para 744 carros, para "ajustar a fábrica às condições exigidas pelas autoridades nacionais".

Horas mais tarde, a PSA Mangualde comunicou a suspensão da montagem de automóveis a partir de amanhã, até 27 de março. Esta medida foi decretada para todas as fábricas europeias do grupo francês liderado por Carlos Tavares.

A travagem na produção das duas maiores fábricas automóveis nacionais é sinal de que "a crise na indústria automóvel é inevitável" e terá um impacto "dividido entre o primeiro e o segundo trimestres deste ano, ambos com crescimento negativo", antevê Pedro Brinca, professor de Macroeconomia da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa (Nova SBE).

Nas restantes fábricas de automóveis em Portugal, não está prevista, para já, a alteração dos níveis de produção, conforme o DN/Dinheiro Vivo apurou junto da fábrica de minicamiões da Mitsubishi Fuso, no Tramagal, e da fábrica de autocarros da CaetanoBus, em Vila Nova de Gaia.

Montanha-russa

A Associação Automóvel de Portugal (ACAP) considera que os efeitos do covid-19 na indústria automóvel são comparáveis a uma "terceira guerra mundial. Em 2009, tivemos uma crise profunda e difícil, houve uma redução de procura, mas não houve esta situação de encerrar as fábricas", recorda Hélder Pedro.

O secretário-geral da ACAP detalha que o impacto da suspensão na produção afeta toda a linha de produção. "A montante temos os fornecedores de componentes, que são muitas vezes pequenas empresas que vão deixar de fornecer, e a jusante os distribuidores, que deixam de ter veículos para distribuir, tudo isto associado à crise de confiança económica é muito problemático", detalha o dirigente, citado pela Lusa.

Augusto Mateus espera que, como numa montanha-russa, seja possível "recuperar rapidamente" das consequências da paragem da produção e permitir a Portugal manter-se na primeira liga dos produtores de automóveis, superando, pelo segundo ano consecutivo, a fasquia das 300 mil unidades. No ano passado, foram montados 345 688 automóveis.

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