O petróleo do mar do Norte: a desativação de 38 mil milhões de euros

Pela primeira vez, a indústria britânica de petróleo e gás offshore está a tamponar e abandonar mais poços do que aqueles que explora. A produção caiu já dois terços desde o seu auge de há 16 anos, de cerca de 4,5 milhões de barris de petróleo equivalente por dia

No próximo ano, o Pioneering Spirit ("espírito pioneiro"), um catamarã com o comprimento de cinco aviões Jumbo, vai aproximar-se da plataforma de petróleo Brent Delta da Royal Dutch Shell no mar do Norte, 115 milhas a nordeste das ilhas Shetland.

Os cascos do catamarã irão manobrar de ambos os lados das pernas da plataforma e ele ficará preso a esta com 16 vigas especialmente reforçadas. Então, num único movimento, irá arrancar as 24 000 toneladas da "parte de cima" da plataforma - bloco de alojamento, heliporto, torre de perfuração e tudo o resto - das suas pernas, antes de a levar de volta à costa para ser desmantelada.

Ao fazê-lo, o navio irá levar a cabo o levantamento mais pesado já alguma vez tentado no mar do Norte. Mais importante, será também o início daquilo que se espera vir a ser uma onda de desmantelamento por todo o mar do Norte, com as empresas de petróleo, que se debatem com preços baixos, a encerrar a produção e a desistir de uma das indústrias mais bem-sucedidas dos últimos 50 anos no Reino Unido.

A partir de agora e até meados da década de 2050, cerca de 470 plataformas, 5000 poços, 10 000 km de oleodutos e 40 000 blocos de betão terão de ser removidos do mar do Norte.

A desativação ocorre regularmente noutras bacias maduras, como o golfo do México, mas nunca na indústria do petróleo terá acontecido uma tão grande limpeza em tão pouco tempo.

As pessoas que passaram toda a vida nesta indústria estão a passar por aquilo a que alguns chamam "processo de luto".

Mal Hunter, que trabalha na plataforma Kittiwake, a leste de Aberdeen, diz: "Ouvimos falar do encerramento de plataformas, para nunca mais voltarem a produzir e as pessoas ficam desanimadas. Mas o desmantelamento proporciona a continuação do emprego, assim aqueles que permanecem no trabalho estão bastantes felizes."

Muitos no Norte da Escócia esperam que o desmantelamento possa representar uma tábua de salvação para a economia local, que tem sido atingida pelo colapso dos preços do petróleo desde meados de 2014. Pode até transformar a área num centro de excelência de onde o conhecimento e a tecnologia possam ser exportados para todo o mundo, dizem os apoiantes. Mas, se correr mal, os custos vão aumentar, peças vitais de infraestrutura podem ser abandonadas com o petróleo deixado no fundo do mar, e os contribuintes do Reino Unido poderão ser responsáveis por dezenas de milhares de milhões de libras.

"O desmantelamento é uma pílula agridoce", diz Matt Betts, vice--presidente da Halliburton no Reino Unido, a maior empresa de serviços de petróleo do mundo. "Ninguém quer ter de fechar as plataformas, mas é inevitável que isso vá acontecer."

Pela primeira vez, a indústria britânica de petróleo e gás offshore está a tamponar e abandonar mais poços do que aqueles que explora. A produção, que caiu dois terços desde o seu auge de há 16 anos, de 4,5 milhões de barris de óleo equivalente por dia, vai parar em mais campos do que aqueles que estão a começar.

"O desmantelamento já aconteceu antes", acrescenta o Sr. Betts. "Mas nunca vimos nada na escala do que está prestes a acontecer no mar do Norte."

A indústria sempre soube que teria de encerrar plataformas envelhecidas, mas o processo foi acelerado pelo preço do petróleo, que caiu de 115 dólares no verão de 2014 para cerca de 50 dólares. Isto deixou metade dos operadores no mar do Norte - o lugar mais caro do mundo para a prospeção de petróleo - a operar com prejuízo, de acordo com dados da Company Watch, que monitoriza o risco financeiro das empresas.

Estas empresas enfrentam uma decisão difícil: deverão continuar a produzir petróleo e gás com prejuízo, na esperança de recuperar o dinheiro se e quando o preço subir, ou desistir totalmente, incorrendo em milhões de libras de custos de desmantelamento no processo? É proibitivamente caro voltar e recomeçar a perfurar depois de um poço ter sido abandonado, portanto qualquer decisão de saída é definitiva.

Quando uma empresa decide abandonar uma instalação, o trabalho duro começa. Primeiro, é necessário tornar o reservatório seguro, um processo que envolve a remoção de toneladas de aço do poço e a selagem deste, para garantir que não há fugas de petróleo ou de gás. Só então a empresa pode pensar sobre como remover as estruturas que ficam acima do poço, o processo que a Shell está prestes a levar a cabo na Brent Delta.

As empresas calculam que tapar e abandonar um poço complexo do mar do Norte vá custar uma média de 13 milhões de euros. A remoção das estruturas físicas pode ser muito mais cara. Na Brent Delta vai custar vários milhares de milhões de euros, de acordo com a Shell, e levar vários anos a centenas de trabalhadores para ser concluída.

Oil and Gas UK, o organismo da indústria, calcula que remover cerca de 80 plataformas e as infraestruturas associadas vá custar cerca de 22 mil milhões de euros ao longo dos próximos dez anos. O custo estimado para concluir todo o trabalho até 2050 varia entre 38 mil milhões e 76 mil milhões de euros, um número que tem vindo a aumentar conforme a dimensão da tarefa se tornou evidente.

"Continuamos a dizer que os gastos do desmantelamento vão ser cada vez mais altos", disse recentemente Davi Quintiere, um gestor de topo da consultora Accenture, numa conferência em Aberdeen. "As nossas previsões são terríveis e vão continuar a ser."

Parte do problema é que são poucas as empresas que o têm tentado, especialmente em condições como as do mar do Norte, onde as ondas podem alcançar os 40 metros de altura. "É difícil desmantelar uma plataforma", diz Betts. "É muito difícil fazê-lo em águas tão profundas e agitadas como as do mar do Norte."

A Shell devia remover a parte de cima da Brent Delta - que se eleva 160 metros acima do nível do mar - neste ano. Mas as dificuldades na construção das vigas reforçadas originaram um atraso, mostrando que a indústria do desmantelamento permanece na infância.

Outro travão no processo é o facto de as empresas não obterem nenhum retorno financeiro do desmantelamento de uma plataforma e muitas estarem hesitantes em tomar a decisão. Os operadores são obrigados por lei a desmantelar plataformas em determinado momento, mas, com a queda do preço do petróleo a exercer pressão nos balanços, muitos estão a adiar por tanto tempo quanto possível.

"O problema é que muitas empresas estão a tentar desmantelar usando a mesma tecnologia cara que usaram para perfurar os poços em primeiro lugar", diz Duncan Anderson, presidente executivo da Gulf Marine Services, uma empresa de serviços de petróleo.

Os operadores estão a estudar formas de reduzir os custos. Alguns estão a investigar maneiras de derreter o aço no poço, em vez de o remover. Outros estão a projetar lasers que possam ser controlados remotamente e cortar o metal.

Alguns estão a trabalhar em câmaras que possam ser descidas pelos oleodutos para verificar a integridade de poços fechados. Veolia, a empresa francesa de gestão de resíduos, que espera ganhar cerca de 150 milhões de euros nos trabalhos de desmantelamento do mar do Norte até 2018, comprou recentemente uma empresa que fabrica robôs de controlo remoto que conseguem desapertar pequenos pedaços de metal a uma distância segura.

"Não há nenhuma razão para que não possamos usar essa tecnologia offshore", diz Pat Gilroy, diretor de operações da Veolia para os clientes industriais.

A esperança da indústria é que a experiência adquirida no mar do Norte seja exportável para outras partes do mundo, da Noruega à África ou à Ásia. Em muitos desses lugares o petróleo ainda é comercialmente extraível mas é expectável que o desmantelamento acelere à medida que os países avancem para indústrias renováveis.

Mark McAllister, presidente da Decommissioning Company, uma empresa de consultoria, diz: "Até à data, a atividade de desmantelamento noutras partes do mundo [especialmente no golfo do México] tem sido de plataformas muito pequenas. Houve pouca ou nenhuma atividade em qualquer outro lugar que seja semelhante às grandes plataformas do Reino Unido e da Noruega."

O governo do Reino Unido está empenhado em aproveitar a oportunidade e prometeu 318 milhões de euros para Aberdeen, em parte para expandir o seu porto e prepará-lo para o trabalho de desmantelamento, que também será feito por outras vilas e cidades na costa leste do Reino Unido.

No entanto, na indústria há quem tema que esta inovação tecnológica corra o risco de repetir os erros cometidos durante os anos de expansão, quando a especialização crescente tornou os custos no mar do Norte mais elevados do que em qualquer outro lugar do mundo.

"Existe o perigo de que se tente fazer coisas muito, muito extravagantes que não tragam qualquer valor acrescentado", diz McGregor. "Precisamos de pensar nisto não como um grande projeto de construção, mas como uma demolição."

Os custos crescentes não são apenas um problema para a indústria. Segundo as regras do Reino Unido, o contribuinte irá pagar metade da conta total do desmantelamento através de bonificações fiscais, o que está a deixar os ministros ansiosos em relação aos custos que acabarão por ser convidados a cobrir.

Se atingir o topo da atual escala de estimativas, o desmantelamento pode acabar por custar 1270 euros a cada contribuinte britânico, ao longo das próximas décadas - tanto quanto o controverso plano para renovar a frota de submarinos nucleares Trident da Grã-Bretanha.

"A pergunta mais frequente que recebo do Ministério das Finanças é sobre quanto isto vai custar", diz Jim Christie, chefe do desmantelamento da Autoridade do Petróleo e do Gás. "A variação é enorme e parece mudar todos os dias. Eu recuso-me a concretizar o valor que vamos despender no desmantelamento."

No golfo do México, onde o desmantelamento tem vindo a ocorrer, embora a um ritmo muito mais lento do que o esperado para o mar do Norte, os operadores executam um programa de "plataformas para os recifes". Isso significa que eles podem deixar grande parte das plataformas no fundo do mar para se tornarem habitats para a vida marinha, um método que está tecnicamente excluído sob as regras internacionais que cobrem o Atlântico Norte.

Mas é possível garantir uma isenção dessas regras, como é provável que a Shell faça com o sistema Brent. Fontes próximas da empresa dizem que esta se candidatará a deixar para trás três estruturas submarinas de betão, cada uma delas do tamanho do Empire State Building.

Os especialistas em desmantelamento estão a encorajar mais empresas a candidatarem-se a essas isenções, e a instar os reguladores e os governos a serem flexíveis na concessão. Eles argumentam que, sem essa medida, é provável que os custos de desmantelamento vão aumentar.

Se for tentada em larga escala é provável que a medida vá incorrer na ira dos ambientalistas, que temem que as empresas estejam a tentar fugir às suas responsabilidades. A plataforma Brent C da Shell, que pesa 36 000 toneladas, excluindo a sua cobertura de betão submersa, é apenas a quarta mais pesada na zona e Wood Mackenzie presume que os produtores vão solicitar e receber isenções para várias outras grandes plataformas.

Doug Parr, cientista-chefe da Greenpeace, a associação ambientalista, diz que, apesar de isenções às regras internacionais serem por vezes justificadas, não deve haver nenhuma autorização generalizada para as empresas deixarem estruturas no mar. "Toda a gente tem de se livrar dos seus resíduos, por que motivo os gigantes do petróleo do mar do Norte haveriam de ser diferentes? A perceção deve ser a de que os equipamentos abandonados devem ser trazidos para terra, da mesma forma que seria de esperar que qualquer indústria do mundo não deixasse os seus resíduos por limpar", diz ele.

Existe a preocupação na indústria sobre o que vai acontecer com as peças comuns de equipamentos - dos oleodutos aos terminais de gás -, caso saia uma ou mais das empresas que as financiaram conjuntamente.

"Se isso não for planeado de forma adequada, pode haver um efeito dominó, onde de repente nos vejamos a braços com redes inteiras a terem de encerrar imediatamente", adverte o Sr. McGregor. Por agora, muitas das maiores operadoras esperam que os aumentos do preço do petróleo lhes vá permitir adiar a caríssima tarefa de ter de encerrar as suas plataformas e os seus oleodutos. Quando se calcula que dois terços dos hidrocarbonetos disponíveis sob o mar do Norte já tenham sido extraídos, isso limita-se a ser uma suspensão da execução.

"Isto é algo sobre o que nem a indústria nem o governo estão ainda totalmente concentrados", diz Brian Twomey, diretor-geral da Reverse Engineering Services, especialista em desmantelamentos. "A indústria tem subestimado grosseiramente o verdadeiro custo do desmantelamento e os contribuintes vão ter de pagar."

( C ) The Financial Times Limited 2016

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