Pandemia apaga sete mil milhões em receita turística até agosto

O turismo está entre os setores que estão a pagar mais caro a pandemia. Se no ano passado a visita de estrangeiros fez elevar as receitas para mais de 18 mil milhões de euros, os oito primeiros meses deste ano mostram já uma queda superior a 50%.

Os números do INE já tinham confirmado o cenário negro traçado pelo setor: uma quebra significativa no número de hóspedes e dormidas até agosto de 2020. Agora, os dados do Banco de Portugal mostram quanto é que os turistas estrangeiros deixaram no território - e quanto ficou por ganhar em relação ao ano passado. As receitas turísticas de janeiro a agosto ascenderam a 5,6 mil milhões de euros, o que representa menos 56% face ao mesmo período de 2019, altura em que as receitas estavam próximas dos 12,8 mil milhões de euros.

A diferença é brutal: são 7,1 mil milhões de euros gastos a menos em Portugal, devido à pandemia de covid-19, que levou à implementação de medidas para travar o contágio da doença e que limitaram a circulação de pessoas. A somar a isto, a perda de poder de compra das famílias, bem como os receios quanto ao futuro, dadas as incertezas sobre a evolução da covid e a crise económica que se instalou, levaram muitos, sobretudo na Europa, nos EUA e no Brasil - principais mercados emissores de turistas para Portugal - a não viajar para o estrangeiro ou a fazê-lo de uma forma muito mais cautelosa e despendendo uma fração do que gastariam noutros tempos.

E mesmo que, no acumulado deste ano, agosto tenha sido um mês melhor, com os gastos dos turistas estrangeiros a aproximarem-se dos 1,5 mil milhões de euros, a verdade é que este valor está muitíssimo abaixo dos mais de três mil milhões de euros gerados no período homólogo do ano passado.

O peso dos turistas não residentes para atividade em Portugal é grande. Para se ter uma ideia, no ano passado o turismo interno representou cerca de um terço do total. É o mesmo que dizer que dos mais de 27 milhões de hóspedes que ficaram nas unidades de alojamento turístico nacionais, mais de 16,4 milhões não residiam em Portugal. As receitas turísticas ascenderam assim em 2019 a 18,4 mil milhões de euros, um montante que o governo já tinha admitido que não seria possível atingir neste ano.

No início de outubro, Rita Marques, secretária de Estado do Turismo, tinha já indicado que o governo estimava que as receitas turísticas deveriam neste ano ficar entre 50% e 60% abaixo dos valores de 2019, o que se traduz em valores na casa dos oito a nove mil milhões de euros.

Uma lenta recuperação

Se a atividade turística em 2020 arrancou forte, com os meses de janeiro e fevereiro a conquistarem ainda mais hóspedes e dormidas do que os recordes conseguidos no período homólogo de 2019, os efeitos da pandemia, que começaram a sentir-se logo no final desse trimestre, estragaram o bolo. Março foi um mês misto, com a atividade a decorrer com normalidade durante a primeira quinzena, mas travando depois a fundo (recorde-se que o estado de emergência foi decretado a 19 de março). E abril e maio foram meses de praticamente total inatividade.

Junho ficou marcado por alguns passos na direção da retoma, nomeadamente com a reabertura de unidades de alojamento que haviam estado encerradas durante as semanas anteriores, e julho já mostrou alguns sinais mais animadores que se estenderam a agosto. Com a escalada dos números da covid, o encerramento do corredor aéreo com o Reino Unido e o endurecimento das medidas de contenção, o resto do ano, porém, está condenado.

Contas feitas, o saldo até agosto foi de 7,3 milhões de hóspedes nas unidades de alojamento, dos quais apenas 2,9 milhões eram não residentes. Ou seja, face aos primeiros oito meses do ano passado, o setor contou com menos 8,1 milhões de estrangeiros (-73,6%), o que acaba também por se traduzir numa quebra das receitas turísticas, como indicam os dados do banco central.

Falta ainda conhecer dados relativos aos últimos quatro meses deste ano - embora a NAV já tenha revelado os dados de setembro, que mostram uma quebra significativa dos voos geridos pela empresa de navegação aérea face a agosto. Mas não se perspetivam melhoras, dada a evolução da pandemia em Portugal como nos restantes países europeus - as viagens transatlânticas continuam a ser meramente residuais.

Ana Laranjeiro é jornalista do Dinheiro Vivo

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