Os bancos não estão preparados para financiar a transição energética

A banca ainda receia as renováveis. Mas pode ser uma oportunidade. João Galamba diz que Governo "irá aguardar uns dias" antes de agir sobre os preços dos combustíveis.

Sem investimento não há transição energética. Essa é uma condição essencial, mas os bancos não estão preparados para financiar a mudança de paradigma. A certeza vem de Pierre Rosseau, conselheiro estratégico para os negócios sustentáveis do BNP Paribas, que reconheceu o receio dos investidores em planear a médio e longo prazo e arriscar em terrenos ainda desconhecidos.

Transição Energética - Construindo a Ponte do Investimento: quem paga e como? foi o ponto de partida para o segundo debate desta tarde com Pierre Rosseau a alertar para a necessidade de a Europa dar o exemplo, criando "investimento catalisador" a servir de incentivo a outros investidores. Até porque, boa parte dos receios não têm grande fundamento, considerando que os projetos ligados às energias renováveis "pagam-se a si próprios em três, quatro anos", defende João Galamba, secretário de Estado adjunto e da Energia.

Cumprir as metas climáticas implica um esforço não somente dos privados, mas também do setor público, avisa, por seu turno Ana Paula Marques, administradora executiva da EDP: "Se os governos têm de facilitar e apoiar a transição, os privados terão de estabelecer metas ambiciosas e cumprir os objetivos." Trata-se, no fundo, de um "esforço de todas as partes" a trabalhar como um "ecossistema", alerta a responsável, relembrando o logo caminho que ainda há pela frente e que irá obrigar a todos os intervenientes a serem mais rápidos e a cooperarem para apressar a transição das energias renováveis.

A eficiência é um ganho que precisa também entrar no setor da mobilidade com cada empresa a reconhecer o seu papel para acelerar a transição e o setor público a definir as políticas e os incentivos mais adequados, defende Manuel Melo Ramos, CEO da Brisa Concessão Rodoviária e administrador da Brisa. "Enquanto disponibilizadores de energia limpa, temos objetivos muito específicos nos consumos e nas operações", conta o responsável, recordando a meta de o Grupo produzir menos 60% de gases com efeito de estufa até 2030.

E em que é que isso se traduz para uma empresa como a Brisa? Desde logo eletrificar a sua frota de ligeiros e de pesados, mas também mudar as cerca de 13 mil lâmpadas das autoestradas até ao fim de 2022 e criar, em parceria com os principais players, uma rede de carregamento com postos rápidos e ultrarrápidos que continuará a expandir-se nos próximos anos.

O hidrogénio não pode ficar de fora desta equação. Mais do que uma obrigação perante os desafios climáticos, esta nova fonte de energia "é sobretudo uma oportunidade", defende a administradora executiva da EDP, insistindo na "combinação de esforços entre público e privado" para abrir o caminho.

E essa é aliás a estratégia pensada para quando o hidrogénio chegar finalmente aos mercados globais, conta João Galamba, sublinhando a disponibilidade do governo em apoiar, por exemplo, a instalação de postos de abastecimento na rede de autoestradas da Brisa: "Sabemos que a colaboração entre o Estado e o setor empresarial é decisiva nas fases de arranque e, como tal, estamos a preparar esse caminho." Do outro lado, Manuel Melo Ramos assegura também "estar na linha da frente" para, quando chegar o momento, fornecer hidrogénio aos condutores que atravessarem as autoestradas geridas pela Brisa.

Com a escalada dos preços do combustível na ordem do dia, o secretário de Estado adjunto da Energia fez ainda questão de dizer que a sua expectativa é que as anomalias sejam "passageiras" e que o governo irá aguardar "alguns dias" antes de decidir agir, prometeu João Galamba, dizendo que, por agora, não poderá adiantar mais nada sobre a matéria. Recorde-se que o Presidente da República promulgou esta quarta-feira a lei da iniciativa do governo que permite intervir nas margens da cadeia de combustíveis, avisando, porém, que a medida é meramente "paliativa e insuficiente".

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