Nuno Carvalho: "Peles portuguesas estão ao nível das italianas"

Presidente da Associação Portuguesa dos Industriais da Cortiça (APIC) explica como o setor tradicional se transformou com inovação e hoje quase não tem desperdício.

De que forma a indústria dos curtumes evoluiu para fazer face às exigências ambientais, nomeadamente no que respeita a processos e uso de químicos?
Em Portugal e no mundo, a evolução tem existido, pese embora os avanços mais acentuados se verifiquem na Europa que continua a ser o continente mais avançado e líder na produção de peles acabadas de qualidade.
As restantes áreas mundiais tem vindo a ser crescentemente pressionadas pelos governos para realizarem investimentos ambientais, nomeadamente na Índia e na China onde os governos tomaram medidas bastantes severas, incluindo o encerramento temporário de unidades industriais ate que estas realizassem investimentos na área ambiental que assegurassem o cumprimento das normas. Neste sentido, as imagens de poluição associadas a indústria de curtumes que, pontualmente apareciam nos meios de comunicação social terão uma tendência a ser cada vez menos frequentes ou ate mesmo a desaparecer e já não representam de forma alguma o mainstream da indústria.
No caso português, a indústria de curtumes nacional foi pioneira quando no final da década de 70 e inicio da década de 80 do século passado foi a primeira a aplicar o principio do pagador, constituindo em conjunto com o Estado Português e com o Município de Alcanena, o Sistema de Alcanena que inclui uma ETAR e rede de coletores de esgotos industriais, uma unidade de reciclagem de crómio e os aterros de lamas e de resíduos sólidos. Sendo uma industria recicladora, que valoriza um resíduo da industria das carnes, a industria de curtumes já aplica os princípios da economia circular há bastante tempo e contribui para eliminação de um problema ambiental que surgiria do facto de toda a humanidade ter de depor milhões de peles de animais que são abatidos para consumo humano da carne.
A indústria de curtumes tem vindo consecutivamente a aplicar processos inovadores de redução de consumo de agua no fabrico, ao nível da utilização de produtos químicos, procedeu a quase total eliminação de utilização de solventes, apenas para mencionar alguns exemplos. A circularidade de processos tem vindo a ser reforçada, existindo atualmente um quase total aproveitamento de todos os resíduos, muitos deles já alteraram a sua classificação de resíduo para subproduto, e a indústria está constantemente atenta ao potencial de valorização em cada fase e operação do processo produtivo.

Têm sentido o efeito do crescimento dos movimentos animalistas?

Existem um conjunto de tendências transversais na sociedade contemporânea que demonstram uma maior preocupação com a sustentabilidade e com o ambiente. Nestas tendências, o estilo de vida vegan é possivelmente um dos que mais se destaca com mais adeptos e estando as marcas atentas a estes potenciais clientes, também desenvolvem cada vez mais produtos para este segmento.
Neste contexto, e tendo em conta que um vegan não consome produtos de origem animal, o couro torna-se um "alvo a abater" com base na premissa altamente errónea e enganadora de que para se obterem peles para calçado, malas, vestuário, estofos de automóveis, etc, se matam animais. Esta é uma falácia tremenda, dado que se matam animais para se consumir a sua carne, da mesma forma que o homem primitivo sempre o fez desde há milhares de anos, limitando-se a indústria de curtumes a valorizar um resíduo da indústria das carnes que teria de ser deposto com um resíduo não fosse a intervenção da indústria de curtumes. Um facto curioso acerca do veganismo é que apesar de ser contra a indústria de curtumes e contra o couro, porque considera, como vimos erradamente, que para tal se sacrificam os animais, este pretende consumir artigos de "couro vegan". Ora, se o couro é sem qualquer tipo de duvida um produto de origem animal não existe tal coisa como um "couro vegan". O que existem são produtos sintéticos desenvolvidos especificamente para o mercado vegan que se tentam aproveitar do prestigio e imagem de luxo do couro genuíno para valorizar um produto que não passa de um mero derivado do petróleo ou de um resíduo envolvido numa "corriqueira" resina. Ou seja, a preocupação dos vegan em consumirem artigos sustentáveis e amigos do ambiente acaba por resultar na produção e consumo de artigos com um grau muito menor de sustentabilidade e até altamente poluentes e de origem não renovável. Contudo, a falta de informação dos consumidores e do publico em geral acerca do que é o couro e do papel de reciclagem da indústria de curtumes acaba por deixar um terreno muito fértil ao populismo dos movimentos de defesa do direito dos animais que prejudica o couro de forma altamente injusta.

E o Ministério do Ambiente tem respondido de forma informada?
Apesar dos esforços da APIC, nem sempre conseguimos fazer passar a mensagem aos nossos governantes, quer seja o Ministério do Ambiente ou outro. A este nível seria necessária uma maior proximidade e conhecimento do terreno. Contudo, em relação ao Ministério do Ambiente e a APA - Agência Portuguesa do Ambiente - tentamos a alertar para os riscos do resgate da concessão da ETAR de Alcanena por parte do Município de Alcanena. Passou já mais de um ano desde o resgate da concessão e as obras necessárias à renovação da Licença de Descarga da ETAR por parte da APA ainda não foram realizadas pelo novo concessionário, a Empresa Municipal, AQUANENA, SA. Atualmente, as empresas de curtumes não tem forma de cumprir as certificações ambientais por falta de uma licença de descarga da ETAR que cumpra os mais elevados padrões do setor em termos mundiais.
A intervenção pública na ETAR de Alcanena por parte do Município de Alcanena veio retirar competitividade à indústria de curtumes e representa um retrocesso ambiental e infelizmente o Ministério do Ambiente não tem um papel ativo na reversão deste estado de coisas.

A indústria dos curtumes nacional está ao nível do que se faz lá fora?
A indústria de curtumes Portuguesa está hoje representada nos principais mercados mundiais do couro e exporta para todo o mundo. Para além de estar presente nas principais feiras mundiais do setor, tem hoje como clientes as marcas de topo do mundo da moda e do setor automóvel. Quando compra um artigo em pele de uma destas grandes marcas existem uma muito boa probabilidade de estar a usar uma pele "made in Portugal".
As peles portuguesas estão hoje ao nível dos italianos e isto é reconhecido pelos clientes. Ao nível da Europa, a indústria de curtumes portuguesa aproxima-se do segundo lugar, em termos de relação preço/qualidade. Para além de que o setor do calçado nacional, que atingiu o patamar de reconhecimento mundial que todos admiramos, utilizar no fabrico dos sapatos de couro genuíno as peles produzidas pelos curtumes portugueses.

Quanto representa esta indústria para o país - e especificamente na região ribatejana - e quanto pesa nas exportações? Estamos a falar de quantas empresas e de quantos empregos?
A indústria de curtumes é uma indústria pequena, mas que produz um produto de consumo industrial intermédio, com um forte efeito multiplicador. O couro acabado é utilizado como matéria-prima, como input num conjunto muito variado de setores desde o calçado até ao automóvel, passando pela marroquinaria, vestuário e acessórios de moda.

Ou seja, a indústria gera maior riqueza e emprego proporcionalmente a jusante da sua atividade que o gerado pela indústria de curtumes per si. Ainda assim, gera um Volume de negócios anual de 400 milhões de EUR, dos quais exporta 128 milhões de EUR, de forma direta, correspondendo a uma quota exportadora de cerca de 45%.
A restante produção é na sua quase totalidade fornecida ao setor de calçado português, que por sua vez exporta mais de 90% da sua produção, o que torna esta fileira do couro/calçado quase 100% exportadora. A indústria de curtumes Portuguesa representa um cluster de 131 empresas, das quais 60 são industriais e emprega direta e indiretamente 3500 pessoas.

A digitalização e a economia circular estão já muito presentes nesta indústria?
A digitalização está em curso a bom ritmo, um bom exemplo é o Projeto PT Leather InDesign desenvolvido pela APIC ao longo dos últimos 4 anos com apresentação online de coleções (segue link para a apresentação da coleção Outono / Inverno 2021 - 2022) e também com a criação de um Trendbook em formato papel mas também disponível online para designers o poderem utilizar como inspiração para as suas criações. O Trendbook digital está disponivel aqui.

As empresas estão a seguir o caminho apontado pela APIC e têm apostado cada vez mais em conteúdos digitais, nomeadamente catálogos digitais. Contudo, dado caráter sensorial da pele, a componente digital é apenas um complemento que não substitui o contacto com a matéria.
Ao nível da Economia Circular existia uma possibilidade de projeto muito interessante para converter os resíduos de couro em eletricidade que por sua vez asseguraria o abastecimento de eletricidade da ETAR, que por sua vez efetua o tratamento das aguas residuais. Contudo, as entidades oficiais vedaram esta possibilidade e agora estamos a avançar com um projeto para valorização em fertilizantes, que contudo tem um nível de rentabilidade inferior e com um payback bastante superior.
A economia circular é uma presença constante no setor e que será reforçada no Plano Estratégico para a indústria de curtumes que a APIC tem em curso de elaboração.

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